23 de agosto de 2015

Paquete “Pátria”

Resultado do "Despacho 100", criado pelo, então Ministro da Marinha, Almirante Américo Thomaz em 10 de Agosto de 1945, foram encomendados, no final desse ano, quatro navios de passageiros de 13.000 toneladas de arqueação bruta e atingindo 18 nós de velocidade, destinados à carreira da África Oriental. A "Companhia Colonial de Navegação" (CCN), encomendou os paquetes gémeos "Pátria" e "Império" ao estaleiro escocês “John Brown & Cº. Ltd.” , de Clydebank, aproveitando um projecto desenvolvido por este para a companhia "Anchor Line", depois de introduzidas algumas alterações.

“Pátria” a entrar o rio Tejo pela primeira vez, em 1 de Janeiro de 1948

Estaleiros “John Brown & Cº. Ltd.” em Clydebank, Escócia

No dia 26 de Junho de 1946, teve lugar o assentamento das quilhas dos paquetes "Pátria” e "Império" no referido estaleiro. O paquete "Pátria", que orçou em 1380.000 contos, seria lançado à água em 30 de Junho de 1947, tendo como madrinha a Dª. Joaquina A. C. Ladesma Corrêa, mulher do presidente da CCN, Sr. Bernardino Corrêa, tendo sido entregue à “Companhia Colonial de Navegação" em 27 de Dezembro do mesmo ano. Na mesma data procedeu-se ao lançamento à água do paquete "Império", que viria a ser entregue à CCN a 24 de Junho de 1948.

Para esta cerimónia, e em Dezembro de 1947 o paquete "Guiné" deslocou-se a Glasgow levando a bordo o armador Bernardino Corrêa, presidente da CCN e um grupo de 62 convidados da empresa, para assistirem ao lançamento à água dos paquetes "Pátria" e "Império" e à entrega do "Pátria", tendo efectuado nele a viagem de regresso a Lisboa, assim como parte da sua futura tripulação.

Lançamento à água

Assim, foi em 28 de Dezembro de 1947 que o novo paquete "Pátria", com o seu primeiro comandante o capitão Américo Martins Verdades zarpou de Glasgow, rumando em direcção a Lisboa, chegando ao Tejo no dia 1 de Janeiro de 1948, no mesmo dia da chegada do novo navio de carga “Lunda”, adquirido pela CCN nos Estados-Unidos.

A propósito da chegada a Lisboa do “Pátria”, o jornal “Diario de Lisbôa” escrevia a determinado passo:

«O "Pátria", á frente de um longo cortejo de embarcações, retomou então a marcha rio acima, enquanto os membros do governo subiam para a ponte do comando. Pelas 10 horas, a mancha clara e imponente do maior e mais moderno paquete português destacava-se diante da Praça do Comércio, onde centenas de pessoas admiravam o belo espectáculo, nesta manhã festiva de Ano Novo.
Nesse momento subiam nos mastros do aviso "Pedro Nunes", navio-chefe da esquadra, bandeiras de sinais, que significavam "Seja bem-vindo!", saudação que o "Pátria" imediatamente agradeceu, enquanto muitas sereias de rebocadores silvavam com intermitências. O claxon grave do paquete respondia com séries de três roncos prolongados que repercutiam seus écos pelas colinas da cidade.
Entretanto, os membros do Governo davam começo a uma rápida visita ao "Pátria" e percorriam os salões de música e de jantar e o bar da 1ª classe, as instalações das classes turística e terceira, a casa das máquinas e outras dependências, em especial a ampla e bem apetrechada enfermaria. Estiveram depois num camarote de luxo e num camarote de casal, cuja disposição e mobiliário lhes mereceram, como todas as outras instalações, as mais calorosas referências.»

Postal

Frota da “Companhia Colonial de Navegação” em 1 de Janeiro de 1948

Acerca do navio-tanque “Sameiro” referido na lista anterior consultar neste blog o seguinte link: Navio-Tanque “Sameiro”

A 26 de Janeiro de 1948, o "Pátria" iniciaria em Lisboa a sua primeira viagem a Moçambique, com as habituais escalas no Funchal, São Tomé, Luanda, Lobito, Moçâmedes, Cidade do Cabo, Lourenço Marques, e Beira. Verdadeiro acontecimento nacional, a viagem comercial inaugural do "Pátria" foi no entanto marcada por um contratempo, que obrigou à imobilização do paquete na Cidade do Cabo, na África do Sul, entre 17 de Fevereiro e 18 de Março de 1948. Tal foi originado por uma avaria nos geradores de electricidade. Resolvido o problema o paquete continuou a sua viagem rumo a Moçambique, tendo regressado a Lisboa em 30 de Abril, com 600 passageiros a bordo.

