4 de março de 2018

Mala Real Portugueza

A parceria "Mala Real Portugueza - Companhia de Navegação a Vapor, S.A.R.L." foi constituída por Sousa Lara e Sousa Leal, em 27 de Junho de 1888, com um capital social de 900.000$000 réis e com sede na Rua do Arsenal, 54-1º em Lisboa. Esta parceria teve origem no contrato celebrado entre o Governo português e a "Empreza Africana de Navegação a Vapor" - constituída em Lisboa, no ano de 1887, pelos mesmos sócios - para o estabelecimento de carreiras de vapores para as colónias portuguesas das costas ocidental e oriental de África, mediante um subsídio anual de 98 contos de réis (98.000$000 réis).

ex-Sede da “Mala Real Portuguesa”, na rua do Arsenal no 1º andar por cima da agência da casa bancária “Borges & Irmão”

ex-Posto de recepção de encomendas da “Mala Real Portuguesa” na Praça do Município, 6 em Lisboa (dentro da elipse)

A empresa encomenda, então, ao estaleiro escocês "Scott & Sons" - fundado em 1851, em Bowling, substituindo o "Scott & Mcgill" - quatro vapores de grandes dimensões de 3.400 toneladas atingindo 14 nós de velocidade máxima, tornando-os nos maiores e mais luxuosos paquetes portugueses, com a particularidade, de poderem ser transformados em cruzadores auxiliares, tendo a estrutura sido reforçada para a montagem de 6 peças de artilharia. A frota destes paquetes ficaria assim constituída:

- "Rei de Portugal", com a sua estreia em Setembro de 1889, e que daria nome à classe composta por mais três paquetes gémeos - “Loanda”, “Moçambique” e “Malange” -  com as seguintes características comuns:
  Comprimento: 110,78 metros
  Boca: 12,86 metros
  Arqueação bruta: 3.460 toneladas
  Máquina: tríplice expansão com 4.000 CFI, com três caldeiras e uma hélice
  Lotação: 220 passageiros assim distribuídos: 75 em 1ª classe; 25 em 2ª classe; 120 em 3ª classe; 91 tripulantes, além de 240 praças e 12 degredados. De referir que era habitual o envio de forças militares e presos degredados para as colónias. A 1ª classe situava-se a meia-nau, a 2ª classe na popa e a 3ª classe à proa.

“Loanda” (1889-1894)

A frota ainda incluía três vapores destinados à cabotagem na costa de Moçambique, ficando, assim, composta a sua frota:
- "Tungue", entregue pelos estaleiros "Scott & Sons" em 2 de Maio de 1889, fabricado em aço, equipado com uma máquina de tríplice expansão com 1.400 CFI atingindo 13 nós de velocidade máxima.
- "Ibo", transferido da "Empresa Africana de Navegação a Motor".
- "Rovuma", ex-"Plymouth" construído em 1887 de 252 toneladas e comprado em Agosto de 1889.

“Ibo” (1889-1897)

“Tungue” (1889-1902)

Apesar dos quatro navios da classe “Rei de Portugal” serem muito bons, a todos os níveis, não se teve em conta o fraco desenvolvimento de África, com Moçambique ainda a dar os primeiros passos nos seu desenvolvimento, não tendo, por isso, praticamente comércio com Lisboa.  Isto era, ainda, agravado com o facto dos interesses ingleses, franceses e alemães, instalados nesta colónia portuguesa, que davam preferência às suas companhias de navegação, deixando os navios da “Mala Real Portuguesa”, sem carga para transportar, além de que a sua manutenção era dispendiosa. A juntar a isso, o facto da “Empreza Nacional de Navegação” já estar implantada na África Ocidental, não deixando espaço para o transporte de mercadorias entre Angola e Lisboa, pela “Mala Real Portugueza”.

Dois anúncios em 15 de Julho de 1890

             

9 de Outubro de 1890

Oficiais do paquete “Moçambique”, em Maio de 1892


Pelo que, e quanto ao contrato que referi no início, o "Jornal do Porto" de 6 de Agosto de 1892 comentava:
«Em 1887 a Mala Real Portugueza entrou no concurso para o transporte de passageiros do Estado, seguindo a linha do Cabo; foi-lhe esse serviço adjudicado com u subsidio de 98 contos por anno, afastando assim a Castle Mail, que era a companhia que até então fizera esse transporte. No entanto a nova empreza contava, apezar da exiguidade do subsidio, poder vencer todas as difficuldades, se, como era intenção do ministro, fosse decretado o serviço de cabotagem para a costa oriental nas condições em que se faz na contra-costa. Não sucedeu assim; e, por consequência, o cumprimento do contracto tornou-se absolutamente impossível.»

