10 de fevereiro de 2016

Auto-Estrada do Norte

O primeiro troço da segunda auto-estrada de Portugal, entre entre Lisboa e Vila Franca de Xira da “Auto-Estrada do Norte” , foi inaugurado em 28 de Maio de 1961, pelo Presidente da República Almirante Américo Thomaz acompanhado pelo Ministro das Obras Públicas, engenheiro Arantes e Oliveira e do Presidente da Junta Autónoma das Estradas, general Flávio dos Santos entre outras individualidades oficiais.

Primitiva “Praça das Portagens” em Sacavém, já desaparecida

Visita do Doutor Oliveira Salazar e “Diário da República” relativo à entrada em funcionamento, com os preços das portagens a pagar neste troço

     

Camions-cisterna da “SACOR” á saída da “Praça das Portagens” de Sacavém

Os menos de 24 quilómetros de troço que ligavam Lisboa a Vila Franca de Xira e que haviam custado 303 mil contos, deveriam estar amortizados em 30 anos, com o preço da portagem para os veículos ligeiros fixado em 5 escudos.

Entretanto, na véspera dia 27  de Maio este troço tinha sido visitado pelo Presidente do Conselho, Professor Oliveira Salazar, que durante o cortejo automobilístico «o professor Oliveira Salazar apreciou, não só a construção da auto-estrada, mas as interessantes paisagens que dela se desfrutam, pedindo, por vezes, para se abrandar a marcha do automóvel nos pontos mais encantadores.
Examinou as portagens de Alverca e de Bucelas, atravessando a ponte, observando, depois, no caminho, o trabalho dalgumas brigadas de operários e o dos Sapadores Bombeiros que, utilizando mangueiras, alimentadas por auto-tanques, lavavam o asfalto.».
No final afirmou ao presidente da Junta Autónoma das Estradas”: «Gostei muito!»

Avenida Cidade do Porto de acesso à Auto-Estrada e a Sacavém

Acesso à “Praça das Portagens”

 

Nó de Alverca e troço junto à “Fábrica de Cimentos Tejo” em Alhandra

 

Quanto à inauguração deste troço da auto-estrada em 28 de Maio de 1961,  jornal “Diario de Lisbôa” escrevia:

«Organizou-se, então, um cortejo automóvel, a caminho de Vila Franca de Xira.
No viaduto de Sacavém, o Chefe do Estado, sua esposa e o Ministro da Obras Públicas apearam-se, ouvindo aclamações dos populares que ali se encontravam; e o mesmo aconteceu na ponte que serve Alverca e Bucelas, no viaduto de Vila Franca e no final da estrada de acesso á auto-estrada.
Ali aguardavam o Chefe do Estado, com as suas bandeiras, deputações dos bombeiros e de todas as associações locais, ás quais o sr. almirante Américo Thomaz passou revista, entre o ribombar dos morteiros e o estralejar dos foguetes.
Ali o sr. Presidente da Republica despediu-se de todas as entidades que o haviam acompanhado, e seguiu para Santarém, ás 12 e 40.»

A 28 de Maio este troço seria aberto ao tráfego e como relatava o “Diário de Notícias” «20 mil veículos quiseram estrear o eixo logo nos seus primeiros momentos de existência» - numa altura em que em todo o país não existiriam muito mais do que 220 mil automóveis.

Viaduto de Sacavém sobre o Rio Trancão

 

Publicidade è empresa “Construções Técnicas” e viaduto de Alhandra em construção

 

Viaduto de Alhandra

 

E como não existe estrada sem acidente, o primeiro acidente, logo no dia da inauguração desta auto-estrada, seria descrito pelo jornal "Diario de Lisbôa" no seguinte texto:

«Carlos Martins, de 48 anos, empregado do comércio, residente na Rua do Grilo, 6, 2º esq., que conduzia uma motocicleta na auto-estrada do Norte, chocou com um marco junto de Sacavém. Contuso na cabeça, recolheu á sala de observações do Hospital de S. José.»

Em 1963, o Almirante Américo Thomaz inauguraria mais um pequeno troço de auto-estrada a Norte - 3,5 quilómetros entre os Carvalhos e Santo Ovídio. Mas o troço que se seguiu só foi aberto em 1977, 14 anos depois: 7,5 quilómetros de Vila Franca ao Carregado. Dez anos depois, a auto-estrada já ligava o Porto a Coimbra, mas para sul do Mondego foi preciso esperar ainda mais algum tempo. A actual A1 só viria a ser concluída em 1991, ligando por auto-estrada as cidades de Lisboa e do Porto.

Folheto informativo da “Auto-Estrada do Norte”

Folheto (1961).2

Bilhete de portagem

Como é sabido, esta não foi a primeira auto-estrada a ser construída em Portugal. O primeiro troço de auto-estrada, em Portugal, foi construído entre Lisboa e o Estádio Nacional, inaugurado em 28 de Maio de 1944 e que seria o início da futura e actual auto-estrada Lisboa-Cascais. Este primeiro troço, mandado construir pelo Ministro das Obras Públicas e Comunicações, engenheiro Duarte Pacheco, com os seus 8 quilómetros de extensão como pavimento totalmente em cimento e brita, foi uma das primeiras a nível mundial. Para a história deste troço, consultar, neste blog, o seguinte link: Primeira Auto-Estrada em Portugal”.

