23 de agosto de 2016

Café “A Brasileira”

A história do café “A Brasileira” e seus estabelecimentos, começa quando em 1903, Adriano Soares Telles do Vale, nascido em Alvarenga, concelho de Arouca, regressa à cidade do Porto, vindo do Brasil para onde tinha emigrado. No Brasil, tinha-se dedicado ao negócio do café, com o que enriqueceu nos finais do século XIX. Casou no Brasil com uma filha de fazendeiros do Estado de Minas Gerais, onde abriu uma loja inicialmente chamada "Ao Preço Fixo", que incluía também casa de câmbios, e dedicou-se à produção agrícola, em particular de café, que importou para Portugal. O motivo do seu regresso a Portugal deveu-se ao estado de saúdo da sua primeira mulher, que acabaria por falecer já em terras lusas.

Adriano Telles com o folheto “A Brazileira” por si editado 

Adriano Telles, além de ter montado uma torrefação criou uma rede de pontos de venda do café que produzia e importava do Brasil: as famosas "Brasileiras", espalhadas pelo país. A primeira loja foi no Porto, “A Brazileira”, propriedade da recém formada “Telles & Cº.”, constituída por Adriano Telles em sociedade com Félix de Mello e Cândido Alves, avô materno do marido da escritora Agustina de Bessa Luís. e abriu em 4 de Maio de 1903, Rua Sá da Bandeira, em plena baixa portuense, para servir café à chávena. Como os portueneses, nessa altura, não tinham o hábito de tomar café em estabelecimentos públicos, Adriano Telles, para promover o seu produto ofereceu, durante os primeiros treze anos de "A Brazileira", o café à chávena de graça no seu estabelecimento a quem comprasse um saquinho de grãos de café.

1903

“A Brazileira” na Rua de Santa Catarina, no Porto. com Adriano Telles à porta

     

1905

Com uma visão comercial avançada, Adriano Telles manda pintar em várias paredes da cidade do Porto o slogan que se tornaria famoso - «O melhor café é o d'A Brasileira» - e abre as lojas "A Brasileira" de Lisboa, no Chiado, em 4 de Novembro de 1905 e "A Brasileira" de Coimbra em 1928. Quanto à “a Brasileira” de Braga foi criada em regime do que se chama hoje de “franchising” fundada por Adolfo Azevedo, consul ou vice-consul (?) do Brasil no Porto. Além destas ainda abriria em Aveiro e Sevilha. De referir que Adriano Telles foi também um homem de cultura, com interesse pela música e pela pintura. Fundou a “Banda Filármónica de Alvarenga”, financiando a compra dos seus primeiros instrumentos, e fez, da Brasileira do Chiado, o primeiro museu de arte moderna em Lisboa. No Brasil, ainda no séc. XIX, teve ainda passagem pela imprensa e pela política, tendo sido Vereador da Câmara da cidade onde casara e se estabelecera.

“A Brasileira” de Braga actualmente

Entretando  “A Brazileira” do Porto, sofre profundas obras de ampliação e remodelação do seu interior em 1916. De acordo com um projecto do arquitecto Francisco de Oliveira Ferreira (1884-1957), "A Brazileira" passa a ter uma notável fachada, com o magnífico pára-sol de ferro e vidro, e um interior deslumbrante, em que sobressaem os cristais, os mármores e o mobiliário de couro gravado.

Loja da Rua Sá da Bandeira em obras no ano de 1916 com Adriano Telles sentado e seu sócio Félix de Mello de pé

 

Interior de “A Brazileira” na Rua Sá da Bandeira no Porto depois das obras em 1916

Café A Brasileira (1)     Café A Brasileira (2)

“A Brasileira” do Porto, propriedade do antigo jogador do “F.C. do Porto”, e seleccionador nacional,  António Oliveira, viveu dias difíceis. A chamada "sala pequena" foi mais tarde separada e explorada pela multinacional “Caffè di Roma”. O restante espaço depois de vários anos encerrado, reabriu como restaurante tendo encerrou de novo.

                                           1941                                                                                       1960

 

“A Brazileira” do Porto na Rua Sá da Bandeira após as obras de 1916

Como restaurante e a “sala pequena” com o “Caffè di Roma”

 

Actualmente, o espaço comercial encontra-se encerrado desde o início de 2013, quando se encontrava arrendado ao "Caffé di Roma" e foi reclamado pelo BPI por causa de uma dívida do proprietário do edifício. Em Março de 2015, quando se encontrava encerrado, o café foi assaltado, tendo os ladrões levado os caixilhos e revestimentos em cobre, puxadores das portas, espelhos de alabastro, candeeiros originais e rodapés arrancados da sala principal.

“A Brazileira” Casa Especial de Café do Brazil, no Chiado, em Lisboa, casa de comércio de cafés importados do Brasil, abriu as suas portas em 4 de Novembro de 1905, no edifício do Grande Hotel Borges”, ocupando uma loja anteriormente camisaria. “A Brasileira” do Chiado, e as outras, já não tinham nada a ver com os sócios da inicial no Porto. A sociedade era somente com pessoas da família. Tinha sede no Largo de São Domingos, em Lisboa, no “Palácio da Regaleira”, ao lado do Palácio da Independência. Inicialmente apenas dedicada à venda a retalho, viria a inaugurar a sala de café no ano de 1908, oferecendo aos lisboetas um espaço social que rapidamente se tornou num dos mais importantes centros culturais da cidade.

