27 de julho de 2016

Vila de Sesimbra (8)

Praia da lota e um burrito carregando uma caixa do belo peixe espada

Autocarro da empresa “Covas & Filhos, Lda.” e horário de 1952

 

Prancha de saltos frente à “Praia da Califórnia”

Largo da Marinha e “milhões” de autocarros de forasteiros

fotos in:  Arquivo Municipal de Lisboa, Delcampe.net

25 de julho de 2016

Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves

A “Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves”, também conhecida por "Casa Malhoa", foi mandada construir em 1904 pelo pintor José Vital Branco Malhoa (1855-1933), na, então, Avenida António Maria d’Avellar (actual Avenida 5 de Outubro) e Rua Pinheiro Chagas, junto ao Palacete Silva Graça”, com a finalidade de ser sua residência e atelier, tendo sido a primeira «Casa de Artista» de Lisboa. Com projecto do arquitecto Joaquim Manuel Norte Júnior (1878-1962), e a sua construção a cargo de Frederico Augusto Ribeiro é finalizada em 1905 e ganha o "Prémio Valmor de Arquitectura" de 1905.

 

Notícia da atribuição do “Prémio Valmor” no “Annuario da Sociedade dos Architectos Portuguezes” em 1905

Foto da casa de José Malhoa, no Annuario e anuncio do construtor da mesma em 1905

 

Na revista “Illustração Portuguesa” de Novembro de 1906

Em 1919, José Malhoa mudou-se para a Praça da Alegria, Em 1920, mudar-se-ia de novo, e definitivamente, para uma casa na Travessa do Rosário, na freguesia de São José, até à sua morte em 1933. Entretanto  a sua  casa na Avenida António Maria d’Avellar é adquirida em hasta pública pelo Dr. Anastácio Gonçalves, médico oftalmologista e grande coleccionador de obras de arte.

Dr. Anatácio Gonçalves pintado por José Malhoa em 1932

 

Casa na Travessa do Rosário onde José Malhoa viveria entre 1920 até à sua morte em 1933

 

Em 1969, por vontade expressa do colecionador, o edifício é legado ao Estado Português para aí se criar um Museu, que abriria ao público em 1980 com a designação de “Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves”.

 

    

 

Em 1996, com projeto dos arquitetos Frederico e Pedro George, foram realizadas obras de ampliação e beneficiação, anexando-se ao edifício original uma moradia contígua também assinada pelo arquitecto Norte Júnior. O novo espaço proporcionou o alargamento da área de acolhimento do visitante com loja, cafetaria e zona para exposições temporárias. A “Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves” reabriu em Dezembro de 1997 com a sua configuração actual.

 

 

 

 

O conjunto de cerca de 3.000 obras de arte compõe-se por três grandes núcleos: pintura portuguesa dos séculos XIX e XX, porcelana chinesa e mobiliário português e estrangeiro. Existem ainda importantes núcleos de ourivesaria civil e sacra, pintura europeia, escultura portuguesa, cerâmica europeia, têxteis, numismática, medalhística, vidros e relógios de bolso de fabrico suíço e francês. Para além das obras reunidas pelo colecionador, a “Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves” encerra ainda um significativo espólio documental e um conjunto de desenhos, aguarelas e pequenos artefactos pertencentes ao espólio do pintor Silva Porto.

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Hemeroteca Digital de Lisboa, Património Cultural

21 de julho de 2016

Loja “Rampa”

A loja de moda para senhora, homem e criança, “Rampa”, localizada no Largo Rafael Bordalo Pinheiro, 15, em Lisboa, projectada pelo arquitecto Francisco Conceição Silva (1922-1982), construída por Diamantino Tojal, com a supervisão do engenheiro Pereira Gomes, foi inaugurada em 4 de Junho de 1956, seis meses depois de ter começado, em 2 de Janeiro de 1956, a demolição da primitiva loja.

Exterior da loja “Rampa” inaugurada em 4 de Junho de 1956

Anúncio da primitiva loja em 6 de Dezembro de 1955

Anúncio da inauguração da nova loja “Rampa” em 4 de Junho de 1956

O projecto da loja “Rampa”, estabelecimento com 3 pisos, que vendia roupas femininas e objectos artísticos, teve a colaboração do arquitecto José Daniel Santa-Rita Fernandes (1929-2001)do pintor Rolando Sá Nogueira, Almada Negreiros, Júlio Pomar, entre outras obras de outros artistas.. Conceição Silva estendeu a sua acção a todo o design de interiores que incluiu o desenho de todo o mobiliário. A imagem deste espaço comercial era marcada por uma fachada totalmente envidraçada que funcionava como montra da totalidade da loja e que deixava ver a rampa espiralada do interior que unia os diferentes pisos. O único elemento opaco desta fachada era a moldura da porta de entrada, revestida com azulejos da autoria de Querubim Lapa (1925 - ), funcionando como um aro suspenso que podia ser visto de várias perspectivas, quer do exterior, quer do interior da loja.