Auto-Estrada Lisboa- Estádio Nacional, inaugurada em 28 de Maio de 1944

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Hemeroteca Digital, Arquivo Municipal de Lisboa

7 de fevereiro de 2016

“Propagandas Caldevilla” e “Caldevilla Film”

Raul de Caldevilla, filho de um casal espanhol, nasceu no Porto a 21 de Novembro de 1877 e morreu nesta mesma cidade, em Agosto de 1951. Interessou-se pela publicidade, a ponto de ser reconhecido como o primeiro publicitário em Portugal a encarar essa actividade de forma planeada e profissional. Chega a ser jornalista, autor dramático e envolve-se também na então embrionária actividade cinematográfica, chegando a deter uma das principais produtoras de filmes, na época: a “Caldevilla Film”, da qual falarei mais adiante.

Raul de Caldevilla num fotograma do filme publicitário “Um Chá nas Nuvens”, de 1917

A “ETP - Empreza Technica Publicitaria” de “Raul de Caldevilla & Cª, Lda.” seria fundada, em 1912,  por Raul de Caldevilla,  na Rua 31 de Janeiro,165,  no Porto, no regresso deste à sua cidade, depois de ter sido vice-cônsul em Cádiz e agente comercial na América Latina, Egipto e Médio Oriente.

Primeiras instalações da “Propagandas Caldevilla” na Rua Trinta e Um de Janeiro, no Porto

Esta empresa viria a ser pioneira na introdução da publicidade exterior tendo-se celebrizado quando patenteou os primeiros outdoors e quando começou a afixar os primeiros cartazes publicitários de grandes dimensões. O seu dinamismo e criatividade depressa fizeram com que se transformasse numa das mais conceituadas empresas no sector, assim como mais tarde a outra empresa do sector, “Empreza do Bolhão”.

“Propagandas Caldevilla” já instalada no “Palácio do Bolhão” a partir de 1917, em fotos da “Photo Guedes”

Propagandas Caldevilla (Palácio do Bolhão) 

      

Exemplos de cartazes produzidos pela “Propagandas Caldevilla”, em 1917

   

   

Ficaria célebre uma espectacular operação promocional à nova marca de bolachas “Petit Beurre Invicta”, em Julho de 1917, tendo Caldevilla contratado dois acrobatas galegos - D. Miguel e D. José Puertollano -  para escalarem a Torre dos Clérigos, o que fizeram sem recurso a qualquer apoio. Já no cimo, os ginastas tomaram uma chávena de chá e comeram as “Petit Beurre Invicta”, lançando ao mesmo tempo panfletos sobre a multidão de cerca de 150.000 pessoas, reunida para o efeito. Da proeza, a “Caldevilla Film” faria o filme publicitário “Um Chá nas Núvens”. Em 25 de Novembro do mesmo ano, este espectáculo seria repetido em Lisboa, escalando a Basílica da Estrela.

Fotogramas da escalada da Torre dos Clérigos em Julho de 1917 e respectivos cartazes publicitários

 

                      Um Chá nas Nuvens                                    1917 Petit Beurre

Escalada.2  Escalada.3

Raul de Caldevilla, interessou-se pela publicidade e foi o primeiro publicitário em Portugal a encará-la de um modo planeado e profissional, sendo o principal impulsionador da produção quer de cartazes quer de outdoors, assim como dos primeiros filmes publicitários. Tornou-se depois produtor e realizou documentários promocionais. Escreveu o argumento do primeiro filme de temática sobre o fado, realizado por Maurice Mariaud em 1923 - “O Fado”.

Publicidade em tapumes de obras na cidade do Porto

                                  Rua Sá da Bandeira                                                             Praça da Liberdade

 

                         Praça da Liberdade                                                              Rua das Carmelitas

 

Raul de Caldevilla, actor teatral nos primórdios do século XX,  como inspirado publicitário, destacar-se-ia no cinema português em 1917. Em 1919, Raul de Caldevilla prestigiou-se ao organizar o lançamento comercial do filme “A Rosa do Adro”, dirigido por Georges Pallu para a “Invicta Film”, anunciado sob o lema «Romance Português - Filme Português - Cenas Portuguesas - Actores Portugueses».