18 de Janeiro de 1948

25 de Janeiro de 1948

Etiqueta de bagagem de camarote da 1ª classe

A segunda viagem a África, de 22 de Maio de 1948 a 10 de Julho do mesmo ano, foi efectuada em 49 dias, e considerada um recorde. Em 5 de Agosto de 1948 o “Pátria” saiu de Lisboa em substituição do paquete “Serpa Pinto” (1940-1955) numa viagem especial ao Brasil, com escalas no Funchal, São Vicente, Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Santos, regressando ao Tejo a 4 de Setembro.

                             Sala de jantar da 1ª classe                                                 Salão de música da 1ª classe

 

Painel decorativo da autoria de Ayres de Carvalho, na escadaria da 1ª classe

                                         Varanda                                                                               Camarote

 

Tombadilho de passeio

Entretanto eram entregues, à "Companhia Nacional de Navegação", os primeiros paquetes portugueses equipados com motores a diesel: o Angola” (1948-1974) a 17 de Dezembro de 1948, e o Moçambique” (1949-1972) a 15 de Outubro de 1949.

                             “Angola” (1948-1974)                                                          “Moçambique” (1949-1972)

 

Em Janeiro e Fevereiro de 1956, o “Pátria” efectuou duas viagens Lisboa-Luanda-Lobito. Nova viagem ao Brasil, com o mesmo itinerário da de 1948, seria iniciada em Lisboa a 4 de Agosto de 1956, seguida em 7 de Setembro de 1956, de uma viagem à América Central, com partida de Lisboa em direcção a Vigo, Funchal, Tenerife, La Guaira, Curaçau, Kingston e Havana.

Paquetes “Pátria” e “Angola” na doca de Alcântara, com a futura “Ponte Salazar” em construção ao fundo

“Pátria” de partida para África

 

Em 1958 foi instalado ar condicionado em todas as dependências do navio. Em 20 de Abril de 1962 o “Pátria” seria fretado ao Ministério do Exército (portaria nº 19.148 de 26-04-1962) seguindo de Moçambique para Karachi, onde embarcou militares prisioneiros da Índia Portuguesa rumo a Lisboa via Canal do Suez.

Caderno de viagem do “Pátria”, ementa e baralhos de cartas de jogar

      

Quanto ao rebocador “Patria”, referido no caderno de viagem (antepenúltima página), aqui fica a foto

De 17 de Março a 11 de Maio de 1973 o “Pátria” efectuou a última viagem regular à África, e a 11 de Junho de 1973 largou de Lisboa pela última vez para Leixões, Luanda, Lobito, Lourenço Marques e Kaohsiung, Formosa, onde chegou em 01 de Agosto de 1973, sendo desmantelado pela firma “Chi Shun Hwa Co.”. O registo foi cancelado em 6 de Agosto de 1973. 

O “Pátria” de partida, em 17 de Março de 1973,  para a sua derradeira viagem com final no sucateiro na Ilha Formosa

                                              1952                                                                                       1973

 

Características do paquete “Pátria” :

Tipo: Navio misto de 2 hélices
Construtor: “John Brown & Ca. Ld.”
Local construção: Clydebank - Glasgow - Escócia
Ano de construção: 1947
Ano de abate: 1973 (Kaohsiung)
Registo: Capitania do porto de Lisboa, em 20 de Janeiro de 1948, com o número G 495
Sinal de código: C S L X
Comprimento fora a fora: 161,85 m
Boca máxima: 20,83 m
Calado à proa: 8,56 m
Calado à popa: 8,56 m
Arqueação bruta: 13.196,48 Toneladas
Arqueação Líquida :7.805,33 Toneladas
Capacidade: 11.230 m3
Porte bruto: 10.743 Toneladas
Grupo propulsor: Dois grupos de turbinas, construídos em 1947 por “John Brown & Ca. Ld.” Duas caldeiras para 30 K/cm2 de pressão. Potência: 13.200 cavalos
Velocidade máxima: 18,5 nós
Velocidade normal: 16,5 nós
Passageiros: 18 em classe de luxo, 96 em primeira classe, 160 em segunda, 118 em terceira e 406 em terceira suplementar, no total de 798 passageiros.
Tripulantes: 167
Armador: "Companhia Colonial de Navegação" (CCN)

Bibliografia: Foi, também, consultado o livro: «Paquetes Portugueses», de Luís Miguel Correia, Edições Inapa, Lisboa, 1992.

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Navios e Navegadores, Blog dos Navios e do Mar

10 comentários:

Anónimo disse...

No tempo em que haviam paquetes novos e Companhias de Navegação...

João Celorico disse...

Caro José Leite,
neste belo "post", a foto onde, "na Doca do Espanhol", se veem o "Pátria", o "Angola" e a Ponte Salazar, ainda em construção, é quase seguramente de Fevereiro de 1966, aquando duma grande reparação do "Angola", devido a encalhe na Ilha de Moçambique, em 25 de Novembro de 1965. Essa reparação, no Estaleiro Naval da CUF, durou desde 18 de Janeiro a 26 de Fevereiro, portanto estava ali atracado já depois de reparado o fundo e só em acabamentos.

