24 de janeiro de 2016

Fábrica e Cervejaria “Jansen”

Na génese da “Fábrica de Cerveja de Baviera de J. H. Jansen & C.ª.”, em 1855, esteve uma fábrica de cerveja instalada na Rua do Thesouro Velho, propriedade da firma “Michael Gerards e C.ª”. Essa fábrica funcionou nesse local até 1860, altura em que foi transferida para o “Páteo do Duque de Bragança” na Rua do Alecrim e com entrada pela Rua do Thesouro Velho (actual Rua António Maria Cardoso a partir de 6 de Fevereiro de 1890). A nova fábrica viria a ser alugada a John Henry Jansen, cidadão dinamarquês e sócio de Michael Gerards, passando a denominar-se “Companhia da Fábrica de Cerveja Jansen, Lda.”.

Exteriores da fábrica e carro de entregas, na Rua do Alecrim

 

Localização da fábrica no “Páteo do Duque de Bragança”

30 de Dezembro de 1891

Duas perspectivas do “Páteo do Duque de Bragança” com a entrada pela Rua do Alecrim

 

Publicidade e garrafa de “Cerveja Popular”

    

Seguindo os passos de outra fábrica de cervejas, a “Fábrica da Cerveja Trindade”, - fundada por Manuel Moreira Garcia em 1834, encerrada e desmantelada em 1934 - a “Jansen” abriu uma cervejaria em 1870, a “Cervejaria Jansen”, espaço que rapidamente se tornou num dos locais predilectos dos lisboetas. A cervejaria tinha uma decoração cuidada, tendo as pinturas do tecto ficado a cargo de António Ramalho.

O famoso “Reporter X” no artigo “As Historias do Santa Rita” publicado numa revista “Illustração Portugueza” de 1929, descrevia: «O Jansen não se aperaltava ainda com os modernos criados encasacados. Era então um típico refúgio da mocidade do Chiado em harmonia com as tradições elegantes e literárias do século passado. Corria uma frescura consoladora sob as abóbadas da vasta sala de soalho axadrezado. Dava, simultâneamente, a impressão de uma dependência conventual, duma cervejaria de Munich e de um rendez-vous de 'vencidos da vida'. O Eça, o Ramalho, o Junqueiro deviam tê-lo frequentado na sua época ...
O único creado, um velho pançudo de aspecto germânico, bonacheirão, bigodeira branca e olhos agarotados, servia-nos de casaco e avental branco. Chiavam na cozinha os bifes afamados, especialidade da casa. As canecas emplumadas de espuma batiam nos mármores das mesas, orquestrando com écos prolongados das palestras ...»

Para fazer uma ideia da esplanada da “Cervejaria Jansen” fotos da mesma, já propriedade do “Retiro da Severa” em 1935

 

 

Foi na “Cervejaria Jansen” que tiveram lugar, no Outono de 1914, as reuniões do grupo “Orpheu”, a revista (publicada em 1915) que configurou o nascimento do modernismo literário português. Pelo ano de 1929, a cervejaria, com entrada pela Rua António Maria Cardoso, mantinha um pequeno anúncio na revista ABC, onde informava os leitores: «Entrada livre; todas as noites magníficos concertos e magnífica cerveja; serviço de restaurant». A “Cervejaria Jansen” ainda dispôs de duas filiais, na Rua de São Julião, 170, e na Rua da Alfândega, 136, desde meados da década de 1880.

A juntar à cervejaria e respectiva esplanada, juntar-se-ia o “Salão Jansen”, inaugurado em 31 de Dezembro de 1927. 

                                 31 de Dezembro de 1927                                                       2 de Janeiro de 1928

  

Publicidade á inauguração das matinés de Fado, 2 de Fevereiro de 1930

  

Para os interessados em culinária, ou que queiram tentar fazer o famoso bife “à Jansen”, referido no folheto anterior, aqui fica a receita por Alfredo de Moraes: «Geralmente era feito com vazia ou pojadouro de vaca. Frigiam-no em sertã de ferro, das negras, que era previamente aquecida, com banha e toucinho picado. O bife era cortado alto e temperado com sal e um dente de alho esmagado. Deixavam-no mal passado. Guarneciam o bife com batatas de tamanho médio, cortadas em gomos e salteadas; estas batatas tinham sido cozidas, 4 ou 5 horas antes, com a pele, em água temperada com sal. A antecedência do cozimento tinha por fim permitir que as batatas pudessem esfriar, secar e enrijar antes de serem salteadas. Depois despelavam-nas e, no momento preciso, passavam-nas na gordura do bife. No final da preparação, adicionavam ao bife um pouco de manteiga fresca, para lhe aumentar o molho. Serviam-no num prato de louça, bem aquecido, com as batatas salteadas dispostas à volta, e coberto pelo molho».

1932

Entretanto, em 21 de Junho de 1934, é criada a Sociedade Central de Cervejas, S.A.R.L. - onde se impõem os interesses da família Vinhas, detentora da C.ª Productora de Malte e Cerveja Portugalia - cujo primeiro Conselho de Administração seria eleito em Julho do mesmo ano, com a seguinte composição: António Marques de Freitas (“Portugalia”), Camilo Infante de La Cerda (“C.ª da Fábrica de Cerveja Jansen, Lda.”), Cândido Sotto Mayor (“Cª. de Cervejas de Coimbra”), Estolano Dias Ribeiro, José Maria Dias Ferrão e M. H. de Carvalho, Lda (“Cª. de Cervejas Estrela”). O capital inicial perfilhava os 100 000 escudos, divido do seguinte modo: Portugalia e Estrela com 40,9%, Jansen com 10,2% e Coimbra com 8%.

Terá sido aqui na esplanada da “Cervejaria Jansen” que foram rodadas as cenas do “Retiro do Alexandrino” no filme “A Canção de Lisboa” realizado por Cottinelli Telmo (1897-1948) e estreado a 7 de Novembro de 1933, assunto que foi abordado no artigo, neste blog, intitulado Fábrica e Cervejaria Portugalia de 18 de Dezembro de 2015.

Em Maio de 1936 a “Companhia da Fábrica de Cerveja Jansen” é encerrada, e a Cevejaria, Salão e respectiva Esplanada dão lugar ao Retiro da Severa  em 26 de Outubro de 1936, vindo da “Parque Mayer”, onde se tinha instalado pela mão de Jorge Soriano em 1933. O Retiro da Severa encerraria definitivamente em 1 de Setembro de 1940. Para ler acerca da sua história consultar, neste blog, o seguinte link: Retiro da Severa”.

1935

Para a história ficam as memórias e dois pormenores essenciais: a marca “Jansen” e o bife “à Jansen”. Sobre a primeira não há muito a dizer. Em 1993 a “Sociedade Central de Cervejas” aproveita uma marca que estava esquecida no seu portefólio e lança a cerveja “Jansen” sem álcool. Já em 2003 surge a “Jansen Preta”, a primeira cerveja sem álcool de puro malte comercializada no mercado português. Apesar do forte investimento, já não há referências à “Jansen” no site oficial da “Centralcer”.

Bibliografia:

•  Blog “Cervejas do Mundo
Mestrado em Design de Cátia Milene Azevedo Esteves: "Rótulos Portugueses de 1930 a 1980" (2012) - ESAD - Arte e Design

fotos in: Hemeroteca Digital, Arquivo Municipal de Lisboa, Museu do Fado, Fadocravo

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