“A Brazileira” do Chiado na Rua Garrett em Lisboa em foto de 1911

                                         1906                                                                               1907

 

1910

O chalet “Souvenir de Portugal” mencionado no anúncio anterior e arrendado à “A Brazileira” visto do interior do “Posto Marítimo de Desinfecção”

Em 1922 a firma “A Brazileira, Lda.” requeria à Câmara Municipal de Lisboa, autorização para «transformar a fachada atual do seu estabelecimento». O projeto da emblemática fachada teve o risco do arquiteto Manuel Joaquim Norte Júnior (1878-1962). O modelo do café lisboeta, luxuoso e ao gosto parisiense, tem a marca distintiva do seu autor, presente nas estátuas que guardam a entrada do espaço, nas elegantes grinaldas que substituem estruturas arquitetónicas, nas características máscaras ou no cuidado trabalho de ferro forjado.

Carro alegórico de “A Brazileira” no Carnaval de 1929, em Lisboa

Semana dos Artistas” de 22 a 29 de Janeiro de 1928. Na foto e no papel de empregados de mesa: Estevão Amarante, Samwell Diniz, Joaquim Almada, António Silva, Seixas Pereira, João Silva, José Alves e Salvador Costa

Cartaz de José Rocha exibido na exposição da “Estúdio Técnico de Publicidade” no “Teatro da Trindade” em 1938

1966

 

Enquadramento de “A Brasileira” na Rua Garrett com a “Casa Havaneza” à esquerda na foto em 1959

Bolo Rei da Brasileira

Frequentadores habituais em foto de 1928. Da esquerda para a direita, Teixeira de Pascoaes, Cristóvão Aires Filho, Matos Sequeira, António Soares, Jorge Barradas, Joshua Benoliel, Augusto Ferreira Gomes, o célebre empregado João Franco e Adolfo Castañe

Entretanto poucos anos, depois da abertura de “A Brazileira” do Chiado, Adriano Telles abre a “Brasileira” do Rossio em 1911.

Exterior da “Brasileira” do Rossio em 1944 e seu interior nos anos 60 do século XX

 Café A Brasileira do Rossio.1

“A Brasileira” do Rossio e a “Semana dos Artistas” de 22 a 29 de Janeiro de 1928

A “Brasileira” do Rossio viria a encerrar definitivamente em 1961, para dar lugar a uma agência bancária do “Banco Português do Atlântico”.

Quando da intervenção os jovens artistas que então frequentavam as tertúlias do café pintaram um conjunto de telas que passaram a decorar o espaço. Entre estas estavam obras de Jorge Barradas, Stuart Carvalhais, Eduardo Viana e Almada Negreiros. Durante os anos 50 e 60 do século XX, "A Brasileira" esteve na eminência de ser encerrado em definitivo e em 1969 as telas dos pintores modernistas são vendidas a um particular.

Tela do pintor contemporâneo Carlos Calvet intitulado “Alegoria à Brasileira”

Em 1971 o café sofre melhoramentos, recebendo, inclusivamente, outras telas de pintores contemporâneos a ocupar o espaço das anteriores, e em 1993 e no âmbito do programa “Lisboa 94 Capital Europeia da Cultura”, o café "A Brasileira" é beneficiado com obras de remodelação e manutenção tendo edifício de “A Brasileira” ocupado pelo “Hotel Borges” sido classificado como “Imóvel de Interesse Público” em 1997, devido ao programa arquitetónico exterior e ao importante lugar simbólico que o espaço ocupa na história cultural e social da cidade de Lisboa.

“A Brasileira” do Chiado actualmente

 

 

Fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Digital, Arquitectura 3D Brasil, Amar o Porto

6 comentários:

Majo Dutra disse...

Gostei muito, José Leite.
Sem tempo, resolvi 'dar uma vista de olhos'
e acabei ficando presa na agradável leitura.
Grata pela partilha.
~~~~~~~~~~~~~~

José Leite disse...

Muito grato pelo seu amável comentário.

Os meus cumprimentos

Zulmiro Pereira disse...

Por favor, a justificação do termo BICA, é no mínimo delirante. O café era servido a partir de cafeteiras de balcão e saía por uma pequena torneira, mas os clientes queixavam-se da frescura do café. Para os satisfazer, consta-se que as casas passaram a servir o café directamente do coador para um recipiente que vertia para as chávenas. Ou seja, saia directamente de uma bica, como de uma fonte se tratasse. Daí para a frente as pessoas passaram a pedir uma bica, como sinal de café feito na hora e não da cafeteira de balcão.
Toda a restante descrição está de parabéns.

Saudações cordiais,
Zulmiro Pereira

José Leite disse...

Grato pela correcção e pelo comentário.

Como não é objectivo deste blog fazer rir os leitores, vou retirar essa "delirante" passagem que a transcrevi de algures ...

Os meus cumprimentos

Leonor Areal disse...

Exmo. Senhor José Leite, saberá dizer-me onde posso encontrar a imagem que vem reproduzida nesta página: Frequentadores habituais da Brasileira do Chiado, em 1928, incluindo Teixeira de Pascoaes.
Muito agradecida, com os meus cumprimentos,
Leonor Areal

José Leite disse...

D. Leonor

Pode encontrá-la no Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa, no seguinte link:

http://arquivomunicipal2.cm-lisboa.pt/x-arqweb/

Marcar AML/Fotográfico e procurar por A Brasileira. Ao percorrer as seis páginas disponibilizadas encontrará a foto que pretende.

Os meus cumprimentos

José Leite