 

Esta loja seria demolida, junto com o prédio onde estava instalada, nos anos 80 do século XX. Recordo que o arquitecto Conceição Silva, foi responsável, também, pelo projecto do “Hotel do Mar”, inaugurado em 6 de Agosto de 1966 em Sesimbra, cujo artigo respectivo poderá ser consultado, neste blog, no seguinte link: Hotel do Mar”.

Anúncio de 17 de Janeiro de 1967

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian

20 de julho de 2016

Folhetos de Filmes Portugueses (2)

Filme realizado em 1935

Filme realizado em 1943

Filme realizado em 1936

Filme realizado em 1947

Panfletos gentilmente cedidos por Carlos Caria

18 de julho de 2016

Capristanos

«Havia no Bombarral um comerciante de vinhos muito rico, Ramiro Magalhães, que tinha automóvel e motorista. Os seus negócios eram tratados em Lisboa, no  Avenida Palace Hotel, aonde se deslocava três vezes por semana. Um dia, o motorista adoece, o que o deixa muito aborrecido, pois no dia seguinte tem uma reunião muito importante. No escritório, um empregado diz-lhe que na terra dele, o Peral, havia um homem, dono de uma taberna, que tinha carta de condução.» conta Aleixo Gomes Batalha, que com Arthur Capristano conviveu durante os 20 anos em que foi seu empregado. E é assim que, logo no dia seguinte, Arthur Eduardo Capristano (1896-1967) passa a acompanhar Ramiro Magalhães nas suas viagens à capital. O empresário simpatiza com ele e ajuda-o a tomar de trespasse uma taberna no Bombarral.

Primeira camioneta adquirida em 1933 para, inicialmente, fazer a carreira entre Bombarral e Lourinhã

A família muda-se então para a terra dos vinhos. Já são quatro, pois entretanto tinham nascido dois rapazes, José (o mais velho) e Artur, que mais tarde viriam dar continuidade a um negócio que ainda ia dar os primeiros passos. Da taberna, a família Capristanos passam para uma pensão, tomada também de trespasse, à porta da qual Arthur Capristano vê passar diariamente uma "charrette" puxada por dois cavalos, que faz o transporte do correio entre a estação de caminhos-de-ferro do Bombarral e o Cadaval.

O passo seguinte foi o transporte de mercadorias entre a estação ferroviária de São Mamede e Peniche, agora já com uma camioneta, que comprou em segunda mão, e um motorista. «Como o senhor Capristano era muito imaginativo», conta Aleixo Batalha, «arranjou uma armação de ferro, um oleado e bancos para instalar na camioneta de carga e poder transportar passageiros, aos domingos, do Bombarral para a praia da Consolação.»

Coroada de êxito esta experiência, Arthur Capristano abalança-se, em 1933, na compra da primeira camioneta de passageiros, inaugurando as carreiras Bombarral-Lourinhã e Bombarral-Torres Vedras. A expansão do negócio exige mais dinheiro, impondo a entrada de um sócio capitalista: Joaquim Ferreira dos Santos. A nova empresa, a “Capristano & Ferreira, Lda.” faz sucesso, apesar dos sócios desiguais: um «self-made man» e um empresário que tinha acumulado capital no comércio dos vinhos. Multiplicam-se as carreiras. Do Bombarral para Lisboa pode-se ir pelo Cercal e por Vila Franca de Xira ou por Torres Vedras e pela Malveira. De Lisboa para Leiria, é possível escolher entre ir por Alcobaça ou pela Nazaré e Marinha Grande. A nova firma adquire ainda a empresa Caldense, passando a deter as rotas Caldas-Peniche e Caldas-Santarém, e compra, a um tal Viriato, uma carreira que fazia Caldas-Cercal-Alcoentre-Vila Franca-Lisboa. Pelo meio, factura-se com alugueres para excursões em Portugal e no estrangeiro.

