25 de março de 2011

Teatro Nacional de S. Carlos

Construído nos finais do século XVIII em apenas seis meses, na zona do Chiado em Lisboa, o “Real Theatro de S. Carlos”, projectado pelo arquitecto José da Costa e Silva, foi inaugurado em 30 de Junho de 1793 pela Rainha D. Maria I para substituir o teatro “Opera do Tejo”, que foi destruído no Terramoto de 1755. Na inauguração foi estreada a ópera “La Ballerina Amante” de Domenico Cimarosa.

“Real Theatro de S. Carlos” - Exterior e interior em 1893

                                              

«O Teatro de S. Carlos era vulgarmente denominado, em 1793, Ópera do Theatro Moderno e Nova Ópera. O Livro das Décimas de 1794 chamava-lhe Caza da Ópera de S. Carlos e o de 1802 Ópera Italiana. Nos seus princípios, os italianos davam-lhe o nome de Regio Teatro de S. Carlos, detto della Principessa, por que o Intendente Manique alvitrára que se denominasse Teatro da Princesa do Brasil, com o título de S. Carlos.
O vigamento-mestre do teatro foi feito com grossíssimas traves de madeira do Brasil. Sôbre o arco de proscénio, havia um grande relógio, coroado por um Cupido, que olhava para a plateia, e ladeado por duas figuras: o Tempo, empunhando a sua foiçe, e uma das Musas, tocando na sua lira.
Este relógio ainda existia em 1842 e foi posteriormente substituído por outro mais pequeno. A sala era iluminada a velas de cera da Rússia e os camarins a velas de cebo. Em 1851, ainda os camarins teatrais eram iluminados a velas de cebo e a azeite, e os tangões tinham luzes fixas de velas.
O empresário Lodi começou em 1794, por pagar a renda anual de S. Carlos a importância de 1.200$000 réis, “segundo o Arbitrio que fizerão os mestres”, mas os empresários Crescentini e Caporalini pagavam 2.000$000 réis anuais em 1799.
» in “Lisboa de Outrora” de João Pinto de Carvalho (Tinop) - 1938.

Programa de 26 de Abril de 1855

1875

“Teatro Nacional de S. Carlos” em 1940

Teatro Nacional S. Carlos.3   Teatro Nacional S. Carlos.23

Em 1755, a Coroa portuguesa fez inaugurar a faustosa sala “Ópera do Tejo’", um teatro de corte, anexo ao antigo Paço da Ribeira, onde só se era admitido por convite. Este teatro de ópera, que esteve em actividade apenas alguns meses, foi destruído pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755. Com a inauguração do “Real Teatro de S. Carlos”, deixou de ser representada ópera italiana no “Theatro da Rua dos Condes’ .

Maqueta reconstituindo a “Ópera do Tejo”

Ópera do Tejo.1

Theatro da Rua dos Condes

A construção do “Teatro Nacional de S. Carlos”, decidida em 1792, num contexto político de hostil posição às ideias iluministas, só se tornou possível justificando-se como fonte de receita para uma obra de caridade - a “Real Casa Pia de Lisboa”, fundada em 29 de Outubro de 1780 pelo intendente Pina Manique. Foi, aliás, este, então intendente da Polícia e antigo homem de confiança do primeiro-ministro Sebastião de Carvalho e Melo, quem conseguiu obter da Coroa a permissão. Por detrás da justificação oficial, estavam, porém, os interesses de abertura e modernização da sociedade portuguesa de um grupo de grandes negociantes de Lisboa, entre outros, os contratadores do tabaco, que haviam prosperado na época pombalina. O seu custo foi de 165.845$196 reis ….

Os referidos negociantes de seus nomes Anselmo José da Cruz Sobral, Jacinto Fernandes Bandeira, João Pereira Caldas, António Francisco Machado, Joaquim Pedro Quintela e António José Ferreira Sola. Um deles, Joaquim Pedro Quintela, feito barão em 1805 (mais tarde Conde de Farrobo, e Director do próprio Real Teatro de São Carlos entre 1838 e 1840), cedeu os terrenos para o edifício em troca da propriedade de um camarote de primeira ordem, com anexos e acesso privado à rua, fronteiro ao camarote lateral, de proscénio, da família real. O Conde de Farrobo, já empresário do “Teatro Nacional de São Carlos”, em 1820 inaugura o seu O “Teatro da Laranjeiras , na sua propriedade, junto ao seu Palácio nas Laranjeiras contíguo ao Jardim Zoológico.

                                                                              Sala de espectáculos

                                

                                

O “Teatro Nacional de S. Carlos”  é um exemplar da arquitectura civil pública, neoclássica, e recebeu algumas influências de inspiração italiana, designadamente do “Teatro di San Carlo’” em Nápoles, e do “Teatro della Scala” de Milão. Merece referir a participação de vários artistas nacionais e estrangeiros na decoração do interior do teatro, nomeadamente Cirilo Volkmark Machado, Appianni e Manuel da Costa.

                           Teatro di San Carlo, em Nápoles                                          Teatro della Scala, em Milão

 

Nesse tempo, a empresa do “Teatro Nacional de S. Carlos”, tinha a seu cargo a “Sociedade dos Actores do Teatro Nacional” da Ruas dos Condes, e ostentava como primeiros artistas: Neri e Vergé, primeiras damas sérias; Favini e Fensi, primeiras damas cómicas; Mary, primeiro tenor e Martinelli, primeiro buffo; en dança Coralli e Gerard, primeiros bailarinos.

