11 de janeiro de 2015

Teatro Politeama

O “Teatro Politeama” foi mandado construir em 1912, pelo empresário Luís António Pereira, na ainda denominada Rua Eugénio dos Santos, mais tarde Rua das Portas de Santo Antão, em Lisboa. O arquitecto Miguel Ventura Terra (1866-1919), foi o autor do projecto, e José Passos Mesquita o responsável pela construção, iniciada a 12 de Maio de 1912. As decorações do interior e exterior do teatro ficaram a cargo do escultor Jorge Pereira e dos pintores Benvindo Seia e Veloso Salgado.

“Teatro Politeama” em fase final de acabamentos, em 1913

“Teatro Politeama” e o proprietário e empresário Luís António Pereira

                    Luís Pereira

O “Teatro Politeama”  viria a ser inaugurado a 6 de Dezembro de 1913, com a presença do Presidente da República Manuel de Arriaga e do Presidente do Ministério Afonso Costa. Como espectáculo de estreia a opereta "Valsa d’ Amor", apresentada pela “Companhia Gomes e Grijó”, com Cremilda d’Oliveira - famosa mais tarde, também como actriz de cinema em “O Grande Elias” (1943), “Leão da Estrela” (1947) - Sofia Santos, Irene Gomes, António Gomes, Grijó e Elsy Rubini, nas principais figuras.

Opereta “Valsa d’ Amor” na inauguração do “Teatro Politeama” e a actriz Cremilda d’Oliveira

         Valsa de Amor.1

“Teatro Politeama” no dia da sua inauguração, no exterior e no almoço alusivo ao acontecimento, com o empresário Luís António Pereira sentado ao centro

 

No dia da inauguração o colunista do jornal “A Capital” escrevia:

«Noite de inauguração. Toda a Lisboa que frequenta theatros, amontoada, acotovellando-se nos corredores e discutindo o novo edifício. Uns acham que o theatro é optimo, mas que as trazeiras dos W.C. não funcionam com regularidade. Outros gostam das torneiras, mas sentem calor de mais; uns são de opinião que o theatro é largo, outros que é alto, outros ainda de que não é nem gordo nem magro, antes pelo contrário. Eu acho apenas um defeito: não ser meu.
O panno de bocca produz sensação. Á parte o primor da sua factura, todos procuram dar um sentido ás attitudes das figuras. Pinheiro Chagas não offerece duvidas: ou não está satisfeito com o regimen, ou não gosto da peça, ou D. João da Camara, seu visinho, lhe disse alguma coisa desagradavel. O gesto do auctor da Morgadinha é expressivo. O proprio Almeida Garrett, mais adiante, abre os braços, surprezo dizendo:
- Ó Chagas, parece impossível. Isso não se faz.»

Duas páginas da revista “Occidente” de 20 Dezembro de 1913, alusivas à inauguração

A propósito a revista “Brasil-Portugal” , em 20 de Dezembro, escrevia a propósito do evento:

«O grande sucesso theatral da quinzena foi a inauguração d'este theatro, nas Portas de Santo Antão, cuja exploração está a cargo do intelligente emprezario Luiz Pereira.
(...) A peça de estreia é uma operetta alemã de originalissimo enredo e musica encantadora, tendo o desempenho causado verdadeira sensação, o qual estava a cargo de Cremilda de Oliveira, Elsy Rubini, António Gomes, Grijó, etc, etc. Os coros afinados e a orchestra dirigida por Luiz Gomes, cuja reputação está feita. Brevemente a operetta Toreador.»

Primeiras operettas cómicas exibidas, após a inauguração, respectivos notícias das estreias e publicidade às mesmas

                           1 de Janeiro de 1914                                                              1 de Fevereiro de 1914

 

                            

Concerto dirigido pelo maestro David de Souza, em 8 de Fevereiro de 1914

Capas de partituras de fados da Revista “Salada Russa” estreada em 1918, e da Opereta cómica “Miss Diabo” estreada em 24 de Outubro de 1918, ambas exibidas no “Teatro Politeama”

 

De salientar, não apenas a pintura do tecto, uma agradável composição alegórica às artes, Música, Dança e e Teatro, datada de 1913 e a enorme tela que constitui o pano de boca ainda hoje existente neste Teatro da autoria de Veloso Salgado. Também de referir que este teatro estava ligado pelas traseiras ao Salão “Olympia inaugurado em 22 de Abril de 1911

O edifício que incorpora o “Teatro Politeama” é constituído por 5 pisos. Por se tratar de uma sala de espectáculos, a sua constituição arquitectónica tem algumas particularidades que importam salientar. O edifício pode ser dividido em duas áreas: uma destinada à recepção de público e outra para uso dos artistas. Em termos gerais, a área de acesso ao público abrange a zona da sala de espectáculos - lugares da plateia, tribuna e balcão - assim como o foyer do Teatro que se estende por 3 pisos (piso 1 ao piso 3), ao passo de que a zona dos artistas engloba toda uma área dedicada a camarins, gabinetes e demais salas de produção e ensaios.