“Malange” (1890-1902)

 

Perante a iminência da falência da empresa, uma comissão constituída em 4 de Junho de 1890, aconselhou que a carreira para Moçambique, passasse a ser efectuada através do Canal do Suez, mediante um aumento substancial do subsídio anual concedido à “Mala Real Portuguesa”. O novo contrato seria assinado em 12 de Janeiro de 1891, passando a empresa a utilizar o Canal do Suez, nas suas viagens mensais a Moçambique e passando a receber um subsídio anula de 378 contos de réis (378.000$000 réis). Neste contrato a “Mala Real Portuguesa” ainda era obrigada a fazer a ligação de Moçambique com Angola e assegurara a cabotagem na costa de Moçambique.

14 de Julho de 1891

31 de Maio de 1892

Quanto a este novo contrato o mesmo “Jornal do Porto” referia:
« … Carreira mensal entre Lisboa e Mossamedes, com escalas tanto na ida como na volta, por S. Vicente ou S. Thiago, S. Tomé e Loanda. Carreira mensal ligando com a precedente, entre Mossamedes e Tungue, com escala, tanto na ida como na volta, por Lourenço Marques, Inhambane, Quelimane, Moçambique e Ibo, devendo esse serviço prolongar-se até Zanzibar. Carreira supplementar mensal entre os portos de Chiloane, Sofala, Pungue e Inhmissengo ou Chinde, ligando com a segunda carreira no porto que fôsse mais conveniente.
O governo concedia á empreza o subsidio de 378 contos correspondente a doze viagens redondas; o exclusivo do transorte de passagens e carga do estado entre Lisboa e os portos da costa oriental, salvo quando o governo empregasse n'esse serviço navios do estado.»

Vista parcial do convés do paquete “Rei de Portugal”

Apesar do generoso subsídio estatal a “Mala Real Portugueza” não conseguiu manter a sua actividade, e o contrato foi rescindido com o Estado em 14 de Abril de 1892, tendo a companhia sido multada em 372 contos de réis. Em 25 de Agosto de 1892 era decretada a sua falência que apresentava um passivo de 3.200 contos de réis, uma fortuna para a época.

A respeito da sua falência a revista “Occidente” de 1 de Setembro de 1892 escrevia:

«Com respeito à Mala Real Portugueza a resolução do governo, baseada no parecer da procuradoria geral da corôa, foi desfavoravel a esta empresa, não permittindo a alteração das viagens serem feitas pelo Cabo em vez de ser pelo Canal do Suez, de lhe conceder o adiamento que pedia para pagar os emprestimos que o Estado lhe fez.
D’este modo a Mala Real Portugueza requereu fallencia e foi-lhe nomeada uma administração. Este acto do governo pouco em harmonia com a brandura dos costumes, fez grande sensação e terá sido o assumpto de todas as conversações assim como dos artigos de fundo de alguns jornaes, em que se tem distinguido o Diario Popular pelos desconchavos com que tem pretendido deffender a Mala Real Portugueza e atacar o sr. ministro da marinha.
Cremos bem que todos lamentam a sorte da Mala Real Portugueza principiando pelo governo que não pôde deferir às suas pretensões, mas da falta do costume nascem os espantos, é um dito muito velho, o governo procedeu correctamente, em vista do concurso que precedeu o contracto que a mesma empreza fez com o governo, que pede espera aos seus credores, não serem de molde a elle fazer concessões aos seus devedores.»

Depois de vendidos em leilão quatro dos seus navios - “Rovuma”, “Loanda”, “Ibo” e “Tungue” -  a sua frota ficou reduzida aos paquetes “Rei de Portugal”, “Moçambique” e “Malange”. A “Mala Real Portugueza” foi reorganizada em 1898, passando a fazer viagens exclusivamente para o Brasil. Por este facto o paquete “Moçambique” mudaria de nome para “Álvares Cabral”, em 25 de Novembro de 1898.

22 de Abril de 1899

                                    Fevereiro de 1900                                                                    14 de Julho de 1900

  

A linha do Brasil não deu os resultados esperados, e a “Mala Real Portugueza - Companhia de Navegação a Vapor, S.A.R.L.” seria liquidada em 1902 e os seus navios vendidos. O “Malange” comprado pela “Empreza Nacional de Navegação”, e os “Rei de Portugal” e “Álvares Cabral” vendidos à italiana “Prince Line Ltd.” para transporte de emigrantes entre o Mediterrâneo e Nova Iorque, depois de rebatizados de “Napolitan Prince” (ex-“Rei de Portugal”) e “Sicilian Prince“ (ex-“Alvares Cabral”).

“Manouba”, da “Compagnie de Navigation Miste (Cie. Touache)”, de Alger. Ex- “Napolian Prince”, ex- “Rei de Portugal”

Na foto seguinte, e já em estado de abandono, as antigas instalações da sede e escritórios na Rua do Arsenal, 54 -1º entre o “Hotel Portuense” e a agência da casa bancária “Borges & Irmão”, no início da primeira década do século XX.

Bibliografia: Livro «Paquetes Portugueses», de Luís Miguel Correia - Edições Inapa - Lisboa - 1992

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Blog dos Navios e do Mar, Livro “Paquetes Portugueses”,  Arquivo Científico Tropical

Sem comentários: