10 de outubro de 2012

Café Chave d’Ouro

No início do século XX,  era frequente o café ser adulterado,  por isso, o facto de ser moído à vista de todos os clientes atestava a confiança no produto verdadeiramente genuíno  Em 1911, Adriano Telles inaugura uma segunda casa de seu nome "A Brasileira"  na Praça Dom Pedro IV, fazendo concorrência directa ao "Café Martinho"  e ao "Café Suisso", ambos no Largo D. João da Câmara junto à Estação do Rossio.

                     "A Brasileira" do Rossio                           "Café Suisso" e "Café Martinho" no Largo D. João da Câmara

Café A Brasileira do Rossio Café Chave D'Ouro.11

"A Brasileira" é o primeiro café que ficou associado à marca da torrefacção, seguida do "Chave d’Ouro" e de "O Nicola". Os grãos de café eram importados do Brasil e de São Tomé e Príncipe, que era depois torrado em empresas especializadas nesse processo. Mas, mais tarde, e até mesmo hoje em dia, as origens são tão diversificadas como Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Quénia, Costa do Marfim, Camarões, Zaire e
Uganda entre outros.

O "Café Chave d'Ouro" foi fundado em 1916 no local de uma antiga casa de ferragens com o mesmo nome, no Rossio. Ocupava toda a área de um edifício onde funcionavam restaurante, café,  salão de chá, tabacaria, barbearia e bilhares. A entrada principal deste café apresentava, sobre a porta, uma escultura em pedra de lioz, representando um anjo de asas abertas em estilo arte-nova, criado por Fausto Fernandes.

 

No princípio da década de 20 este café era o preferido dos comerciantes da baixa lisboeta e, por esta altura, foram introduzidas as “tardes de musicais”.  O Salão de Chá tinha fama e nele actuou durante anos um conjunto formado por músicos da "Orquestra Ligeira da “Emissora Nacional”, dirigida numa época pelo maestro Tavares Belo. A estação radiofónica transmitia em directo programas de música de dança.

Um dos fundadores foi Joaquim Fonseca Albuquerque que, mais tarde, ao deixar esta sociedade inauguraria em 2 de Outubro de 1929 o "Café Nicola" tambem no Rossio.

Em 1936, depois de passar a “Café Chave D’Ouro, S.A.R.L.”, foi feita uma remodelação profunda nas suas instalações, que sacrificou a fachada que o distinguia e foi construída uma fachada modernista, estilo "Art Déco", assim como o seu interior, da responsabilidade do arquitecto Joaquim Norte Júnior.

Capa dos Estatutos do “Café Chave D’Ouro, S.A.R.L.


gentilmente cedida por Carlos Caria

                          Nova entrada estilo "Art Déco"                                  Inauguração pelo Almirante Gago Coutinho

 

Nos anos 40 e 50 foi local de oposição ao regime vigente do Estado Novo. Em Maio de 1958 alberga o lançamento da candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República, em cuja conferência de imprensa  ao responder à pergunta de um jornalista da France Press: «Qual a sua atitude para com o Sr. Presidente do Conselho se for eleito?» proferiu a célebre resposta: «Obviamente, demito-o!».

                                        General Humberto Delgado discursando no "Café Chave d'Ouro"

                                          

 

 

 

                                                                                          1947

                                    

                                                                                          1952

      

Factura de 1955


gentilmente cedida por Carlos Caria

A primeira reunião de músicos promovida pelo "Hot Club"  no "Café Chave d’Ouro", teve lugar em 1948. Na foto seguinte Luís Vilas-Boas, um dos fundadores, é o segundo a contar da direita.

                              

Este edifício depois de ser ocupado pelo Banco Nacional Ultramarino, é hoje agência da Caixa Geral de Depósitos.

Em 1950 foi fundada a "Vilarinho & Sobrinho", sociedade por quotas, a partir de uma outra empresa, que ainda perdura, a "Vilarinho & Ricardo". No decorrer dos primeiros quarenta anos, a empresa dedicou-se à produção e comercialização de café, que importava essencialmente de África e da América Latina. Para colocar o seu café no mercado, a empresa recuperou a marca "Chave d'Ouro", actualmente com mais de oitenta anos.

A marca de cafés "Chave D'Ouro" foi adquirida em Fevereiro de 1999 pela "Nutrinveste - SGPS S.A." do Grupo Mello, tendo adquirido em Maio do mesmo ano, também, a marca de cafés "Nicola".                       