Cumprimentos,
João Celorico

José Leite disse...

Caro João Celorico

Grato pelo seu comentário, mas ... desta vez não estou de acordo consigo pelo seguinte motivo:

A "Ponte Salazar" só tem ainda os pilares construídos, sem qualquer parte do tabuleiro ainda montado, como poderá observar na referida foto. Como foi inaugurada em 6 de Agosto de 1966, não vejo possibilidade do ano que o amigo João Celorico refere.

Os meus cumprimentos
José Leite

João Celorico disse...

Caro José Leite,
terá muita razão no que diz pois 6 meses para colocar o tabuleiro também a mim parece pouco. No entanto o que eu posso dizer é que desde Setembro de 1963 a Maio de 1966, andava eu no "Angola" e não me lembro de ter estado na doca do Espanhol a não ser pelo motivo que expliquei, pois o poiso do "Angola" era outro, no Cais da Fundição, em Santa Apolónia e também me parece recordar que em Maio de 1966, a minha última viagem, ainda andavam em trabalhos de construção do tabuleiro.
Recordo, e isso perfeitamente que, no dia da final do Campeonato do Mundo de Futebol de 1966, 30 de Julho, ainda os acessos na margem sul não estavam prontos. Eu estive no local!
Claro que isto são apenas algumas notas soltas e até pode ser que o meu "disco rígido" já comece a falhar! Portanto a minha informação, vale o que vale!

Cumprimentos,
João Celorico

José Leite disse...

Caro João Celorico

Não tem problema. "Estamos cá para isso" ... :)

O meu "disco rígido" por vezes também falha. è normal nós é que nos convençemos que a idade não avança, ou se avança o resto não.

Eu é que agradeço as suas achegas que , infelizmente, é dos poucos ...

Já reparei há uns tempos que foi homem do mar. O meu falecido pai também o foi, até ao final dos anos 50. Começou na pesca do bacalhau, "saltou" para 1º piloto, imediato, nos velhos "Save", "Quanza", "Niassa", "Mouzinho", "Pátria" que creio que foi o último.

Os meus cumprimentos

José Leite

João Celorico disse...

Caro José Leite,
correndo o risco de me tornar aborrecido com assunto que pode parecer de tão pouco valimento, aqui estou de novo. Porque eu também falho mas ainda me dou ao "luxo" de confiar na memória e neste momento talvez possa adiantar que a foto, a não ser de Fevereiro, será de uma data entre 15 e 18 de Janeiro, portanto antes de entrada em doca seca, teremos estado ali na Doca do Espanhol um dia ou dois. Chegámos de viagem no dia 9 de Janeiro, domingo, seria o único navio de passageiros da frota nacional a passar o Natal de 1965 em Lisboa mas, devido ao encalhe só chegámos no dia 9 e eu fiquei de serviço. Portanto só "cheguei" no dia 10 a casa!
Depois de ver o documentário em http://portugalglorioso.blogspot.pt/2015/03/historia-da-ponte-sobre-o-tejo.html
mais convicto fiquei de que não andarei longe da verdade. Ali cerca dos 12 a 15 minutos, lá estão 5 meses para a montagem dos troços do tabuleiro. Foi efectivamente uma grande obra!
Eu fui marinheiro mas pouco, foi apenas de recurso para não ir tirar as medidas às picadas de Angola!
O "Save" foi de triste memória, não talvez já para o seu pai, mas conheci colegas ainda traumatizados com o naufrágio. O "Quanza", tenho uma foto da minha primeira viagem, no meu blogue. O "Niassa", era conhecido pelo transporte de tropas e porque os sobressalentes serviam também para o "Angola", só que o "Niassa" apenas tinha um motor "Doxford".
Quanto ao "Mouzinho" e ao "Pátria", só os conhecia de vista!

E, por agora, é tudo e já não é pouco!

Cumprimentos,
João Celorico

José Leite disse...

Caro João Celorico

Tudo esclarecido.

Os meus cumprimentos
José Leite

Anónimo disse...

No meu comentário anterior, já vi que me enganei, pois o Príncipe Perfeito era da CNN.Pela consulta que agora fiz , julgo tratar-se do Infante D. Henrique.(tinha uma grelha na frente da chaminé), e nesta foto nota-se a reentrância da mesma.
Cumprimentos
JF

José Leite disse...

Caro JF

Tem razão.
Trata-se do paquete "Infante Dom Henrique" da "Companhia Colonial de Navegação", atracado no cais da Rocha do Conde d'Óbidos

Os meus cumprimentos
José Leite

Anónimo disse...

boa tarde. o meu avô, João Almeida Tavares, fez parte da marinha mercante no navio "Pátria". queria saber se alguém tem registros dele e de operações que ele fez no mesmo navio.
Agradecida,
Cumprimentos,
Irene Tavares