11 de novembro de 2015

Estaleiros Navais de Viana do Castelo

Os “Estaleiros Navais de Viana do Castelo, Lda.”, localizados em Viana do Castelo, na freguesia de Monserrate, foram criados por escritura pública de 3 de Junho de 1944, no âmbito do programa do Governo do Doutor Oliveira Salazar, para a modernização da frota de pesca do largo, na forma de uma sociedade por cotas de responsabilidade limitada com o capital social de 750 contos. A sociedade foi constituída  por um grupo de técnicos e operários especializados oriundos dos “Estaleiros Navais de Lisboa”, encabeçados por Américo Rodrigues, seu mestre geral. Juntar-se-lhes-iam, como sócios capitalistas Vasco D'Orey e o vianense João Alves Cerqueira da “Empresa de Pesca de Viana” proprietária de lugres para a pesca do bacalhau.

Os ENVC em foto aérea de 1958

Grupo fundador dos “Estaleiros Navais de Viana do Castelo, Lda.”

Da esquerda para a direita: Américo Rodrigues, Laires Amaral, Francisco Luzes, Carlos Machado, Artur Bettencourt, Carlos Peres, António Rodrigues, José Luís e José Sequeira.

No início da sua actividade ocupavam uma área de 35.000 m2 concessionada pela “Junta Autónoma dos Portos do Norte” onde foram construídas duas docas secas com 151x18,5 m e 127x18,5 m respectivamente e as demais infraestruturas necessárias ao desenvolvimento da actividade de construção e reparação naval. Todas as demais infraestruturas dos Estaleiros foram realizadas a partir deste núcleo central cujo prazo de concessão foi, em Julho de 1948, aumentado por 35 anos.

                             Construção do casco                                                              Motor para navio

 

                                 Traçagem de navios                                                      Corte e enformação de materiais

 

                                    Moldagem do aço                                                                   Electricidade naval

                        

                                   Tornearia mecânica                                                         Serralharia e canalizações

 

Navio “Gil Eannes” na doca seca nos preparativos para o  seu lançamento à água, em 20 de Março de 1955 

Os três primeiros navios construídos e concluídos em 1947, pelos ENVC, foram arrastões para a pesca do bacalhau. Eram eles o "Senhor dos Mareantes" e o "Senhora das Candeias" para a “Empresa de Pesca de Viana” e o "São Gonçalinho" para a “Empresa de Pesca de Aveiro”, todos eles de 1.480 tdw, tendo sido entregues com pompa e circunstância em 10 de Julho de 1948.

Cerimónia do baptismo, em 10 de Julho de 1947, dos primeiros três navios construídos nos ENVC

 

Por escritura pública de 30 de Maio de 1949, a sociedade por quotas “Estaleiros Navais de Viana do Castelo, Lda.” foi transformada em Sociedade Anónima de Responsabilidade Limitada, tendo aumentado o seu capital social para 37.250 contos e passando  a designar-se por “Estaleiros Navais de Viana do Castelo, S.A.R.L.”

Em 1950, os estaleiros navaisH. Parry & Son, Lda.”, criados em 15 de Julho de 1899 no Ginjal, Cacilhas, tornou-se a principal accionista dos ENVC passando Jacques de Lacerda a exercer as funções de Administrador-Delegado. Posteriormente, em 1957, juntava-se às instalações existentes, também em regime de concessão, a “Doca Engenheiro Duarte Pacheco”, construída na área da doca comercial.

1951

                                             1964                                                                                      1966

    

Em 1971, o Grupo CUF, dono da “Lisnave- Estaleiros Navais de Lisboa, SARL”, assumiu uma posição maioritária no capital dos “Estaleiros Navais de Viana do Castelo, S.A.R.L.” e foi elaborado um Plano Director de Desenvolvimento a ser cumprido em duas fases, das quais, a primeira, foi praticamente realizada. No entanto, a situação de crise internacional que surgiu e logo se foi acentuando a nível nacional com o 25 de Abril de 1974, impediu que a segunda fase deste plano fosse levada para diante. Diga-se, aliás, que era muito ambiciosa e introduzia a Empresa no mercado das 80 a 100.000 toneladas.

Em 1 de Setembro de 1975 os “Estaleiros Navais de Viana do Castelo, S.A.R.L.” foram nacionalizados, passando a Empresa Pública (EP) e o seu capital social aumentado para 330.000 contos. Em 1987, o seu capital estatutário seriai fixado em 3.000.000 contos.

Visita em 1980 do general Vasco Gonçalves aos ENVC . Nesta foto na secção de projectos e desenhos

 

                                                 

Em Dezembro de 1988 o prazo de concessão dos terrenos incluídos no domínio público marítimo foi alargado por mais 50 anos até Abril de 2031 e sua área acrescentada em mais 220.000 m2 e em 1991 os ENVC são transformados em Sociedade Anónima de Capitais Maioritáriamente Públicos.

No decurso dos seus 50 anos de actividade, desenvolveu-se uma evolução natural a nível dos mercados-alvo da Empresa, distinguindo-se claramente 3 etapas:

De 1944 a 1974 cerca de 90% do total de unidades construídas destinaram-se a armadores nacionais (incluindo as ex-colónias), sendo cerca de 50% destinadas ao reforço e substituição da frota pesqueira; na 2ª metade da década de 70 e nos anos 80 do século XX, o principal mercado dos “Estaleiros Navais de Viana do Castelo, S.A.” foi a ex-URSS, para o qual foram produzidas algumas grandes séries; no anos 90 do século XX, os ENVC passaram a construir basicamente para o mercado Alemão; a partir d o ano 2000 o mercado tem sido mais diversificado, estando incluída na sua actual carteira de encomendas a renovação da frota da Marinha Portuguesa o que permitiu o regresso à construção naval que não acontecia desde a década de 60 do século XX.

