1 de maio de 2016

Cinema “Restelo”

O Cinema "Restelo", abriu as suas portas em plena época carnavalesca, a 26 de Fevereiro de 1954, na Avenida da Torre de Belém, em Lisboa, vindo substituir o antigo cinema "Belém-Jardim" da Rua do Bom Sucesso, em Belém.

Cinema “Restelo” por altura da sua inauguração com o primeiro filme em exibição “O Capote”

Cinema “Belém Jardim” na Rua do Bom Sucesso

Enquadramento do cinema “Restelo” com a Avenida da Torre de Belém

 

Este cinema, explorado pela "Sociedade Cinema Restelo, Lda.", foi estudado e projectado pelos serviços técnicos da Câmara Municipal de Lisboa, dispondo de uma plateia com 680 lugares e de um Balcão com 384 lugares, servidos por amplos "foyers", e em cuja escada de acesso ao Balcão se poderia observar um mural alegórico.

 

 


bilhetes gentilmente cedidos por Carlos Caria

A sala de espectáculos, era composta por 2 plateias e 1 balcão dividido em 2 partes. A chamada 2ª plateia era a que ficava mais próxima do ecrã, tinha cadeias de pau e os bilhetes mais baratos. A 1ª plateia ficava num nível mais elevado e tinha cadeiras estofadas, e logo bilhetes mais caros. O balcão tinha os bilhetes mais caros, especialmente as três filas da frente que eram as mais espaçosas e as mais caras.

Anúncio ao primeiro filme exibido

«Porque a empresa do Cinema Restelo julga que algumas notícias sobre as suas instalações técnicas pode prestar-se a equívocos, vem esclarecer que a sua cabine se encontra apetrechada para a exibição de filmes de formato normal e panorâmico, estando a fazer também a adaptação para 3-D.
Relativamente ao Cinemascope, tem esta sala unicamente o écran especial, tencionando adquirir posteriormente a aparelhagem necessária a tal sistema de projecção.» in jornal “Diario de Lisbôa”.

 

Em 6 de Março de 1954, «filme em 3 dimensões projectado em Ecran Panoramico»

9 de Outubro de 1954

O Cinema “Restelo” encerraria em 1989 e no seu lugar está, actualmente, um moderno edifício que, além de albergar um supermercado da cadeia “Pingo Doce”, a “Padaria Portuguesa” e agência do banco “Millenium BCP”, alberga, também, os serviços da “Entidade Reguladora de Serviços Energéticos”.

 

Fotos in: Arquivo Municipal de LisboaBiblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian

28 de abril de 2016

Casa de Fados “Solar da Alegria”

O “Solar da Alegria” abriu como restaurante em 23 de Dezembro de 1923, na Praça da Alegria, 56 em Lisboa. Neste restaurante, com «magnifico serviço para banquetes, almoços, lunch, jantares e ceia», «a toda a hora do dia ou da noite», actuava uma “jazz band”, ou um quarteto alternadamente.

Prédio onde esteve instalado o “Solar da Alegria”, em foto de Novembro de 1964

                          22 de Dezembro de 1923                                                         23 de Dezembro de 1923

 

                               24 de Dezembro de 1923                                                      27 de Dezembro de 1923

 

No final da década de 20 do século XX, assiste-se à institucionalização da profissionalização do fadista através do já mencionado Decreto nº. 13.564/1927. O processo estava em curso, contudo, desde a ampliação dos espaços de atuação do fado, - dos quais se destacou um dos primeiros espaços em que se cantava o fado regularmente aberto em 1923, o “Club Montanha”  - e do surgimento de uma nova geração de fadistas profissionais - Berta Cardoso, Hermínia Silva, Ercília Costa e Alberto Costa são os nomes que mais aparecem nas páginas do jornal “Guitarra de Portugal” , fundado em 1923 por João Linhares Barbosa - os quais vão consolidar o fado inclusivé internacionalmente. De acordo com o livro “Para uma História do Fado” de Rui Vieira Nery, as exigências legais de adaptação dos espaços artísticos, definidas pelo decreto mencionado, fizeram surgir a ideia da criação de locais exclusivos. Trata-se das “Casas de Fado”.

Berta Cardoso actuando no “Solar da Alegria”

29 de Dezembro de 1923

Conta o autor que a pioneira foi o “Solar da Alegria”, inaugurada, como já referido anteriormente, em 23 de Dezembro de 1923. Em finais de Julho de 1929 encerra e reabre em 6 de Fevereiro de 1931, com direcção de Deonilde Gouveia e Júlio Proença, com um novo elenco de artistas composto por: Alberto Costa e Rosa Costa, a que se juntam Deonilde Gouveia e Júlio Proença. O acompanhamento fica a cargo de João Fernandes e Domingo Costa, na guitarra portuguesa, e Santos Moreira na viola.