                                                                                             Átrio

                                 

                                                                                     Salão Nobre

 

                                                                                          Foyer

       

      

                                                                              Acesso aos Camarotes               

                

                              Sala de estar presidencial                                                                 Bilheteiras

 

Em 1850, a iluminação do interior foi alterado para iluminação a gás, a mais recente tecnologia disponível.

Entretanto em 7 de Novembro 1887 a toda a largura da 4ª página, lia-se no "Correio do Sul", folha bi-semanal de Almada o seguinte anúncio que textualmente reproduzo.


                                 

Mais curioso, do que este meio para vencer as mil vicissitudes que periodicamente atravessava o Teatro S. Carlos, foi sem dúvida o sistema de rifas e lotarias a que recorreram as empresas de 1797 a 1800, outros subsídios anedóticos colhidos nos jornais do tempo, do mais pitoresco e característico significado.

Neles se encontra, em 25 de Novembro de 1797, o complicado «Plano da Riffa de Trastes, camarotes e bilhetes que se hade fazer no Real Theatro de S. Carlos, para a Quaresma do anno de 1798 no capital de 9.600$000 reis, dividido em 6.000 Bilhetes de 1$600 reis cada hum, e na extração dos Numeros sahirão os seguintes prémios ...

Em resumo: 6.000 bilhetes, dos quais 4.000 brancos e 2.000 premiados. A extracção fez-se em 2  de Março do ano seguinte, e o interessante é que os felizes contemplados não tiveram pressa em recolher os trastes, pois ainda em 21 de Abril, outro anúncio comunicava ao público que prosseguia todas as terças-feiras e sábados, no teatro, a entrega dos prémios.

Este processo repetiu-se, como mencionei anteriormente, em Março de 1800. Desta feita, para maior tentação, além dos bilhetes de entrada anual os prémios a sortear eram todos em bom metal sonante. Não iam longe - 2.380$000 réis apenas desde o prémio maior de 800$000 réis aos mais inferiores de 200$000 réis.

Sete mil bilhetes de 1$600 réis (um total de 11.200$000 réis) para 1.010 prémios, e 5.990 bilhetes brancos, que todos se venderam «no Theatro, nas lojas da Gazeta, do Nicola e do Coutinho ao Rossio, no Caffé de Belém e no Caffé novo da Junqueira»

A iluminação eléctrica seria instalada em 1887, depois do edifício ter sido adquirido pelo estado em 1854.

                                                                                            1902

                                

                                                Companhia Lírica do Teatro de S. Carlos, em Janeiro de 1908

 

1924

No ano de 1940, o “Teatro Nacional de S. Carlos” sofreu, durante 8 meses importantes obras de melhoramentos, restauro, consolidação e conservação exterior e interior, mandadas fazer pelo engº Duarte Pacheco, Ministro das Obras Públicas, reabrindo em no dia 1 de Dezembro de 1940 …

                                                        A revista ‘Século Ilustrado’  noticiava assim na véspera

         

Ultimamente o largo fronteiro foi recuperado como espaço de passeio e lazer, incluindo uma esplanada que serve o restaurante concessionado pelo “Teatro Nacional de S. Carlos”. Ocasionalmente, têm sido transmitidas récitas, em directo, para o Largo ("Teatro ao Largo") através de uma tela gigante e de um sistema de som especialmente montados para o efeito. A época de ópera decorre sensivelmente de Novembro a Junho, mas há concertos e bailado noutras alturas do ano. Alguns dos espectáculos organizados pelo “Teatro Nacional de São Carlos” são levados à cena no palco do grande auditório do “Centro Cultural de Belém”.

Hoje em dia o “Teatro Nacional de São Carlos”, oferece, também, no seu interior um restaurante gourmet baseado na Cozinha Portuguesa e Italiana.

                       Anúncio de 23 de Fevereiro de 1933                                                       Temporada de 1957    

         

 

                                                               “Teatro Nacional de São Carlos” actualmente

                                 

 

  

                                

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Hemeroteca Digital

4 comentários:

Luisa Carles disse...

Caríssimo Sr. José Leite,
Meu nome é Maria Luisa Carles e trabalho no TNSCarlos.
Adorei o seu blog e as informações são muito úteis sempre...
Gostaria só de reparar que a data de inauguração do TSC foi em 30 JUNHO e não de JULHO de 1793.
Espero ter sido útil assim como o seu blog é para mim...
Muito obrigada pelo seu belíssimo trabalho de recolha de dados.
Com agradecimento,
Maria Luisa Carles
Centro Histórico TNSCarlos

José Leite disse...

D. Maria Luisa Carles

Eu é que agradeço a sua chamada de atenção. É sempre útil a colaboração dos leitores a bem da precisão.

Já procedi à devida alteração.

Aproveito para lhe agradecer as amáveis palavras em relação a este blog.

Com os meus agradecimentos, os meus cumprimentos

José Leite

Anónimo disse...

Olá, José Leite!

Gostaria de lhe perguntar se na pesquisa que fez encontrou alguma notícia, de algum jornal da época sobre a inauguração do TNSC?

O seu blog até ao momento foi-me extremamente útil no presente trabalho que tento elaborar.

Muito obrigada por expor este saber.

José Leite disse...

Caro(a) Anónimo(a)

Consigo descobrir muita coisa, mas o que me pede de 1793 já não, infelizmente.

Já agora dê uma espreita, de novo, a este artigo, pois acrescentei agora um Programa de 1855.

Bom trabalho

Os meus cumprimentos

José Leite