Em 1921 com a comparticipação dos capitalistas nortenhos Eduardo Kendall, João Manuel Lopes de Oliveira e António de Oliveira, cria a “Empreza Tecnica Publicitaria Film Grafica Caldevilla” - abreviadamente apelidada de “Caldevilla Film”.  Neste ano funda-se outra empresa produtora de filmes, a “Fortuna Film”, propriedade de Virgínia de Castro e Almeida, a conhecida romancista chegada havia pouco tempo de França, onde tinha acompanhado com vivo interesse o incremento cinematográfico francês, apaixonada pela 7ª arte que com dinheiro seu, monta esta empresa. Mais duas empresas a juntar à próspera “Invicta Film” e que fizeram do ano 1922 um ano glorioso para o cinema português. Acerca da história da “Invicta Film” consultar neste blog o seguinte link:Invicta Film

A este propósito a  “Revista de Turismo”, de 5 de Setembro de 1921 escrevia:

«Auxiliado por alguns amigos seus que mais o são ainda da nossa querida Patria, organisou o exponente uma grande empreza, denominada Empreza Tecnica Publicitaria Film Grafica Caldevilla productora em Portugal, nos seus studios em construcção em Lisboa, de "films" cinematograficos genuinamente portugueses em que serão tratados com singular cuidado assuntos nacionaes, documentarios e panoramicos, capazes de realisarem pela sua cuidada escolha, irreprehensivel manufactura e primorosa mis-en-scéne, a verdadeira propaganda de Portugal em todos os paizes do mundo.». Estes estúdios implantados num local com uma área de trinta mil metros quadrados, onde mais tarde seriam instalados, a “Patria Films” e a Tobis Portuguesa”, já na época do filme sonoro, não passaram dos alicerces já que os sócios de Raul Caldevilla afastaram-se do projecto. Das seis fitas pleneadas para a arrancada, realizaram-se apenas duas, com menos recursos técnicos do que os previstos, num estúdio improvisado na grande abegoaria da “Quinta das Conchas”, que a empresa adquirira, situada exactamente no local onde mais tarde se instalaria a Tobis Portuguesa.

Quinta das Conchas na Alameda das Linhas de Torres, em Lisboa

Quinta das Conchas 

Exemplo dum laboratório de filmes da época, este da “Portugalia, Filmes”

Três anos depois, com mais altas ambições, a “Caldevilla Film” contratou o francês Maurice Mariaud - que trabalhava para a “Gaumont” - com a incumbência de dirigir “Os Faroleiros” (1922), um drama-documentário, de que Raul de Caldevilla também foi argumentista e intérprete.

Maurice Mariaud (1875-1958)

O vislumbre de Raul de Caldevilla está patente no respectivo folheto de divulgação: «O cinematografo moderno tem-se distanciado muito, nos temas escolhidos e nos fracassos, da tecnica de há vinte anos. Já hoje dificilmente se suportam - e vão sendo postos de parte no estrangeiro - esses longos filmes em series de enredo complicado e por vezes falhos de verosimilhança. O publico de hoje, talvez por motivo da vida intensa que leva e lhe proporciona certos lazeres, escolhe de preferência películas de não muito longa metragem». A rodagem teve lugar na Caparica e Farol do Bugio.

   

A “Caldevilla Film” tinha também uma secção de documentários. “Termas Portuguesas” e o já referido “Chá nas Nuvens” (a escalada à Torre dos Clérigos). Merece também referência “O 9 de Abril”, documentário de grande interesse histórico, muito pormenorizado, de que se destacam alguns aspectos curiosos: a chegada do Marechal Joffre; a passagem do Presidente da República, membros do Governo de 1921, deputados e chefes das Forças Armadas; a multidão compacta ao longo do percurso; os aspectos de Leiria e a chegada à Batalha do corpo do “Soldado Desconhecido”.

Notícia na “Cine-Revista” de 15 de Abril de 1921

Logo após “Os Faroleiros”, Mariaud filmou “As Pupilas do Senhor Reitor” para a “Caldevilla Film”. O romance de Júlio Diniz foi adaptado pelo director literário da empresa, Campos Monteiro e estreado noJardim Passos Manoel em 26 de Junho de 1923. A filmagem de interiores concretizou-se na abegoaria da “Quinta das Conchas”, em Lisboa. Viria ser o último filme produzido pela “Caldevilla Film”. De facto, sobrevieram litígios financeiros com os sócios capitalistas da empresa, pelo que, em 1923, Raul de Caldevilla pediu a demissão de administrador-gerente da “Caldevilla Film”, e que viria a ditar o fim desta empresa.

Propaganda e fotograma do filme “As Pupilas do Senhor Reitor”, em 1923

 

Declinava, assim, um sonho que tivera repercussões insuspeitáveis, a ponto de ser apresentado em 1921, à Câmara dos Deputados, um projecto de lei que isentava a empresa de impostos, durante dez anos - como contrapartida a impressionar, apenas, «assuntos genuinamente portugueses, baseados na história ou na literatura nacionais». Pelo Verão de 1925, a “Caldevilla Film” desmantelava-se simbolicamente, com um leilão público de todo o material.

fotogramas, cartazes e fotos in: Cinemateca Portuguesa, Arquivo Municipal do Porto, Biblioteca Nacional Digital, Arquivo Municipal de Lisboa, Porto Desaparecido