13 de Julho de 1929

Notícia no jornal “Guitarra de Portugal” em 6 de Fevereiro de 1931                         7 de Fevereiro de 1931

          

O jornal “Guitarra de Portugal”, e por ocasião da reinauguração, dedica matéria especial na edição de 6 de Fevereiro de 1931: «cicatrizaram-se as cavernas do pulmão doente e o fado, o trovador genial da nossa querida Lisboa, vai respirar a plenos pulmões: vai abrir o Solar da Alegria” ». Na edição de 18 de Abril de 1931, esta cas de fados já é tratada como «o maior templo do Fado». Ainda segundo Rui Vieira Nery, em espaços como o “Solar da Alegria”, buscava-se dignificar o gênero, o qual gozava então do status simbólico-identitário de canção nacional: «a regra fundamental é a do silêncio absoluto durante a execução .’ Silêncio que se vai cantar o Fado’ é a recomendação que mais frequentemente se lê em inscrições na parede ou se ouve anunciar a um eventual apresentador».

1936

Após grandes obras de remodelação e com novo proprietário, Manuel de Oliveira, e novo director artístico Filipe Pinto, reabre o “Solar da Alegria” em 13 de Julho de 1938.

O “Solar da Alegria” foi a segunda casa em que Amália Rodrigues actuou, em 11 de Janeiro de 1940, no início da sua carreira de fadista, logo depois de se ter estreado no Retiro da Severa em 10 de Junho de 1939.

11 de Janeiro de 1940

Quanto ao final desta famosa casa de fados nada consegui saber, mas creio ter encerrado definitivamente a seguir a 14 de Março de 1949, já que foi a última referência publicitária que encontrei. Se algum dos leitores souber informar-me, muito agradecia para que este apontamento histórico fique completo.

14 de Março de 1949

fotos in:  Arquivo Municipal de Lisboa, Fadocravo, Museu do Fado, Publisite, Fado - Uma Canção da Humanidade

27 de abril de 2016

Estabelecimentos Comerciais de Lisboa (50)

“Chapéus Silva” em 1933

Casa de Fados “A Cesária”, na Rua Gilberto Rola em Alcântara

“Alfayateria High-Life”, na Rua das Portas de Santo Antão

“Armazéns Azevedo” na Rua dos Fanqueiros

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa

24 de abril de 2016

“A Voz do Operário”

A “Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário” tem origem no jornal “A Voz do Operário”, fundado por Custódio Vaz Pacheco em 11 de Outubro de 1879, com sede no Beco do Froes (hoje Rua Norberto de Araújo), ao Menino de Deus, em Lisboa.

Custódio Gomes, operário tabaqueiro, indignado com a recusa de publicação de uma notícia sobre as condições de vida dos operários tabaqueiros terá, segundo a história, afirmado que «soubesse eu escrever que não estava com demoras. Já há muito que tínhamos um jornal. Bem ou mal, o que lá se disser é o que é verdade. Amanhã reúne a nossa Associação, e hei-de propor que se publique um periódico, que nos defenda a todos, e mesmo aos companheiros de outras classes».

                                   Fundador, Custódio Vaz Pacheco                      “Diario Illustrado” de 12 de Outubro de 1879

                       

A exigência financeira que implicava a manutenção deste jornal leva a que os operários tabaqueiros procurem formas de sobrevivência para o projecto. É assim que, a 13 de Fevereiro de 1883, nasce a “Sociedade Cooperativa A Voz do Operário” em cujos estatutos se escrevia ser objecto da Sociedade «sustentar a publicação do periódico A Voz do Operário, órgão dos manipuladores de tabaco, desligado de qualquer partido ou grupo político»; «estudar o modo de resolver o grandioso problema do trabalho, procurando por todos os meios legais melhorar as condições deste, debaixo dos pontos de vista económico, moral e higiénico»; «estabelecer escolas, gabinete de leitura, caixa económica e tudo quanto, em harmonia com a índole das sociedades desta natureza, e com as circunstâncias do cofre, possa concorrer para a instrução e bem estar da classe trabalhadora em geral e dos sócios em particular». Para tanto, os 316 sócios da altura comprometiam-se a pagar uma quota semanal de vinte réis, quantia que retiravam dos seus humildes salários.

Por solicitação dos associados, em Julho de 1883, a actividade da Sociedade foi alargada à assistência funerária, correspondendo a uma necessidade da classe que se via confrontada com o exorbitante preço dos funerais. «Um jornal e uma carreta funerária, assim começa A Voz do Operário», escreveu Fernando Piteira Santos. Em 11 de Outubro de 1936, proceder-se-ia á inauguração do novo edifício da "Secção Funerária". Anexo especialmente construído para esse fim, na Travessa de São Vicente, e onde se reuniram tudo quanto dizia respeito aos serviços fúnebres da instituição.

Em Julho de 1887, “A Voz do Operário” abandona o Beco do Froes e muda-se para a Calçada de São Vicente. Contava então com 1.114 sócios, sendo que nem todos eram operários tabaqueiros, o que obrigou a uma revisão dos estatutos, no ano de 1889, que viriam a ser aprovados pelas autoridades no ano seguinte, convertendo-se  a então “Sociedade Cooperativa A Voz do Operário” em “Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário”.