1935

1940

Bilhete nos anos 50 do século XX

Além das garagens em Lisboa e em Leiria, outras vão surgindo nos destinos das várias carreiras, aumentando o património imobiliário da empresa. A sociedade irá manter-se até ao fim dos anos quarenta, altura em que os dois sócios se desentendem e se separam, ficando um com a frota e o outro com os imóveis. Durante dez anos, os “Capristanos” comprometem-se a pagar dez contos mensais (uma fortuna na época) pelas garagens de Joaquim Ferreira dos Santos, que assim fica senhor do património e com rendas garantidas. Em breve, porém, Arthur Capristano constrói garagens próprias e lança mais carreiras, reconstituindo a pujança da casa. Na origem do desentendimento entre os sócios terão estado os filhos de Arthur Capristano, José e Artur. Embora não tenham nascido em berço de ouro, tiveram uma juventude dourada. Estudaram em Lisboa, no Colégio Moderno, e cedo começaram a mostrar interesse pelo negócio do pai, atitude que desagradava a Joaquim Ferreira dos Santos e que levou à separação.

José da Conceição Capristano (1920-1998)

                            1944                                                                                     1946

 

Com 250 trabalhadores - 125 nas oficinas, 25 nos escritórios e uma centena afecta à exploração, entre motoristas, cobradores, empregados de filiais, ajudantes e fiscais -, o Bombarral revela-se demasiado pequeno para os “Capristanos”, que decidem mudar-se para as Caldas da Rainha, onde constroem aquela que será a mais luxuosa estação rodoviária da Península Ibérica e uma das melhores da Europa. O edifício, com a assinatura do arquitecto Camilo Korrodi, é inaugurado em 19 de Fevereiro de 1949. Mais do que uma central de camionagem, o empreendimento foi o primeiro centro comercial da cidade termal. Tinha escritórios, restaurante, café, sala de espera, bilheteiras, tabacaria, barbearia. Vitrinas bem iluminadas serviam de montras às principais lojas caldenses, que ali exibiam os seus produtos, e durante todo o dia os mesmos altifalantes por onde eram anunciadas as partidas e chegadas transmitiam música ambiente. Um verdadeiro luxo para a época.

Garagem “Capristanos” nas Caldas da Rainha

A "Gazeta das Caldas" de 6 de Janeiro de 1949 sublinhava os «cuidados» da empresa com os seus empregados: «Tudo foi conjugado não apenas para que o pessoal dispusesse de instalações próprias, mas até para que o trabalho fosse mais facilitado. A par das camaratas, do refeitório, de instalações sanitárias, de vestuário individual, da comodidade do uniforme, vemos as oficinas higiénicas, cheias de luz e ar, dotadas de aparelhagem própria para facilitar o trabalho, torná-lo menos violento e perigoso.» A garagem torna-se ponto de passagem obrigatório do roteiro caldense. Aos “Capristanos” ia-se passear e ouvir a música ambiente. No café, aos domingos, actuava uma pequena orquestra, para deleite das elites caldenses. E quando, anos mais tarde, surge a televisão, o primeiro café da cidade a ter a "caixa" que mudaria o mundo foi o dos “Capristanos”. O restaurante, no primeiro andar, era um dos mais conhecidos e caros do país. Há quem garanta que, graças à sua cozinha esmerada, muitos se deslocavam de longe até às Caldas da Rainha de propósito para almoçar ou jantar nos “Capristanos”. E numa época em que um programa de rádio em directo constituía um verdadeiro acontecimento, das oficinas dos “Capristanos” foi uma vez emitido o então célebre programa “Os Companheiros da Alegria”, de Igrejas Caeiro.

Com a mudança do Bombarral para as Caldas, a família Capristano levou consigo os empregados. Construiu três vivendas para si, mas também um bairro para o pessoal - casas de um piso, brancas, alinhadas. O Bombarral ressente-se, tal como as Caldas, anos mais tarde, quando a empresa é vendida aos “Claras” e os trabalhadores, as oficinas e o escritório são transferidos para Torres Novas.

Na empresa vivia-se um bom ambiente de trabalho e uma situação laboral apaziguada, de acordo, aliás, com os ditames do regime. A maioria dos antigos empregados refere o carácter austero do velho Arthur e o rigor da gestão dos filhos, mas tem saudades da camaradagem e do clima familiar que então se respirava. Artur Capristano (neto) confirma a dedicação dos trabalhadores à casa: «Nenhum autocarro dormia na rua. Se empanava - e naquela época as camionetas avariavam-se com mais frequência -, os mecânicos iam lá a qualquer hora, arranjavam-na e recolhiam-na, mesmo que trabalhassem de noite ou tivessem de a rebocar.».

