23 de Setembro de 2014

Antigamente (104)

Hoje publico uma série de documentos e outras curiosidades históricas, gentilmente cedidos pelo sr. Miguel Madaíl, que me permitiu digitalizar e publica-los, a quem aproveito para, mais uma vez, agradecer.

Passaporte Especial, emitido em 16 de Agosto de 1956

 

O “Passaporte Especial” é destinado exclusivamente a pessoas que são expressamente incumbidas pelo Estado de missão em Serviço Público, e sempre que a natureza desta missão não implique a concessão de “Passaporte Diplomático”, e apenas deve ser utilizado quando o seu titular se desloque na qualidade que justifica a sua concessão.

Passaporte comum, emitido em 15 de Setembro de 1959

 

Cartilha do Tosquiador de 1954

Bilhete de entrada para o “Maxime” - restaurante e dancing

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Programa do “Cine-Teatro Éden” de 29 de Julho de 1960

 

Bilhete de “Totobola” de 18 de Novembro de 1962

 

Documentos do espólio de Miguel Madaíl

21 de Setembro de 2014

Armazéns Grandella & C.ª

Francisco de Almeida Grandella (1852-1934), republicano, maçon e benemérito nasceu em Aveiras de Cima, em 1852. Começou a sua vida profissional, em Lisboa, como marçano na Rua dos Fanqueiros, tendo sido posteriormente, caixeiro, antes de inaugurar, com 27 anos de idade e com capital emprestado, uma pequena loja na Rua da Prata, em 1879 designada por “Fazendas Baratas e Grandella”. No dia da inauguração deste estabelecimento, tinha já realizado 400 mil réis de vendas por encomenda.

Foi Francisco Grandella que mandou construir o “Theatro da Rua dos Condes”, inaugurado em 23 de Dezembro de 1888. Depois de ter sido pioneiro na venda de produtos com garantia e entregues ao domicílio, dois anos depois, em 1881, tornava-se dono de uma grande loja no Rossio de seu nome "Loja do Povo", com a sua fachada pintada de vermelho, cor que fardava os empregados.

    

“Loja do Povo” na Praça D. Pedro IV (Rossio)

Cinco anos mais tarde, em 1886, a “Loja do Povo” não chegava para tanta clientela e encomendas o que obrigou à aquisição de outro estabelecimento, na Rua do Ouro, “O Novo Mundo”, o maior então na capital. Este estabelecimento veio substituir o antigo “Centro Comercial Portuguez”, instalado desde 1880 nesta Rua Áurea nº 120, tendo sido tomado por trespasse por Francisco de Almeida Grandella. O serviço da entrega de encomendas em Lisboa, na década de 90 do século XIX, era feito por oito carroças e um grande automóvel.

Acusado de contrabando para conseguir preços baixos nos produtos que vendia, Francisco Grandella aproveitou a ideia em termos publicitários, anunciando uma remessa seguinte do seguinte modo: "Chegaram mais fazendas de contrabando". Ele obtinha preços mais em conta porque dispensara intermediários, indo às fábricas com dinheiro na mão e obtendo descontos, para além de comprar saldos.

A sonho de Francisco Grandella era de instalar em Lisboa um «grandioso armazém inspirado nos modelos parisienses», onde reunisse todas as de venda, os escritórios e os armazéns, espalhados por vários pontos da cidade, num só edifício.

Francisco Grandella, que viajaria pela Europa, ficara impressionado com o “Printemps” de Paris. Em Lisboa, os Grandes Armazéns do Chiado (abertos em 1894) seriam os seus concorrentes. Grandella introduziu o anúncio comercial, a possibilidade de trocar ou reembolsar o dinheiro caso o cliente não gostasse do produto, a entrega ao domicílio e a publicação de catálogos com as colecções.

A primeira versão dos "Grandes Armazéns Grandella & Cª." foi inaugurada em 10 de Julho de 1891, num edifício no gaveto da Rua Áurea com a Rua da Assunção, contíguo ao "Montepio Geral", depois de devidamente remodelado e mantendo a traça pombalina.