Corria o ano de 1891, quando foi designada a primeira Comissão Escolar que preparou o arranque da primeira escola, em Outubro desse ano, num novo edifício também na Calçada de São Vicente. Mas a Sociedade continuava a desenvolver-se e, em 1906, é feita a proposta ao Governo de cedência de uma parcela de terreno da designada Cerca da Mónicas para a construção de um edifício de raiz onde pudessem ser instaladas as escolas e os serviços de “A Voz do Operário”. Foi João Franco, chefe de um Governo Regenerador Liberal contestado e considerado ditatorial que, por decreto de 29 de Maio de 1907, concedeu o espaço pretendido.

“Escola Casimiro Freire”, para filhos dos sócios, na Rua S. João da Mata

Visita do Governador Civil de Lisboa (Major Luís de Moura) à escola de “A Voz do Operário” em 7 de Fevereiro de 1928

Em 13 de Outubro de 1912, com a presença do próprio Presidente da República, Manuel de Arriaga, é lançada a primeira pedra de construção da sede actual de “A Voz do Operário” , na Rua Voz do Operário, à Graça, em Lisboa, e que viria a ser inaugurada em 31 de Dezembro de 1923, tendo as obras ficado definitivamente concluídas em 1930, com a inauguração do salão de festas, em 7 de Dezembro do mesmo ano. Nesta altura, a Sociedade tinha cerca de 70 mil sócios e era já o mais importante núcleo de instrução primária da cidade de Lisboa, com escolas a funcionarem também na periferia. Em 1938, as escolas de “A Voz do Operário” são frequentadas por 4.200 alunos, na grande maioria filhos de operários.

Cerimónia da “Primeira Pedra” do novo edifício-sede, em 13 de Outubro de 1912

 

Exterior e Salão de Festas inaugurado em 7 de Dezembro de 1930

 

 

Durante a Primeira República (1910-1926), “A Voz do Operário” conhece um desenvolvimento ímpar. A vertente educacional passa a ocupar um lugar de destaque entre as suas actividades, enquanto prossegue a publicação do jornal e a acção mutualista que se estende agora ao apoio aos mais desfavorecidos, nomeadamente no fornecimento de refeições. Inaugura-se na sede um balneário público para servir a população da zona e incrementam-se os cursos de formação profissional, em particular, para as filhas dos trabalhadores, com os cursos de costura a registarem uma elevada frequência. Mantém-se a assistência funerária e inaugura-se a biblioteca. É o período áureo da Sociedade que conta com inúmeros beneméritos entre os seus associados e vê o seu património aumentar fruto de muitos legados, quer imóveis quer móveis.

Director do jornal “O Século”, na “A Voz do Operário”, em 20 de Janeiro de 1933, durante a “Semana do Mutualismo”

É precisamente a vertente educacional , bem como, a ligação à Instituição de eminentes figuras da cultura portuguesa que lhe permitem sobreviver durante o Estado Novo, altura em que vive, grandes dificuldades com a censura a amputar o jornal daquilo que o distinguia dos demais, as actividades culturais e serem cerceadas e a própria educação a ser sujeita às imposições do Estado Novo, esforçando-se mesmo assim por contribuir para a formação integral dos seus alunos.

1938

1939

  

Cronologia histórica de “A Voz do Operário” até 1945, publicada na Revista Municipal

Após o 25 de Abril de 1974, a cultura volta a preencher os espaços da sede, através de espectáculos musicais, cinema, teatro, exposições de artes plásticas e dança. Incrementa-se a prática desportiva e alarga-se o acção social aos idosos, com a inauguração de um centro de convívio e, mais tarde, no apoio domiciliário a idosos e acamados. Surgem a creche e os jardins-de-infância como forma de apoio às famílias, mantém-se a publicação regular - agora mensal - do jornal, repõem-se os livros, outrora proibidos pela polícia política, nas estantes da biblioteca, estende-se o ensino do 1.º ao 3.º ciclo, cria-se a “Galeria João Hogan” e, em 1987, a “Marcha Infantil de A Voz do Operário”.

Todas estas actividades fazem hoje parte do quotidiano da Sociedade, que mantém em funcionamento o balneário público e um posto médico, criado ainda durante o Estado Novo, servindo não só os seus cerca de 7.000 sócios, como a população da zona da cidade de Lisboa em que está inserida. Ao todo, frequentam as duas escolas de “A Voz do Operário”, Graça (sede) e Ajuda, quase 500 crianças e jovens, desde a creche ao 9.º ano de escolaridade.

       

 

 

Ao comemorar, em 2008, 125 anos de existência, “A Voz do Operário” desenvolve novos projectos, como sejam a ampliação dos espaços para aumentar a oferta dos serviços de creche e jardim-de-infância, a remodelação da “Galeria João Hogan”, a recuperação de património por forma a rentabilizá-lo e a proporcionar novos serviços, nomeadamente, um espaço para colónia de férias para crianças, jovens e idosos.

Capa de Fevereiro de 2016

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Museu do Fado, Hemeroteca Digital, Arquivo Historico-Social - Projecto Mosca, Arquivo Nacional da Torre do Tombo