10 de maio de 2012

Ponte Sobre o Tejo

Vários projectos para a travessia do Tejo tinham sido elaborados e apresentados desde 1876, com várias opções de localização. O assunto foi debatido no parlamento e foram nomeadas comissões para estudar as propostas em 1933 e em 1953. Essas histórias poderão ser lidas no seguinte link : Ponte entre o Beato e o Montijo , de 20 de Maio de 2011.

Algumas propostas para a travessia do Tejo em Ponte

Paisagem antes da construção da “Ponte Salazar”

Em 27 de Janeiro de1959 foi aberto um concurso público internacional, para que fossem apresentadas propostas para a construção, tendo sido a obra orçamentada em 2.145.000 contos (10.703.000 €). Após a apresentação de quatro propostas, o que aconteceu em 23 de Fevereiro de 1960, é assinado o contrato da obra para, em 10 de Março de 1962, se fazer a adjudicação definitiva à empresa norte-americana “United States Steel Export Company”, que, já em 1935, tinha apresentado um projecto para a sua construção.

Maquetas

 

Maqueta.3 Ponte Salazar.38

Gabinete de estudos no “LNEC - Laboratório Nacional de Engenharia Civil

Após feitas as primeiras expropriações em 5 de Outubro de 1962 procede-se à montagem da primeira secção. A sua construção teve início em 5 de Novembro de 1962 tendo o seu planeamento geral, condução e fiscalização estado a cargo do "Gabinete da Ponte Sobre o Tejo", sob a direcção do engenheiro José do Canto Moniz. Em Abril de 1964 concluíram-se todos os trabalhos de fundações e em Dezembro do mesmo ano estavam realizadas 84% das terraplanagens previstas.

Quanto ao financiamento desta obra, a ponte foi integrada no II Plano de Fomento tendo sido decidido que seria utilizado crédito externo. Assim a empresa que ficou encarregada da obra, - a “United States Steel International” com a qual colaboraram mais onze empresas entre as quais nove portuguesas - disponibilizou um financiamento para os encargos em dólares com os fornecimentos de materiais, equipamentos e serviços através do “Export Import Bank of Washington”. Para o financiamento dos encargo locais, a satisfazer em escudos, foi disponibilizado pelo “Banque Seligman de Paris”, com contrapartida em equivalente valor de importações de equipamento da zona do “Mercado Comum Europeu” destinado aos serviços públicos e entidades privadas de interesse público.

Gravura da concepção dos caixões dos pilares

 

 

 

  

O director do “Gabinete da Ponte Sobre o Tejo” Engº Canto Moniz, o Chefe de Estado Almirante Américo Thomaz, e o Ministro da Obras Públicas Engº Arantes e Oliveira, assistem à colocação do primeiro tramo do tabuleiro da ponte


 

 

Principais empresas portuguesas participantes na obra:

Construções Técnicas, Sorefame, Sociedade Lisbonense de Metalização, Sopol, Cabos Eléctricos Ávila, Cavan, Siemens Portugal, Electrotécnicos Reunidos, STET - Caterpillar, Cimentos Secil, Cimentos Tejo, António Veiga, Lda. Obrecol, Sacor, Sonap, Gazcidla e Estabelecimentos J. B. Fernandes.

No fim de 1962 trabalhavam já na obra 2.000 operários e em 1963 subiam para 2.800. «Quase não houve desastres durante a construção da ponte. Não chegou a uma dezena de mortes verificadas e dois morreram de,em horas livres, utilizarem um maquinismo de maneira indevida» in: Flama 

 

 



Dados de construção da "Ponte Salazar", à data da sua inauguração:

1.012,88 metros de comprimento do vão principal
2.277,64 metros de distância de amarração a amarração
70 metros de altura do vão acima do nível da água
190,47 metros de altura das torres principais acima do nível da água
58,6 centímetros de diâmetro de cada cabo principal
11.248 fios de aço com 4,87 milímetros de diâmetro, em cada cabo (o que totaliza 54,196 quilómetros de fio de aço)
79,3 metros de profundidade, abaixo do nível de água, no pilar principal, Sul
30 quilómetros de rodovias nos acessos Norte e Sul com 32 estruturas de betão armado e pré-esforçado
Foram aplicados 263.000 metros cúbicos de betão e 72.600 toneladas de aço.

 

 

A “Ponte Salazar”  foi construída de modo comportar uma linha de caminho de ferro.Nesta ponte suspensa seria só montar os cabos inclinados auxiliares e colocar as estruturas para os carris.Nos viadutos de betão, seria necessário assentar uma estrutura metálica, mas até as peças para as montar ficaram colocadas de início.

Não foi ao acaso que a cor de tijolo foi escolhida para a ponte. Se a cor não oferecesse suficiente contraste entre o azul do céu e a cor do rio Tejo a ponte passaria «despercebida», como tinha acontecido com a ponte de São Francisco nos Estados Unidos que inicialmente pintada de cinzento chegara-se à conclusão que a mesma se «perdera» entre o céu e as águas.

                         Ensaios de carga (Julho de 1966)                                  Auto-estrada até ao Fogueteiro (iluminada) 

 

Menos de quatro anos após o início destes, ou seja, passados 45 meses, a ponte sobre o Tejo foi inaugurada (seis meses antes do prazo previsto), cerimónia que decorreu no dia 6 de Agosto de 1966, do lado de Almada na praça das portagens. Estiveram presentes as mais altas individualidades portuguesas, entre as quais se destacou o Presidente da República, Almirante Américo de Deus Rodrigues Tomás, o Presidente do Conselho de Ministros, Dr. António de Oliveira Salazar e o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, General França Borges, passando a ser chamada "Ponte Salazar" ainda que a sua designação legal se mantivesse como sendo "Ponte Sobre o Tejo".