Publicidade e notícia no jornal “O Tempo” alusivas à inauguração dos “Grandes Armazéns Grandella & Cª.”

       1897 Grandella.1 (Jan)      

“Grandes Armazéms Grandella & Cª.” à esquerda na foto seguinte

 

Em 1898 é editado e impresso, em português e francês o “Guia itinerário do visitante de Lisboa”, um brinde que os “Armazéns Grandella & Cª.” ofereciam aos seus clientes aquando das comemorações do IV Centenário da Descoberta da Índia (1498-1898).

Francisco Grandella procurou, desde o início, alargar o seu negócio a todo o país. Dedicou-se à produção fabril na área de lanifícios para produção de malhas e vestuário diverso de qualidade e a preços competitivos. Incrementava as suas vendas com a publicação de catálogos e organizou um serviço de vendas por correspondência com secção de expedição franqueada, via correios e caminho-de-ferro, como se pode constatar na figura seguinte. A forte aposta na publicidade nos jornais ajudou a fazer destes armazéns uma referência incontornável na moda de Lisboa.

«O visitante, de passagem neste andar [o 3º andar], deve deixar a sua morada na secção da província para que lhe sejam enviados grátis e franco de porte todos os catálogos e publicações da nossa casa. Descendo, para tomar o itinerário que vamos descrever, o nosso amavel hospede poderá aproveitar a occasião das festas de centenário da India, pômos á venda em todas as secções do nosso estabelecimento, occasiões excepcionaes que aconselhamos especialmente, aos nossos estimáveis clientes da provincia, que certamente não terão occasião egual para comprar tão barato.»

Ainda na primeira página deste “Guia Itinerário do Visitante de Lisboa”, a preocupação de agradar ao cliente:

«Os grandes armazéns Grandella & Cª, querendo proporcionar aos seus clientes da província todos os meios para que a vinda a Lisboa lhes seja muito fácil, tem a honra de participar a V. Exª que se encarregam de lhe procurar alojamento em Lisboa, caso queira fazer parte dos numerosos romeiros que virão prestar homenagem ao Grande Portuguez D. Vasco da Gama.»

Em 1903 Francisco Grandella adquire um imóvel cuja fachada deitava para a Rua Nova do Carmo, tendo-se dado início de imediato as demolições deste edifício e do que albergava os “Grandes Armazéns Grandella & Cª.” na Rua Áurea.

O novo edifício, foi inaugurado, a 8 de Abril de 1907, com pompa e circunstância, e com a presença de figuras republicanas, como Bernardino Machado, Affonso Costa, João das Chageas, entre outros. Foi projectado pelo francês Georges Demaye, especialista em arquitectura do ferro, que, inspirado nos armazéns franceses “Samaritaine”, adoptou para esta nova versão dos “Armazéns Grandella”, uma estrutura de ferro fundido, seguindo um gosto Arte Nova, mas sem esquecer a arte decorativa portuguesa. Envolvidos no processo de construção, estiveram, para além do referido arquitecto, o engenheiro Ângelo de Sarrea Prado (notabilizado pela construção dos caminhos-de-ferro em África) e o construtor civil João Pedro Santos (responsável pela construção do “Estabelecimento Prisional de Lisboa”).

Notícia da inauguração dos “Armazens Grandella” no jornal “Diario Illustrado”

               

Anúncio no jornal “Vanguarda” em 7 de Abril de 1907

   

“Armazéms Grandella” na Rua do Carmo e na Rua Áurea com o edfício-sede do “Montepio Geral” fundado em 1840

   

Trata-se de um edifício de duas fachadas, com acessos pela Rua do Ouro, onde Grandella, como já foi referido, tinha um estabelecimento comercial, e pela Rua do Carmo, desenvolvendo-se em 11 andares a partir da Rua do Ouro e em 6 pisos a contar da entrada da Rua do Carmo. A fachada da Rua do Carmo, andar nobre da casa, exibia um relógio monumental, onde duas figuras de ferreiros batiam as horas, o qual encimava dois baixos-relevos representando a “Verdade e o Comércio”. Por sua vez, as colunas entre as portas ostentavam medalhões esculpidos na cantaria com o lema da casa: “Sempre por bom caminho e segue”.

