21 de janeiro de 2018

Joalharia do Carmo

A “Joalharia do Carmo”, abriu as suas portas em 1926, na Rua do Carmo, em Lisboa. Este estabelecimento veio substituir a antiga “Ourivesaria Raúl Pereira & C.ª, Ltda.”,  fundada em 1924 e adquirida pelo ourives portuense Alfredo Pinto da Cunha, em finais de 1925.

A “Joalharia do Carmo” é um dos sete estabelecimentos que foram construídos, a partir de escavações para o efeito, na “Muralha do Carmo”. Esta forte barreira de alvenaria, foi construída após o terramoto de 1755, para consolidação do “Monte da Pedreira”, junto às ruínas do Convento do Carmo, e que inicialmente se estendia para Norte até à Rua do Príncipe, actual Rua 1º de Dezembro.

“Muralha do Carmo”, à direita na foto

Em 1901 abrem as lojas até ao número 87, inclusivé, até 1917 altura em que o o comerciante Joaquim Rodrigues Simões - que integrou o executivo camarario entre 1919 e 1923 - requer autorização para construir estabelecimentos na parte ainda desaproveitada da Muralha. Pelo que em 1920  é submetido à Câmara um projecto onde se pretende construir na parte livre, três estabelecimentos, compostos de loja e sobreloja; o Ministério das Obras Públicas aprova o projecto do engenheiro Artur Cohen, para na então parte cega da muralha se abrirem estabelecimentos, visto reconhecer-se que a inicitaiva não punha em perigo a muralha. As obras durariam 4 anos, pelas dificuldades na perfuração; verificou-se que além da Muralha, que é dentada pelo lado interior, agarrando-se assim à estrutura dos terrenos. O engenheiro Domingos Mesquita dirigiu a construção no que respeita a cimento armado, sendo toda a obra finalizada por parte do Estado, pelo engenheiro Valério Vilaça.

Durante o cortejo camoneano incluído nas “Festas da Cidade”, em Junho de 1913

Finalmente, em 1924 instalam-se na “Muralha do Carmo” a “Casa Atlas” (n.º 87-D), a Companhia “Wagons-Lits” (n.º 87 C); “Ourivesaria Raúl Pereira & C.ª, Ltda.”, (n.º 87-B) e a Joaquim Rodrigues Simões é dada a concessão da loja com o nº 87-A pelo prazo de 25 anos, onde abriria a “Luvaria Ulisses” em 1925, cabendo à Fazenda Pública 20 % das rendas das lojas da Muralha.

“Ourivesaria Raúl Pereira & C.ª, Ltda.”

30 de Novembro de 1925

Todas as lojas da “Muralha do Carmo” nos anos 60 do século XX

Joalharia do Carmo.4

Como foi dito no início, a história da “Joalharia do Carmo” começa com a aquisição da “Ourivesaria Raúl Pereira e C.ª, Ltda.”  por  Alfredo Pinto da Cunha, (tio-padrinho do actual proprietário, Alfredo Sampaio), ourives no Porto, e proprietário da “Cunha & Sobrinho - Jóias e objectos d’arte em prata”, fundada em 1 de Janeiro de 1880 por José Pinto da Cunha, na Rua do Loureiro, no Porto. Em 1915, muda de instalações para a Rua 31 de Janeiro, também no Porto, para uma loja projectada, em estilo “Arte Nova”, pelo arquitecto Francisco de Oliveira Ferreira.  Numa política de expansão e crescimento, é adquirida a “Ourivesaria Raúl Pereira & C.ª”,  em 1925.

Com a entrada de Jacinto Machado o negócio cresceu visivelmente, quer pela sua enorme carteira de clientes quer pelas modernas técnicas de comunicação. Em 1954, Jacinto Machado já é sócio da, já, “Ourivesaria Cunha”, um belo estabelecimento na Rua 31 de Janeiro, instalado num edifício classificado e que ainda hoje se mantém em actividade. Em 1957, com a morte de Alfredo Pinto da Cunha, iniciaram-se negociações com a família deste, e Jacinto Machado adquire, pouco depois, a totalidade das quotas da “Ourivesaria Cunha”, que passará a ser conhecida a partir dos anos 80 do séc. XX por “Machado Joalheiro”.

Entretanto, a “Ourivesaria Raúl Pereira e C.ª, Ltda.” passou a designar-se “Joalharia do Carmo”, a partir de 15 de Janeiro de 1926, registando o respectivo logótipo em forma de coração, que passou a ostentar na fachada “Art Déco”.

15 de Janeiro de 1926

 

1934

Nesta casa passariam a trabalhar o irmão do fundador, Gabriel, e Alberto Vieira de Sampaio, cunhado de Alfredo Pinto da Cunha e pai de Alfredo Sampaio, que acabou mais tarde por adquirir as quotas dos sócios.

O negócio prosperou com o eclodir da II Guerra Mundial, com a compra de joias pelos refugiados. Nas décadas seguintes, chegavam à “Joalharia do Carmo” encomendas de baixelas de prata com cerca de 200/300 kg, que integravam listas de casamento dos casais da época.

Ao admirarmos esta Joalharia, a sua arquitetura e decoração não deixam dúvidas sobre a antiguidade da loja. Na fachada, em Art Déco, destaca-se um coração coroado, envolto em ramos de louro. No interior do estabelecimento, o mobiliário em mogno talhado e os candeeiros de cristal ajudam a recriar uma atmosfera histórica.

 

 

A “Joalharia do Carmo” mantém-se assim, há 91 anos, sempre na mesma família, no mesmo ramo de negócio, e com a mesma decoração inicial. Mais um caso de rara longevidade, no panorama do comércio actual na baixa lisboeta.

 

Quanto à loja da “Machado Joalheiro”, na Rua 31 de Janeiro, na cidade do Porto, aqui ficam fotos actuais da mesma.

 

 

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Lojas com História

18 de janeiro de 2018

Pastelaria “Bijou da Avenida”

A “Pastellaria Bijou da Avenida", ou "Pâtisserie Bijou de l'Avenue", ou "Pâtisserie Bijou des Gourmets", propriedade de António José Alves, terá aberto as suas portas, na Avenida da Liberdade, 75 em Lisboa, por altura do Natal de 1889.

“Pâtiisserie Bijou de l’Avenue”

Publicidade à “Bijou da Avenida”, em 23 de Dezembro de 1889

"Pâtisserie Bijou des Gourmets"

Mas, entretanto em 1907, um revés na vida desta pastelaria iria ocorrer, como nos relata o seguinte texto do jornal "Diario Illustrado:

«O sr. Alves dedicara a sua intelligencia, a sua actividade, o seu capital e uma boa parte da sua vida a acreditar aquelle seu estabelecimento, mas porque o seu esforço se empregara em propriedade alheia, viu n'um momento, se não destruida, ao menos prejudicada toda a sua obra, porque a inveja ou a ambição, ou ambas, de mãos dadas, pretenderam colher para si os fructos do trabalho, da iniciativa e da solerte actividade do nosso amigo a que temos a honra de nos referir.
É o caso que o senhorio do predio 81,83 da Avenida, onde estava a Bijou de l’Avenue levantou de tanta maneira a renda da casa que o sr. Alves teve de mudar, correndo o risco de perder tudo quanto com sacrificio ali empregara.»

Nota:  A história atrás relatada, não traduziu o que realmente se passou. Consegui saber, através de uma pessoa que foi sócio (nos anos 60 e 70) da extinta pastelaria “Veneza”, localizada mais abaixo desta, que, o exigido aumento de renda, e a consequência ordem de despejo por não acordo, se deveu ao facto do Sr. Alves ter deitado algumas paredes interiores abaixo, além de outras modificações, sem autorização prévia do senhorio.

O proprietário, António José Alves

                            30 de Junho de 1908                                                                  25 de Julho de 1908

 

Em consequência do atrás exposto, António Alves mudaria,  para um edifício no lado oposto da Avenida da Liberdade, para os números 76-80, ao lado do Restaurante “Vigia”, ex- casa de pasto “O Vigia”, fundado em 1832 por José Gordo., sobre a qual Pinto de Carvalho (Tinop) tinha escrito, no seu livro “Lisboa d’Outros Tempos”, em 1899:

«Taberna do José Gordo, baiuca pessimamente afamada, onde os malfeitores realizavam conferencias, tertulias, cochichavam mysteriosamente, escabichavam a vida alheia. (...) No interior da loja havia uma espelunca nojenta, onde a infima ralé arriscava uns tostõesilhos. Cá fora pastucava-se com comezainas labrêgas, petisqueiras de comer e chorara por mais - iscas, bacalhau com grêlos, petinga, cavalla - copiosamente regadas por uma boa pinguinha.» in: “Lisboa d’Outros Tempos” de Pinto de Carvalho (Tinop).

1902

“Café Vigia” à esquerda do círculo desenhado, onde se instalaria a “Pâtisserie de l’Avenue” na foto

“Pâtisserie de l’Avenue” já instalada ao lado do “Café Vigia”, indicada nos círculos desenhados

 

Em 1858 criaria o “Café do Vigia” «proximo áquella casa em numero 88», que em 1931 seria alvo de uma reforma para acompanhar outros restaurantes de Lisboa, e que a crise, então, grassava, mas não resistiu e encerraria definitivamente em 1934.

Entretanto, quanto às novas instalações da “Pâtisserie de l’Avenue”, inaugurada em 10 de Julho de 1908 nos números 76-80 da Avenida da Liberdade, o jornal “Diario Illustrado” escrevia:

«As novas installações da Pâtisserie Bijou de l'Avenue' pode dizer-se que constituem hoje um dos mais bellos ornamentos de aquella soberba arteria da Lisboa nova, da Lisboa bella da Lisboa fidalga e culta.
O seu aspecto é verdadeiramente pomposo, elegante e opulento. Por todos os lados formosos crystaes, vitrines elegantes, repletas dos mais excellentes ou vistosos productos da arte de pastelaria. A mais exigente e apurada gastronomia encontra alli tudo quanto pode apettecer, assim como o mais delicado bom gosto, os requisitos da arte apparatosa porque a ornamentação do estabelecimento é um verdadeiro modelo.»

Interior da nova “Pâtisserie de l’Avenue”

Instalada no prédio mais alto à esquerda na foto

Mas, não era tudo … «Note-se, porém, que muito brevemente o sr. Alves vae abrir uma nova casa no lado opposto, o occidental, a poucos passos da casa que o obrigaram a deixar, no predio do sr. Alfredo Keil, isto é, na esquina opposta, casa onde já esteve ha annos estabelecido, vindo, portanto, a ter dois estabelecimentos n'aquelle local.
A nova casa ha-de eclipsar tudo quanto se pretender realisar, e tudo isto tem feito sem prejudicar ninguem, porque na sua alma generosa não se alberga a inveja, nem ambições que não sejam dignas e legítimas.»

Anúncio da abertura da filial, em 31 de Outubro de 1908

Em 30 de Dezembro de 1909, já com referência à sucursal nos números: 79 e 79-A

Já como Pastelaria “Bijou”, simplesmente, e propriedade de “A.C. Alves & C.ª”, em 31 de Dezembro de 1939

Cartaz nos 40 do século XX

Entretanto, as antigas instalações da “Pâtisserie de l’Avenue”, 75 na esquina da Avenida da Liberdade com a Praça da Alegria, seriam ocupadas, primeiramente, pelo “Café Moderno”, inaugurado em 3 de Setembro de 1938, e mais tarde pela Agência da “Wagons-Lits//Cook”, inaugurada em 8 de Maio de 1948.

Interior do “Café Moderno” aquando da sua abertura em 1938

“Wagons-Lits//Cook”, em foto de 1948

Nota: de referir que o médico de doenças nervosas, Dr. Santos Freitas, e «especialisado em Paris», lá se manteve por muitos anos, já ocupando todo o 1º andar, e com a mesma tabuleta … Na primeira foto deste artigo, já lá estava instalado.

Quanto à “Pastelaria Bijou”, antiga “Pâtisserie de l’Avenue”, encerraria definitivamente no século XXI, dando lugar a uma loja de pronto-a-vestir.