De referir que na cidade do Porto ainda hoje existe um "Café Chave d'Ouro", na Praça da Batalha, originário do antigo que por sua vez teve a sua origem no "Café Portuense". O "Café Portuense", inaugurado em 1860, na esquina da actual Rua Sampaio Bruno com a actual Rua Sá da Bandeira (então Rua Bonjardim), foi o Café mais elegante e confortável da cidade de então. O seu requinte era tal que tinha as «cadeiras estofadas a veludo carmesim». Tinha paredes espelhadas e candelabros. Possuía até uma sala só para senhoras que aí podiam ir tomar os seus sorvetes. Nele se jogava o dominó, o boston, o voltarete. Era frequentado sobretudo por comerciantes. Em 1891 deu lugar ao "Café Chave d'Ouro". A remodelação foi feita pelo arquitecto Leandro de Morais e pelos decoradores Abílio Rocha e António Baganha.

Outros cafés com a mesma designação existem em Abrantes, Anadia, Braga, Bragança, e Monção.

Fotos in: Lisboa Desaparecida, Garfadas Online, Gago Coutinho, Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian

13 comentários:

aragonez disse...

Na fotografia em que aparece o ALM Gago Coutinho, o meu avô João Abel, um dos fundadores do Chave d' Ouro, é o terceiro a contar da direita.
Já vou nos 70 e tinha 17 quando o edifício foi vendido ao BNU.
Nunca ouvi falar na família que tivesse havido "fechamento" forçado pelo regime então no poder.
Uma novidade a acrescentar.
Muito obrigado.

José Leite disse...

Caro Aragonez

Grato pela informação que adiciona

Quanto ao "fechamento" apenas me limitei a transmitir informação obtida, e que desde já e como sempre, peço desculpa por alguma imprecisão ou erro.

Nada tem a agradecer

Os meus cumprimentos

José Leite

Anónimo disse...

pois é na net encontra-se de tudo , este é um bom blog mas neste texto há uma passagem que eu não "acrescentaria" sem saber(ou dizer) a fonte

José Leite disse...

Caro Anónimo

Apesar de não me ter informado a que frase se referia, eu fácilmente deduzi até porque o sr. Aragonez no comentário anterior a ela se referia.

Já a retirei por via das dúvidas. Quanto á fonte já não me recordo.

Tento ser o mais imparcial e isento possível.

Como já referi num anterior artigo não tenho nada contra o antigo regime, apesar de só ter vivido nele os meus primeiros 16 anos de vida.

Cumprimentos

José Leite

aragonez disse...

Caro José Leite

Só para por os pontos noss "ii", lhe digo que referi nada ter ouvido a respeito, sem com isso querer significar que não pudesse ser verdade.
Mais uma vez, este é um blog que vejo TODOS os dias e achei muito curioso rever o Café e o meu avô.
AMDG.

José Leite disse...

Caro Aragonez

Não tem problema.

Agradeço a sua vista diária que muito me honra assim como a de outros seguidores e visitantes.

Cumprimentos

J. Leite

manuel marques Arroz disse...

Excelente ,é sempre um prazer passar por aqui.

Abraço.

José Leite disse...

Caro Manuel Marques

Grato pelas suas amáveis palavras

Abraço

José Leite

fuzzi disse...

ola, estou a investigar a historia de refugiados austríacos em portugal durante a II guerra mundial. é verdade que um casal chamado joseph e grete friman eram os gerentes do restaurante durante um tempo?
agradeco a sua ajuda, uli jürgens (viena)

José Leite disse...

Caro Uli Jürgens

Lamento, mas não lhe sei responder.

Cumprimentos

José Leite

José Rico disse...

Caro Sr. Aragonez

Por motivos académicos gostaria de ser informado se a origem do seu nome é galega e claro, se os seus ascendentes pertencem à diáspora galega em Lisboa.

Os meus agradecimentos

José Rico disse...


Caro senhor Aragonez

E se quiser acrescentar mais alguns pormenores que ache pertinentes acerca da sua família, muito agradecido lhe ficaria.

Cordiais saudações

José rico

José Leite disse...

Caro José Rico

Não me querendo imiscuir nas suas questões, creio que este senhor não se chama Aragonez, já que uma vez ele me enviou um email e o nome que assinou não tinha esse apelido, mas outro bem português ...

De qualquer modo não quero afirmar peremptoriamente, pelo que ficam publicadas as suas questões.

Os meus cumprimentos

José Leite