 

 

 

 

Além de operetas, zarzuelas, comédias musicadas e teatro de Revista, foram inúmeras as Companhias de Teatro que representaram no “Teatro Politeama”, como: 

Companhia Aura Abranches - Grijó;
Companhia Alves da Cunha
Companhia Ilda Stichini  -Alexandre Azevedo;
Companhia Aura Abranches  -Chaby Pinheiro;
Companhia Adelina Abranches;
Companhia Luiza Satanela - Estevão Amarante;
Companhia de Lucília Simões - Erico Braga;
Companhia Rey Colaço - Robles Monteiro;
Companhia Nascimento Fernandes

Programas de 1925

  

A partir de 1914, ano em que o “Teatro Politeama” começou com a exibição de filmes, a programação cinematográfica do Olympia”, a partir de então, ficou quase sempre ligada ao mesmo. Começando a exibir filmes, o “Teatro Politeama” passou, deste modo, de Teatro a Cine-Teatro. Tinha 817 lugares. Estreou filmes históricos como “Casablanca”, em plena II Grande Guerra Mundial.

                                      9 de Novembro de 1916                         Já com a cabine de projecção de filmes

      

             Filme de estreia da temporada 1927/1928                         E em 1936, «um programa de grande categoria» …

      

Programação para a época 1948-1949, planta da sala depois da adaptação a cinema e preços respectivos

“O Homem das Sete Vidas” de 1947 da “RKO Radio Films”, distribuído pela “Rádio Filmes, Limitada

Nota: Acerca da distribuidora em Portugal da americana “RKO Radio Films” consultar, neste blog, o seguinte link: “Rádio Filmes, Limitada

Muitas festas de homenagem a várias personalidades do espectáculo que aqui tiveram lugar, desde Ângela Pinto a Dário Nicodemi, de Guilhermina Suggia a Nascimento Fernandes e, recentemente, a Armando Cortez, Luzia Maria Martins, a encenadora que aqui se estreou como actriz em 1932 na companhia de revista de Linda Demoel, a Igrejas Caeiro e Maria Helena Matos, que neste palco representou durante mais de um ano, com sua mãe, Maria Matos, a célebre comédia "O Domador de Sogras", da autoria de  Félix Bermudes, João Bastos, Hermano Neves, com as geniais actrizes Maria Matos e Adelina Abranches.

Foi no palco do “Teatro Politeama” que nos Domingos dos anos 50 do século XX, Igrejas Caeiro realizou em directo, o célebre “Comboio das Seis e Meia”, em que ficaram célebres as figuras de “Zéquinha e Lélé”, interpretadas por Vasco Santana e Irene Velez. Estes episódios de “Zéquinha e Lélé”  eram reapresentados na “Emissora Nacional” no programa de Olavo d’Eça Leal “Domingo Sonoro” inseridos no famoso programa radiofónico “Companheiros da Alegria”.

  

Também esta sala de espectáculos foi palco de espectáculo de bailado de Francis Graça (coreógrafo) com “Verde Gaio” , promovido pelo “SPN - Secretariado de Propaganda Nacional” - depois de estreado no Teatro da Trindade em 8 de Novembro de 1940 e ter passado no ano seguinte pelos Teatro Nacional de São Carlos” e pelo “Teatro Nacional D. Maria II - e do “Ballet Gulbenkian” que realizou várias temporadas. A célebre companhia de bailados no gelo, "Holiday on Ice" estreou-se em Portugal no palco do “Teatro Politeama”.

Bailados “Verde Gaio” num cartaz de Calos Botelho e capa de programa de 1943

 

Exemplos de quadros do bailado “Verde Gaio”

Primeiro filme de Elvis Presley “Love me Tender”, estreado no “Politeama” em 8 de Agosto de 1957

                         “O Primo Basílio” de 1959, estreado no “Politeama”                        Programa e bilhete em 1965

                

“Teatro Politeama”, funcionando com cinema nos anos 60 do século XX

Após a remodelação do interior, da autoria do arquitecto Raul Tojal, o edifício sofreu um incêndio, que suscitou o surgimento de um novo projecto de alterações, em 1968, dessa feita, a cargo do arquitecto Frederico George, que ficaria completo cinco anos mais tarde, em 1973.

Teatro Politeama.12

Fachada no início dos anos 80 do século XX

Após grandes obras de remodelação, em 1991, em que a capacidade foi reduzida para 715 espectadores, o empresário e encenador Filipe La Féria, estreou em 1992 neste palco o grande musical "Maldita Cocaína" da sua autoria.

    

Em 2013 o “Teatro Politeama” festejou o seu centenário (1913-2013), e para assinalar a efeméride o empresário Filipe La Féria produziu o espectáculo “Grande Revista à Portuguesa”.

Fotos in: Arquivo Municipal de LisboaBiblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Hemeroteca Digital, Biblioteca Nacional Digital

2 comentários:

LG disse...

Se me permite: a fotografia identificada como sendo da fachada nos anos 70 do século XX é mesmo desse período? É que me parece, em primeiro plano, ver um Citroën BX, modelo que começou a ser comercializado em 1982. Claro que, entre o final dos anos 70 e o início dos anos 80, a diferença não é significativa.

José Leite disse...

Caro LG

De onde "pesquei" a foto estava identificada 1968 e eu reparando nesse pormenor que refere, arrisquei final dos anos 70 ... pelo que deverá estar certo a sua chamada de atenção.

Os meus cumprimentos

José Leite