Capristanos.6

 

 

Nos anos cinquenta, com 450 trabalhadores, os “Capristanos” dominam a Região Oeste. Têm filiais em Lisboa, Leiria, Santarém, Peniche, Torres Vedras, Bombarral, Rio Maior, Alcobaça e Nazaré. A rede de carreiras é densa e serve tudo o que é aldeola nas freguesias mais distantes. O automóvel estava ainda reservado às classes com maiores rendimentos e... com carta de condução; o caminho-de-ferro português definhava, incapaz de acompanhar a modernização das redes europeias. Graças aos planos de fomento, tinham-se construído algumas estradas e Portugal vivia o surto da camionagem.Beneficiando do proteccionismo do regime, o mercado das rodoviárias estava bem dividido, repartindo-se por áreas, sem guerras de concorrência. O Centro do país era dominado pelos “Capristanos”, pelos “Transportes Claras” (com sede em Torres Novas) e pelos “Oliveiras Transportes” (a norte de Leiria).

Autocarro «Guy Wolf» carroçado pela empresa “Martins & Caetano, Lda.” em foto de 1953

Autocarro «Guy Olf» O302 de 1958


Desenho digital gentilmente cedido por Eugénio Santos através de “Memórias de Empresas e Autocarros Antigos

Mas, inesperadamente,  em 19 de Dezembro de 1961, a empresa “Capristanos” é vendida aos “Claras Transportes, S.A.R.L.”. A notícia apanha toda a gente de surpresa.. As Caldas da Rainha deixam de ser um importante centro de decisão do sector rodoviário, em benefício de Torres Novas. «Foi um prejuízo muito grande para a cidade. Fecharam o escritório. A maior parte do pessoal foi para Torres Novas. Das 150 pessoas, ficaram umas 20», conta António Emanuel Botelho, cujo percurso se identifica com o da camionagem nas Caldas: viveu 16 anos em Torres Novas e, com a nacionalização dos Claras, em Junho de 1977, regressou à cidade termal como funcionário da então “Rodoviária Nacional”, reformando-se um ano depois. A empresa pública mantém a mesma geografia das antigas empresas privadas que lhe estavam na origem. Mais tarde, com a privatização, a “Claras” passa a Rodoviária do Tejo, que continua a ter sede em Torres Novas.

Autocarro e Garagem da empresa “João Clara & C.ª (Irmãos), Lda.”  em Torres Novas

 

É para o ramo do Turismo que Artur e José Capristano decidem mudar. Nos anos sessenta começava o "boom" do turismo e, em 1962, os dois fundam a “Capristanos Viagens e Turismo, SA” e a “Cityrama - Viagens e Turismo, SA.” A ascensão de ambas é meteórica, segundo Artur Capristano (neto), para quem a mudança de ramo «não foi nada mau negócio». O fundador, Arthur Eduardo Capristano morre a 22 de Julho de 1967. Dois anos depois, os filhos desfazem a sociedade e repartem entre si as duas empresas de turismo. Artur Capristano (filho) morre em 1994, com 71 anos de idade, e o irmão, José, quatro anos depois, aos 78 anos.

Diversos tipos de autocarros utilizados pela “Capristanos Viagens e Turismo”

Autocarro «Mercedes-Benz» O302/58 de 1971

 

«Mercedes-Benz» O302/58 de 1971


Desenho digital gentilmente cedido por Eugénio Santos através de “Memórias de Empresas e Autocarros Antigos

 

Autocarro «Saviem» da “Cityrama” em foto de 1965

Autocarro «Saviem» SC1 de 1960


Desenho digital gentilmente cedido por Eugénio Santos através de “Memórias de Empresas e Autocarros Antigos

Alfinete da “Capristanos Viagens e Turismo” e emblema de motorista da “Capristano & Ferreira, Lda.”

 
gentilmente cedidos por Carlos Caria

Bibliografia: este texto foi retirado, com algumas pequenas alterações, de um artigo escrito por Carlos Cipriano no jornal “Público”, de 20 de Novembro de 2000, intitulado “História de uma dinastia”.

fotos in: Vallado dos Frades, Ilustração Portugueza, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Horácio Novais), Memórias de Empresas e Autocarros Antigos