 

Cerimónia de inauguração em 6 de Agosto de 1966

          Presidente do Conselho, Doutor Oliveira Salazar               Presidente da República, Almirante Américo Thomaz

 

 

Presidente da República Almirante Américo Thomaz

Discurso do General França Borges presidente da CML

Mensagem da Câmara Municipal de Lisboa ao Doutor Oliveira Salazar, no dia da inauguração da Ponte

Comitiva presidencial na inauguração da “Ponte Salazar”

  

             

Bilhete
gentilmente cedido por Carlos Caria

Notícia da inauguração da “Ponte Salazar” em alguma imprensa da época

  

Diário Popular.1

 

No dia seguinte à inauguração

 

As primeiras filas …

E os primeiros contratempos

Praça das portagens

 

Bilhete


gentilmente cedido por Carlos Caria

 

O custo desta ponte foi recuperado com as receitas das portagens e do imposto aplicado, por decreto, a terrenos e prédios na margem sul, valorizados com a nova via.

O comboio na, já “Ponte 25 de Abril” seria inaugurado em Julho de 1999. A travessia ferroviária na parte inferior do tabuleiro da ponte, foi prevista desde o início da construção da ponte, custou 250 milhões de euros e incluiu, além da introdução da linha férrea, o alargamento do tabuleiro rodoviário, o reforço da estrutura, a reparação geral, reabilitação e pintura total e ainda a reformulação da instalação eléctrica.

O tempo do percurso no comboio da "Fertagus" para atravessar a ponte é de 7 minutos, e a ligação entre as estações das duas margens – Pragal / Campolide – é de 9 minutos.

                                               Maquetas do projecto inicial para o futuro comboio na Ponte

 

Comboio na ponte.1

 

Inaugurada com o nome de "Ponte Salazar" e encontrando-se ainda hoje entre as maiores 20 pontes suspensas do mundo (17ª), e considerada na época a maior construção do género na Europa, viu o seu nome mudado, logo após o 25 de Abril de 1974, para "Ponte 25 de Abril" e por razões políticas, apesar de sempre ter sido mais conhecida por "Ponte Sobre o Tejo" .

Moeda de 20$00 (vinte escudos) em prata emitida por ocasião da inauguração

Emissões filatélicas dos CTT

Postal

Fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (estúdio Mário Novais), Hemeroteca Digital, Biblioteca Nacional Digital, Flickr, Estradas de Portugal, LNEC

10 comentários:

Anónimo disse...

houve uma foto que me ajudou muito, obrigado a quem fez este blog

APS disse...

Caro José Leite

Belíssimo tema, bastante desenvolvido e amplamente documentado com fotos.
E para complementar, indico que a emissão de selos da inauguração da ponte são quatro valores, faltando precisamente o selo de 4$30,(embora as imagens sejam só duas, conforme indica).
Um abraço
APS

José Leite disse...

Caro Agostinho

Grato pelo seu comentário e pela informação que adiconou.

Quanto aos outros selos em falta não consegui imagens «dignas» para serem publicadas.

Um abraço

José Leite

Nelson Oliveira disse...

Belíssimas fotos.
Quando vi as fotos da maqueta fez lembrar quando nos anos 80 nas instalações da jae subia ao piso superior da imponente entrada do orifício.
Ai estavam as varias maquetes de estudo e a grande que tem as duas margens.
Gostaria de ver imagens mais detalhadas desta construção.
Nelson.

ié-ié disse...

Caro José Leite:

Noutro forum, estou em discussão sobre a posição de Salazar relativamente à construção da Ponte.

Defendi e defendo a tese de que na discussão do tema em Conselho de Ministros, Salazar se opôs à construção da Ponte, argumentando com o esforço financeiro da guerra colonial. Mais se opôs que se lhe desse o seu nome.

Julgava que tinha isso documentado. Verifico agora que não encontro esse suporte documental.

Poderá ajudar-me?

Obrigado e abraço.

Luís Pinheiro de Almeida

José Leite disse...

Caro Luís Pinheiro de Almeida

Infelizmente não tenho suporte documental para comprovar essas teses.

Quanto ao esforço financeiro tudo se resolveu com o financiamento americano, como escrevi.

Quanto a ele se opor a que dessem o seu nome à Ponte foi uma realidade.

Lamento não o poder ajudar.

Um abraço

José Leite

ié-ié disse...

Talvez nem tanto a guerra colonial, mas tão-só o esforço financeiro, já que o Conselho de Ministros a que me refiro provavelmente seja anterior à guerra.

LPA

José Leite disse...

Caro Luís

Tem razão. O problema estava em que Portugal estava impossibilitado de aceder a crédito externo, devida à bancarrota de 1891.

A empresa construtora americana, conseguiu parte do empréstimo, para o pagamento em dólares e Portugal conseguiu o resto para pagamentos das obras em escudos.

José Leite

Anónimo disse...

Excelente JOSÉ LEITE.Muito obrigado pela memória.A memória de uns quantos poucos, que quiseram fazer obra e deixarem para os vindouros.E sem euros da CEE.
Parabéns e Obrigado pelo seu trabalho e tempo para que a memória não seja curta.
Carlos Gaspar

José Leite disse...

Caro Carlos Gaspar

Eu é que agradeço o seu amável comentário.

Os meus cumprimentos

José Leite