18 de novembro de 2015

Praça do Campo de Sant’Anna

A “Praça do Campo de Sant’Anna” , mandada construir pelo Rei D. Miguel (1802-1866), foi inaugurada no Campo de Santana, em Lisboa, em 3 de Julho de 1831. Projectada pelo arquitecto camarário, Malaquias Ferreira Leal (1787/90-1859),  era construída quase toda de madeira e tinha capacidade para 6.000 espectadores.

Como atrás referido, a decisão da sua construção partiu do Rei, e a propósito o Conde de Sabugosa, no seu livro "Embrechados", escreveu: “Um dia que o infante D. Miguel, então aclamado rei, determinou dar uma tourada em benefício duma obra de caridade, soube que o empresário da velha praça do Salitre, (José Serrate), levantava dificuldades e regateava pelo preço do aluguer. D. Miguel mandou então chamar o seu amigo Sedvem, famoso cavaleiro, encarregou-o de dirigir a obra de construção imediata de uma nova praça, sem olhar a despesas, e fez publicar um decreto que dava à Real Casa Pia de Lisboa o privilégio da receita daquela e de outras praças nalgumas léguas em redor. Ficou o D. José Serrate a chuchar no dedo e o público contente com o circo novo e com a pirraça feita ao onzeneiro director”.

A “Praça do Campo de Sant’Anna”  á direita ao fundo na foto

Planta topográfica

Apesar desta versão sobre a origem da velha praça, os factos parecem ter sido diferentes. Em primeiro lugar, o privilégio da Casa Pia de que fala o Conde de Sabugosa, foi atribuído àquela instituição logo no ano de 1821, por decreto de D. João VI. O que D. Miguel fez, segundo a edição de 8 de Setembro de 1830 da "Gazeta de Lisboa", foi confirmar este direito, a requerimento do administrador, António Joaquim dos Santos. Afirmando  D. Miguel:
«Hei por bem confirmar a mercê de que goza a mesma Casa Pia, e que lhe foi conferida por el-rei meu senhor e pai, que Santa Glória haja, de serem somente em seu benefício permitidas as corridas de touros na cidade de Lisboa.»

O rei D. Miguel, licencia portanto a construção da praça, de acordo com planta anexa ao decreto, correndo os custos do empreendimento por conta da “Real Casa Pia de Lisboa”. Ainda por alguns anos se fizeram corridas na “Praça do Salitre”, embora poucas, isto até as obras da construção da nova do Campo de Sant'Ana - no local onde actualmente se encontra a Faculdade de Medicina - ficarem concluídas, o que levou algum tempo ainda. Razão pela qual se efctuariam por alguns anos espetáculos nos dois recintos.

Anúncio de 1838, com a foto do “moço de forcado” João de Azevedo Fragoso, dos Forcados de Riachos

Dois tipos de bilhete

 

                                            1860                                                                                      1873

 

1880

          1882

   

A “Praça de Touros do Campo de Sant’Anna” seria inaugurada em 3 de Julho de 1831, na presença do rei D. Miguel e da infanta D. Maria da Assunção, sua irmã, e segundo o olissipógrafo Norberto de Araújo, no seu livro “Peregrinações em Lisboa” …
«No sitio onde assenta a Escola existiu a Praça de Touros do Campo de Sant'Anna, de tradições na vida alfacinha, com a sua aura fidalga e popular a um tempo. Foi aquela Praça inaugurada em 3 de Julho de 1831, tempos do Senhor D. Miguel, que assistiu à 'festa', sendo corridos dezasseis touros das manadas reais; à noite, com motivo no acontecimento tauromáquico, houve 'luminarias' e 'fogo de vistas'. A Praça do Campo de Sant'Anna era pequena e quase tôda de madeira, sem o tipo classico dos redondéis hispano-arabes, uma arena muito para 'brinco de touros', mas que fêz as delícias dos nossos avós.
Até 1915 uma 'maquetta' desta Praça encontrava-se no Club Thauromachico, ao Chiado; foi por essa época destruída num assalto plitico àquele Club, e dela resta, apenas, a memoria numa fotografia feita um pouco antes pelo Sr. J.A.Barcia. A praça do Campo de Sant'Anna, que sucedera à do Salitre, esta inaugurada em 4 de Junho de 1790, foi demolida em 1891, para dar lugar à do Campo Pequeno, inaugurada em 18 de Agôsto de 1892.»

 

 

Publicidade em 1915 e Manoel Casimiro cavaleiro e proprietário do “Grande Hotel de Portugal” referido no postal

               1910 (JUlho) Manuel Casimiro

A “Praça de Touros de Sant’Ana” manteve-se em actividade até 1891, vindo a ser demolida nesse ano. Tal decisão foi tomada pelo facto das suas más condições de segurança, que faziam temer um desastre semelhante ao ocorrido no “Theatro Baquet”, no Porto, que devido a um violento incêndio, em 20 de Março de 1888, viria a provocar 120 mortos.

Foi com tristeza que os lisboetas viram desaparecer a “Praça do Campo de Sant’Anna”.
"Na poeira que levantavam ao desmoronarem-se os muros pintados a vermelho, as tábuas azuis e brancas, as trincheiras e os palanques, iam os últimos ecos de muitas tardes alegres, do estalar festivo dos foguetes, dos trombones desafinados da fanfarra da Casa Pia, mugidos dos bois, pregões do homem dos pastelinhos e água fresca, assobios estrídulos da multidão, piadas do sol gritadas por vozes avinhadas e roucas troçando do lavrador, do inteligente, lançando trocadilhos petulantes, que faziam rir cinco mil bocas numa gargalhada." Citação do Conde de Sabugosa, no seu livro "Embrechados".

Esta tristeza duraria pouco já que a 18 de Agosto de 1892, seria inaugurada aPraça de Touros do Campo Pequeno”, projectada por António José Dias da Silva (1848-1912).

Acerca da história da “Praça de Touros do Campo Pequeno”, consultar neste blog, o seguinte link: Praça de Touros do Campo Pequeno”,

Bibliografia: Foi também consultado o blog “Histórias com História”, de onde foram retiradas algumas passagens.

fotos in: Hemeroteca Digital, Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital

6 comentários:

Bic Laranja disse...

A photographia que antecede a planta é preciosa: dá-nos a fachada semi-arruinada do collegio dos Jesuitas (Hospital de São Joseph), o muro da cêrca fernandina pela encosta de Sant'Anna acima é uma panoramica formidavel onde falta a cadea penitenciaria. Anterior a 1874, portanto.
:)
Cumpts.

(Texto merecer revisão.)

José Leite disse...

Caro "Bic"

Grato pelas informações adicionais.

Quanto ao resto, entre parentesis, entendi o "recado" ...

Cumprimentos

José Leite

Anónimo disse...

Sr. José Leite

Este seu Blogue é uma delícia para os olhos e uma fonte de sabedoria sem par.
Muito admiro o seu trabalho que não me canso de visitar e pelo qual muito grato lhe fico.

Desta vez achei espantoso como é que foi possível (EM PORTUGAL) fotografar e reproduzir com tanta qualidade o moço de forcado João de Azevedo Fragoso em 14 de Julho de 1838 quando a Maquina fotográfica ainda estava nos seus primórdios (EM FRANÇA), pois a 1ª fotografia por Niepce foi tirada em 1827 e o primeiro Daguerreótipo foi feito em 1839). (Págs. 207/208).
Mais espantoso ainda é saber que a invenção da Galvanotipia ocorreu precisamente em 1838/1839 e "a Fotolitografia que permite a transferência da imagem para a pedra ou o zinco com o auxílio da fotografia" só apareceu em 1853. (Pág.189/190).

As datas e o texto entre aspas, foram retiradas do livro: História dos Grandes Inventos (Selecções do Reader`s Digest, Lisboa, 1983) que constam nas páginas assinaladas.

Também, no seu texto, informa que a Praça de Touros do Campo de Sant'Anna foi demolida em 1891; mas na Publicidade que nos apresenta, datada de 1915, podemos ler que a praça foi "inaugurada em 1830 e demolida em 1888"!

Com os meus cumprimentos
Manuel Alves

José Leite disse...

Caro Manuel Alves

Antes de mais grato pelas suas amáveis palavras e comentário.

Quanto à data de inauguração e demolição elas estão em princípio correctas.

Quanto aos anos indicados no postal publicitário para mim não são muito de fiar mas sim anos muito aproximados.

Se soubesse o que "sofro" para ter a informação correcta de datas, já que até em publicações e organismos oficiais por vezes estão incorrectas ...

Os meus cumprimentos

José Leite

Helder Milheiro disse...

Boa noite, como tem a confirmação de que o homem retratado no cartel da praça de Sant'Anna é um forcado e o seu nome? Pela indumentária e pampilho, tudo sugere ser um campino!?

Onde encontrou a foto da praça do campo de santana antes da planta?

Muito Obrigado
Helder

José Leite disse...

Caro Helder Milheiro

A identificação do homem retratado foi-me dada pela consulta a um blog que assim legendava o folheto. Não me recordo do blog. Se me tivesse perguntado na altura decerto me lembraria. Como não entendo nada de touradas, nem quero entender, e não me costumo deitar a adivinhar o que não sei, se a legenda está errada ... lamento.

Quanto à outra foto, foi baixada a partir do Arquivo Municipal de Lisboa.

Os meus cumprimentos