           Entrega do “Funchalense” em Abril de 1953                                  Entrega do “Lousado” em 1954

 

            Entrega do “Gil Eannes” em 19 de Março de 1955                               Entrega do S. Gabriel em 1956

 

Entrega do “João Álvares Fagundes”, em 1973

De entre mais de 200 navios construídos, estão navios de pesca, batelões, rebocadores, ferryboats, luxuosos cruzeiros, navios de transporte de carga a granel e contentores, navios de transporte de cimento, navios tanques, LPG, navios de transporte de produtos químicos complexos e navios militares. A laboração nos estaleiros foi então sempre diversificada, oscilando periodicamente entre a construção militar e civil, assegurando sempre a reparação naval.

Os “Estaleiros Navais de Viana do Castelo, S.A.”, em 1980

Medalha comemorativa do 40º aniversário dos “Estaleiros Navais de Viana do Castelo, S.A.”

O primeiro e último exemplares da publicação do Grupo Desportivo e Cultural dos TENVC, a revista “Roda do Leme”

 
Exemplares gentilmente cedidos por Sousa de Castro

Em 1995 verificou-se uma tentativa de privatização. Em 2009 concretiza-se a parceria estratégica com o grupo internacional holandês “Damen Shipyards Group”, anunciada pelo Governo como um primeiro passo na reestruturação da empresa. Especializado em construções militares (com uma rede de trinta estaleiros espalhados pelo mundo) um dos atractivos que o grupo holandês encontrou no envolvimento com a empresa foi a construção do Navio Polivalente Logístico (LPD), nos ENVC, mas já com a supervisão e envolvimento directo do referido grupo. Este navio é tido como o mais importante para as Forças Armadas.

Em 2010 os ENVC encontram-se no pacote de privatizações incluído no Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC), a par de outras empresas associadas a sectores públicos estratégicos e fundamentais como os CTT ou a EDP, tratando-se de um conjunto de medidas propostas pelo Governo da altura com vista a dar resposta à crise económica, o combate ao défice e o cumprimento das orientações rígidas da União Europeia.

Em Novembro de 2013, foi anunciado que o grupo “Martifer” iria assumir a subconcessão dos terrenos e infraestruturas dos “Estaleiros Navais de Viana do Castelo, S.A.”, pela qual pagaria anualmente 415 mil euros, prevendo criar 400 postos de trabalho durante três anos.

No âmbito do concurso público internacional lançado em Agosto de 2014 foi adjudicada" à “Martifer Energy Systems” e à “Navalria Drydocks”  de Aveiro, subsidiárias do grupo “Martifer”, a subconcessão da utilização privativa do domínio público e das áreas afectas à concessão atribuída aos “Estaleiros Navais de Viana do Castelo, S.A.”.

Actualmente, os primitivos ENVC funcionam sob a nova denominação de “WestSea - Viana Shipyard” empresa fundada pela “Martifer” em 2013, sendo a actual subconcessionária dos terrenos e infraestruturas dos antigos “Estaleiros Navais de Viana do Castelo, S.A.” - ENVC.

 

O estaleiro é uma das infraestruturas mais importantes de toda a europa ocidental, com capacidade para navios de médias e grandes dimensões. Está equipado com oficinas e meios de elevação para a construção de módulos e equipamentos metálicos de grandes dimensões.

Com uma área total de 250.000 m2, o estaleiro tem instalações para levar a cabo a construção, reconversão e reparação de qualquer tipo de embarcação até 37.000 toneladas, 190 metros de comprimento e 29 metros de boca, bem como embarcações de pequena e média dimensão.

“WestSea - Viana Shipyard”


fotos in: Lugar do Real, Olhar Viana do Castelo, Blogue dos Navios e do Mar, WestSea - Viana Shipyard

10 comentários:

João Menéres disse...

Importante postagem.
Muito bem documentada e ilustrada.

Parabéns e obrigado.

José Leite disse...

Caro João Menéres

Eu é que agradeço a gentileza do seu comentário.

Os meus cumprimentos

José Leite

Bic Laranja disse...

Instrutivo e oportuno.
Obrigado!
(Merece a pena emendar um «gingal» e um «atual».)

José Leite disse...

Caro "Bic"

Eu é que agradeço o seu comentário e reparo.

Já procedi às devidas correcções.

Cumprimentos

José Leite

João Celorico disse...

Caro José Leite,

Apenas para que conste, o “João Álvares Fagundes”, entregue em 1973, é o segundo navio desse nome. O primeiro, sob encomenda da SNAB - Sociedade Nacional de Armadores do Bacalhau, entregue em 1945, foi a construção nº 117 do Estaleiro Naval da CUF.
Participou nas campanhas da pesca do bacalhau até ao dia 18 de Março de 1965, dia em que, vítima de violento abalroamento, em menos de 15 minutos se afundou nas costas do Labrador.

Cumprimentos,

João Celorico

José Leite disse...

Caro João Celorico,

Grato pela informação adicional.

Cumprimentos

José Leite

Antonio Amorim disse...

Obrigado por esta importante informação, chamo a atenção para o correcto e excelente português de Camões

José Leite disse...

Caro António Amorim

Eu é que agradeço a amabilidade do seu comentário

Cumprimentos

Anónimo disse...

Caro José Leite

Mão amiga fez-me saber da existência desta informação que constitui uma grata surpresa.

Bem haja pelo fantástico trabalho aqui bem explicado e retratado.

Cumprimentos
Rui Sabino

José Leite disse...

Caro Rui Sabino

Eu é que agradeço a a amabilidade do seu comentário.

Cumprimentos