2 de fevereiro de 2014

Casa Havaneza do Chiado

A “Casa Havaneza”, a tabacaria mais antiga de Lisboa, terá sido fundada ainda em 1861, ou mesmo 1855, pois existem anúncios a fazer prova disso. Se assim for, os seus presumíveis fundadores serão dois belgas, negociantes de tabaco e residentes na Antuérpia, de seus nomes: François Caen e Charles Vanderin. Já nesses tempos, o tabaco de origem cubana era sinónimo de qualidade daí a escolha de um nome - “Havaneza”- que ainda actualmente mantém o seu significado.

Inicialmente a única porta para o lado da Rua das Portas de Santa Catarina (Rua Garrett) fazia a serventia. Desde essa época, as várias marcas de tabaco, os charutos, os cigarros, a importação exclusiva do papel para tabaco “Zig-Zag”, fizeram da “Casa Havaneza” um estabelecimento de referência.. Tinha a distribuição exclusiva do tabaco de onça da “Companhia de Tabacos de Portugal” , de três qualidades: normal, francês e superior, com preços à volta dos 60 e 70 réis. O charuto de vintém era a “glória” da casa.

“Casa Havaneza” em 1913

Anúncio de 1905

Tabela das qualidades de tabaco comercializadas pela “Companhia dos Tabacos de Portugal”, em 1903

Escritores, pintores, políticos, empresários, .... Muita gente conhecida e anónima passou, e continua a passar pela “Casa Havaneza” do Chiado.

Em "A Correspondência de Fradique Mendes" escreveu Eça de Queiroz: «E se eu desejava conhecer um homem genial, que esperasse ao outro dia domingo, às duas, depois da missa do Loreto à porta da Casa Havaneza». Em "Os Maias" o escritor descreve «A uma esquina, vadios em farrapos fumavam, e na esquina defronte, na Havanesa, fumavam também outros vadios, de sobrecasaca, politicando». Já na obra “O Crime do Padre Amaro" vive-se uma situação mais agitada: «Nos fins de Março de 1871 havia grande alvoroço na Casa Havanesa, ao Chiado, em Lisboa. Pessoas esbaforidas chegavam, rompiam pelos grupos que atulhavam a porta... Mas ninguém se mostrava mais exaltado que um guarda-livros do hotel, que do alto do degrau da Casa Havanesa brandia a bengala, aconselhando à França a restauração dos Bourbons.» 

Anúncio de 1912



A conhecida loja estará para sempre ligada à própria história da cidade de Lisboa e ao nome do famoso banqueiro - Henry Burnay. Apesar de não ser o fundador, Burnay foi, sem dúvida, quem a tornou famosa e delineou os contornos da sua personalidade que em muitos aspectos, persiste até aos nossos dias. 

É em 1864 que o nome de Henry Burnay aparece pela primeira vez na história da “Casa Havaneza” enquanto arrendatário da tabacaria sendo o proprietário, António de Oliveira Guimarães. Em 27 de Maio de 1865 é assinada nova escritura permitindo ao banqueiro continuar o seu negócio até 31 de Dezembro de 1874.

Henry Burnay - 1º Conde de Burnay (1838-1909), por Ernest Borbes

Em 1875, no mesmo ano em que nasce a firma “Henry Burnay & Cia.”, o banqueiro decide ampliar o espaço da “Casa Havaneza” alugando os números 124, 126 e 128 da Rua Garrett, ao Sr. Luís Afonso. O estabelecimento passa a abranger toda a área entre a Praça do Loreto e a continuação da Rua do Chiado e Burnay contrata ainda Luís Afonso para trabalhar na tabacaria.

Mas, é em 1877 que os dois belgas fundadores, François Caen e Charles Vanderin, assinam uma escritura oficializando a “transacção amigável” com a firma “Henry Burnay & Cia”. A partir desta data a gestão da tabacaria passa a ser da inteira responsabilidade de Henry Burnay e dos seus dois sócios: Eugénio Larrouy e Ernesto Empis, cunhado de Burnay.

Anúncio de 1933

“Casa Havaneza” em 1959

Em 1960, já a “Casa Havaneza” pertencia ao Banco Burnay, quando foi criada a “Empor - Empreendimentos Comerciais e Financeiros, SARL” cujo capital social era maioritariamente de Virgílio de Sousa. Assim sendo, no dia 31 de Março de 1960, António José Brandão e José Robert Callens, na qualidade de administradores do “Banco Burnay”, e Virgílio de Sousa, administrador delegado e em representação da “Empor S.A.” foram os protagonistas de uma nova escritura que visava a  transferência do negócio dos tabacos do Banco para esta nova empresa. A decisão teve por base uma exigência legal que impunha que as instituições bancárias abandonassem os negócios que não estivessem directamente ligados ao objectivo social.

Neste contrato define-se ainda que o espaço antes destinado exclusivamente ao estabelecimento comercial passa agora a ser também uma agência do “Banco Burnay” sendo o espaço da loja “Casa Havaneza” consideravelmente reduzido. A partir deste momento, a história da “Casa Havaneza” irá passar por sucessivas transformações, momentos melhores e piores, dirigidos por diferentes nomes e estilos de gestão.

Conjunto da agência do “Banco Burnay” e “Casa Havaneza” em 1960

A partir da década de 50 do século XX, a gestão encabeçada por Virgílio de Sousa iniciou aquele que seria o primeiro grande processo de reestruturação dos negócios da “Casa Havaneza”. A histórica tabacaria continuava a ser um marco na prestigiosa zona do Chiado mas, era evidente a necessidade de acompanhar os tempos, as novas necessidades e modas.

Assim sendo, a aproveitando a diminuição de espaço dedicada à “Casa Havaneza”, a “Empor S.A.” decide investir fortemente na remodelação da fachada e do interior da loja ganhando alguns toques de requinte e personalidade que muito deram que falar na época. Falamos da grade de bronze dourada da autoria do escultor Jorge Vieira e da belíssima gravura em mármore policromado da autoria de Bartolomeu Cid. Pretendia-se modernizar o espaço bem como, adaptá-lo a aos novos negócios que a empresa estava empenhada em conseguir para a loja.

Esta “nova” loja foi construída pela empresa “Carlos Eduardo Rodrigues”, projectada pelos arquitectos António Azevedo Gomes e Francis Jules Léon, com pinturas de Bartolomeu Cid e vitrais de Ricardo Leone.

Fachada e interiores da “Casa  Havaneza” em 1961

 

 

                     

A nova política comercial incluiu a negociação da representação exclusiva dos havanos de Cuba através da embaixada. Foi, sem dúvida, o primeiro passo para a posição privilegiada que a empresa tem ainda hoje ao nível, do negócio dos tabacos.

Contudo, nesta mesma gerência outras áreas foram desenvolvidas, nomeadamente a vertente do “Gift”. A “Casa Havaneza” passa a ser frequentada tanto por clientela masculina como por muitas senhoras que encontram no estabelecimento requintadas peças de cristal, porcelanas francesas, estojos diversos em couro ou madeiras preciosas para oferecerem ou como delicados caprichos domésticos.

Nos anos 70 do século XX, é solicitada ao arquitecto Nuno Corte Real a remodelação da “Casa Havaneza” do Chiado. Passados 30 anos, em 2009, mantendo os traços da remodelação dos anos 70, é de novo remodelada e surge com um ar mais moderno e equipada com um walk-in humidor, à semelhança das lojas das Amoreiras e Colombo.

Fachada e interiores da “Casa Havaneza” nos anos 70 do Século XX

 

 

 

A era dos grandes centros comerciais surge no nosso país como uma tendência do novo comércio que parece irresistível aos olhos dos clientes e à qual, nem a tradição da longínqua “Casa Havaneza” fica indiferente. Mantendo a histórica loja no coração do Chiado inicia-se a expansão da marca.  

Mantendo e respeitando a personalidade da original, surge em 1985 uma sucursal da “Casa Havaneza” no “Centro Comercial Amoreiras” e, em 1997 outra no “Centro Comercial Colombo”. O sucesso destes estabelecimentos prova que o conceito continua actual e que as reestruturações desenvolvidas mereceram a confiança e agrado de antigos e novos clientes.

Actual fachada da “Casa Havaneza”  no Largo do Chiado

 

Actual fachada do conjunto da agência do BPI (antiga agência do Banco Burnay) e “Casa Havaneza”  no Largo do Chiado

Quanto à loja do Chiado escreveu Marina Tavares Dias em “Lisboa Desaparecida” Vol I :

«Para a Havaneza, sobejaram duas portas, logo a seguir à Brasileira. A tabacaria possui hoje uma montra de vidro fumado, um interior de estranhos contornos, e vende artigos de luxo. “As melhores prendas do Chiado”, como alguém disse já. Continua, pois, elegante. Sacrificou apenas a tradição. Nos primeiros anos após esta violenta mudança nos hábitos dos “cidadãos do Chiado”, havia muitos que não se aventuravam a perguntar naquela luxuosa loja de brindes se ali ainda se vendiam murtalhas baratas.
Depois do charuto, também o “cigarrito” foi caindo em desgraça, pelo menos no que respeita à boa fama, e a Havaneza prefere hoje assumir-se como uma das lojas de artigos de luxo, numa tradição que, sendo do Chiado, nunca foi bem a sua.»

Bibliografia: Site da “Casa Havaneza”, Livro “Lisboa Desaparecida” (Vol I) de Marina Tavares Dias - Editora Quimera (1987).

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Digital

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