A divisa dos “Armazéns Grandella” era “ Sempre por bom caminho e segue! É a nossa divisa; com ela pensamos morrer, e oxalá os nossos sucessores nunca a alterem”.

Escadaria interior dos “Armazéns Grandella” e ascensor

   

 

  

A loja com entrada para a Rua do Carmo, andar nobre da casa, ficou dedicada às sedas, às fitas e às rendas - todos os atavios da "toilette" feminina em tempos anteriores ao pronto-a-vestir. Sobre esta área, a zona mais frequentada pelas damas de sociedade, vale a pena registar os louvores publicitários das agendas Grandella: «Entrando pela Rua do Carmo encontra-se a mais importante e mais rica secção do estabelecimento. É a secção de sedas. O seu sortimento proveniente das principais fábricas estrangeiras, eleva-se a algumas centenas de contos de réis. Aqueles castelos de peças, cheias de vida, de finura, de graça, matizadas, vaporosas, estonteantes, dão a esta . secção um tom de grandeza que deslumbra».

Outras secções distribuíam-se pelos 10 pisos: alfaiataria, decoração, artigos de viagem, brinquedos, pronto-a-vestir, sapataria, etc. No sétimo piso ficavam os escritórios, secções de atendimento, informação, promoção, distribuição e encomendas para a província. No 4º andar encontravam-se as Salas de jantar de fumo e leitura dos proprietários, que foram decoradas em estilos árabe, Luís XV e Luís XVI. Neste mesmo piso a sala de jantar dos empregados com lustres de azulejos de Bordallo Pinheiro.

Francisco de Almeida Grandella no “Almanak d’ O Mundo”, em 1908

À época da sua inauguração, Abril de 1907, os “Armazéns Grandella” foram um exemplo de engenharia e arquitectura de vanguarda, um exemplo de comércio moderno e um exemplo ímpar nas relações sociais patrão-empregado.

Em 1907, os empregados dos “Armazéns Grandella” seriam dos poucos, em Portugal, a beneficiar do descanso semanal ao Domingo e de assistência médica gratuita no local de trabalho. Descontavam uma quota mensal, proporcional ao ordenado, para a Caixa dos Socorros. As multas revertiam para o fundo e Grandella concorria também com uma parte. Os empregados de escritório beneficiavam ainda de uma semana de férias pagas. Os operários da fábrica tinham uma caixa de socorros nos mesmos moldes.

Na zona de São Domingos de Benfica, onde estavam instaladas as fábricas de tecidos, com cerca de 200 operários, foi inaugurado em 1904, o “Bairro Operário Grandella”. Constituído por noventa casas, com capacidade para albergar trezentas pessoas, foi completado em 1907. As rendas entre três mil e seis mil réis mensais correspondiam a uma média baixa. Nesse bairro ainda seria inaugurada uma escola primária com o nome do republicano Affonso Costa, contando iIgualmente com uma creche para os filhos dos operários sendo dirigida por Emília da Silva Pereira.

“Bairro Grandella” na Estrada de Benfica em S. Domingos de Benfica

 

A revista “A Cidade e os Campos”, propriedade de Francisco Grandella, afirmava: «Obra gigantesca, atrevida, pouco vulgar e cuja riqueza, elegância, gosto, reverbero de luzes, de cristais, dourados de capitéis, colunas de mármore, faz lembrar um conto de fadas, uma lenda das “Mil e Uma Noites”!»

E acrescentava: « Quem diria que um simples capital de duzentos e cinquenta mil réis, emprestado naquela data (1879) por um amigo, e administrado com pulso firme, podia produzir uns resultados tão brilhantes, uma obra tão monumental, essa fachada imponente e artística, essa aluvião de andares, essa infinidade de secções, de escadarias, de colunas, de mármores, de arcos, de elevadores, de capiteis de dourados, de cristais, de candelabros, tudo faiscante, tudo belo, tudo rico, inconfundível desde os alicerces, cavados a quatro andares debaixo do solo, até esse relógio guarnecido pelas figuras majestosas da Verdade e do Comercio e cujo som, ao anunciar as horas que passam, lembra, a quem as ouve, quanto vale a persistência, a tenacidade, a cultura do Espírito, a fortaleza do ânimo, o inquebrantável da fé, e aquela máxima de Beaumarchais que diz que “querer é poder” ».

 

Catálogo para o Inverno de 1913-1914 e duas páginas do mesmo

 

A 5 de Janeiro de 1911 os “Armazéns Grandella & C.ª” sofrem um violento incêndio, com início no 1º andar e tendo-se propagado aos os 2º,3º e 4º andares. Extinto à 5h15m da manhã, e com um prejuízo avaliado em 70 contos, o jornal “A Capital” descrevia assim o sucedido:

«As secções que mais prejuizos sofreram foram as do lado da rua do Ouro, de algodões, sapataria, chapelaria, papelaria, fanqueiro, photographia, ferragens, louças, confecções, chapeus e moveis, tendo sido superiores os estragos causados pela agua aos produzidos pelo fogo.
O edificio ficou, interiormente muito danificado, especialmente nas pinturas e espelhos, pelo que, durante todo o dia d'hoje, o estabelecimento esteve fechado, para se proceder ás reparações, devendo reabrir amanhã, á hora nabitual.»

Em 1916, Francisco Grandella transformou os armazéns em sociedade por quotas, a firma “Grandela & Cª”, associando-lhe os empregados que o acompanhavam havia mais de 20 anos. Com esta medida, procurava dar continuidade à sua obra e assegurar que o filho Luiz Grandela fosse o seu único sucessor.

Luiz Grandela, filho de Francisco de Almeida Grandella

Em 1932, a administração de “Grandella & Cª.” passou a ser exercida por um delegado do “Banco Porto Covo & Cª.” (com sede na Rua Augusta, em Lisboa, era propriedade de Jacinto Fernandes Bandeira, 2º Barão de Porto Covo) que adquiriu posição privilegiada entre os accionistas. Três anos depois, em 1935, a Condessa de Porto Covo era a única proprietária da firma. Francisco Grandella já não assistira ao fim do projecto que levara mais de 50 anos a construir, pois morrera um ano antes, em 1934, na sua residência na Foz do Arelho (Caldas da Rainha), onde também financiara a construção de uma escola primária.

Os “Armazéns Grandella” ainda apareceriam na sua forma primitiva no grande filme portuguêsO Pai Tirano realizado em 1941 por António Lopes Ribeiro, onde apareceria, igualmente, a Perfumaria da Moda instalada igualmente na Rua do Carmo. A partir dos anos 50 do século XX as secções foram subalugadas, obrigando á destruição das galerias de ferro forjado, das quais restava apenas em 1988, um patamar de escada frente à entrada para a Rua do Carmo.

Imagens dos interiores dos “Armazéns Grandella” no filme “O Pai Tirano” (1941)

1941 O Pai Tirano

Objecto de destruição pelo grande incêndio que devastou a zona do Chiado em 25 de Agosto de 1988, altura em que empregavam 180 funcionários 40 por cento dos quais com idade superior a 50 anos, os “Armazéns Grandella” reabriram ao público, após a sua reconstrução, em 1996, mas segundo um novo modelo de funcionamento, integrando grandes lojas, como a “Sport Zone” ou a “Valentim de Carvalho”. A sua fachada da Rua do Carmo conservou, no entanto, o famoso relógio monumental, as figuras da Verdade e do Comércio, assim como os medalhões esculpidos em cantaria com o lema da casa.

   

Bibliografia: Livro: “Lisboa Desaparecida” - Volume 2 de Marina Tavares Dias - Editora Quimera
                   ESHToris - Blog da Biblioteca Celestino Domingues
                   Blog “Sumol - Fotos”

fotos in:  Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Arquivo Municipal de Lisboa, IGESPAR, Hemeroteca Digital, Biblioteca Nacional Digital, Retalhos de Bem-Fica, ESHToris