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital

16 de janeiro de 2018

Music-Hall S. Bento-Rato

O “Music-Hall S. Bento-Rato”, localizado na Rua de S. Bento, em Lisboa, propriedade da firma “Music-Hall S. Bento Rato, Lda.”, foi inaugurado em 4 de Outubro de 1907, com a projecção de “Viagens em Caminho de Ferro”.

Localização do “Music-Hall S.Bento-Rato”, dentro da elipse desenhada na parte inferior de seguinte planta topográfica

Este Teatro foi construído por Paulo Henrique Machado, cujos trabalhos foram iniciados em Junho do mesmo ano, e em 9 de Julho de 1907, o jornal "Diario Illustrado" informava:

«Vão muito adiantados os trabalhos de construcção da grande galeria e casa das machinas que, vindas de Inglaterra, deverão ser assentes por todo o mez, sob a direcção do distincto engenheiro electricista William Scott.
Já começaram tambem os trabalhos de scenographia applicavel a uma das diversões que mais deve enthusismar o publico e que deve produzir um effeito surprehendente.
O novo recinto cuja decoração conforme alguns desenhos que já vimos deve produzir o mais bello effeito será acessívela a todas as classes em vista do preço excessivamente barato porque o publico podesrá assistir a um espectaculo verdadeiramente sensacional.»

Entrada lateral para o pátio do “Music-Hall S. Bento-Rato”

 

Quanto às características do espectáculo inovador que esta sala propunha, transcrevo a nota, bastante elucidativa, acerca das suas características, publicada no dia seguinte á sua inauguração, ocorrida em 4 de Outubro do mesmo ano de 1907, pelo jornal “Diario Illustrado”:

«Inaugurou-se hontem este estabelecimento sito na rua de S.Bento, de ha tanto annunciado, e que apresenta a novidade do espectador fazer a viagem n'uma carruagem de 1ª ou 3ª classe, de forma que recebe a impressão que a vista que vae deslisando no animatographo representa a realidade, dando-lhe, por vezes, vontade, quando chega a uma estação, de desembarcar e beber, pelo menos, um copo de cerveja.
De maneira que assim como ha o mal de mar, é tanta a visão nítida d'essa viagem em caminho de ferro que não duvidamos que chegue a dar a vertigem.
Porteiros, empregados, todos trajam como se fossem alistados n'uma gare, e o  phonographo que se ouve nos intervallos é o mais perfeito que por ahi tem appparecido.
Enfim um espectaculo interessante e que ha-de chamar bastante concorrencia.»

Três anúncio de 5 de Outubro de 1907

 

Os cenários eram da responsabilidade do cenógrafo Luiz Salvador, que estav entre os melhores da época a par de Eduardo Machado, Augusto Pina, Eduardo Reis, e José d'Almeida. Luiz Salvador que tinha cursado na “Academia de Bellas Artes”. «Como scenographo tem apresentado trabalhos importantes nos theatros de Lisboa e Porto, e é hoje dos mais considerados pelo seu talento e seriedade.» in: “Diccionario do Theatro Portuguez” de Sousa Bastos (1908).

Em 1908 a firma “Music-Hall de S. Bento Rato, Lda.”, decide construir, no mesmo pátio um novo espaço a que chamaria “Theatro S. Bento Rato”, que seria inaugurado em 12 de Setembro de 1908, com a revista em 3 actos e 9 quadros “Visões do Rabi”, original de Raymundo Alves e música do maestro Alves Coelho (1882-1931). Foi com este espectáculo que este grande maestro iniciou a sua actividade musical no teatro de revista. Seguir-se-iam mais de 50 revistas, além de operetas e vaudevilles.

                           6 de Setembro de 1908                                                           12 de Setembro de 1908

  

Não sei quando foi o encerramento definitivo do “Theatro S. Bento Rato”, mas que em 1910 já não constava de nenhuma lista em nenhum periódico ou revista, que tive acesso, foi um facto.

Actual edifício (cor de rosa) no espaço outrora ocupado pelo “Theatro S. Bento Rato” (via “Google Maps”)

Fotos in:  Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa