22 de abril de 2015

Restaurante “Monaco”

O restaurante “Monaco”, localizado na Estrada Marginal, em Caxias, foi inaugurado em 28 de Julho de 1956, fruto da ideia do empresário galego Manuel Outerelo Costa e do maestro Shegundo Galarza, que copiaram o conceito de restaurante dançante muito em voga nos Estados Unidos e América Latina. O maestro manter-se-ia na gerência do “Monaco” durante 18 anos, acumulando com actuações do seu conjunto.

Restaurante “Monaco” em 1961

 

De referir que o restaurante “Monaco” foi inaugurado no mesmo ano em que o príncipe Ranier III do principado do Mónaco e a actriz Grace Kelly, casaram a 19 de Abril de 1956.

Antes do restaurante “Monaco” o espaço por ele ocupado já tinha albergado desde 30 de Dezembro de 1945, o restaurante “Vela Azul”, também da iniciativa de Manuel Outerelo Costa, que além de funcionar como restaurante e casa de chá, tinha também «quartos confortáveis com casa de banho e águas correntes quentes e frias», recomendado para passar férias com «comodidade, conforto e um bonito panorama» ou apenas para tomar qualquer refeição e «gozar ao mesmo tempo um lindo panorama».

O “Monaco” foi espaço de elite, boîte da moda, sala de chá, até esmorecer no início deste século, sem nunca conseguir recuperar o glamour dos anos de ouro. Nos anos 1960, no apogeu da sua vida social, os príncipes do Mónaco, Ranier  e Grace Kelly, acompanhados dos filhos Alberto e Carolina, chegaram a visitar o local, tal como um presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek que marcou presença num jantar dançante.

1963

«O ambiente era naturalmente selecionado, porque naquele tempo as boîtes eram frequentadas por quem não fazia nada ou vivia dos rendimentos», conta o fadista João Braga , que entrou no Mónaco pela primeira vez aos 15 anos, com amigos mais velhos. «Era um espaço independente, sem vizinhos, tinha glamour e encontravam-se lá pessoas de todas as idades. E a música era muito boa». José Cid ia ao “Monaco” só para apreciar o ali que se tocava. «Foi o primeiro local onde actuei ao vivo, com o maestro Shegundo Galarza. Além dele, tinha um guitarrista muito bom e eu, com apenas 13 anos, ia com um primito mais velho só para o ouvir». Nesses primeiros anos, Cid entrava tarde, já depois do jantar, pois a mesada de estudante não chegava para pagar o menu de cinco estrelas. «Voltei a ser frequentador anos mais tarde, com o Tozé Brito, a lagosta era muito boa», lembra. O grupo que se juntava ao jantar era quase o mesmo que durante anos animou as noites de Ano Novo e Carnaval, que ficaram célebres na zona. Ramon Galarza, filho de Shegundo Galarza e produtor, recorda muitas dessas festas passadas no restaurante idealizado pelo pai e pelo padrinho. «Era necessário fazer marcação e sei que era difícil conseguir a reserva. Esgotava rapidamente e suponho que era sempre o mesmo grupo que ia lá», conta. Nos anos 60 do século XX, «o Monaco era o restaurante da moda e as pessoas procuravam isso». Ao serviço e gastronomia de qualidade, juntava-se a pista, onde se ouviam "músicas dançáveis". Na época, lembra o filho de Shegundo Galarza, «havia músicos com uma capacidade de memória incrível, que tocavam desde jazz, música latina, tango. Era um estilo menu que servia o que as pessoas queriam ouvir. Foi um hábito durante alguns anos». Com o tempo, o conceito de restaurante dançante alterou-se e a sociedade também ela mudou. Ramon recorda que «financeiramente as coisas não correram bem e o meu pai sofreu bastante com aquilo».

 

 

Novos proprietários e músicos do conjunto de Mário Simões mantiveram a aura do “Mónaco” mesmo após 25 de Abril de 1974, quando muitos dos clientes habituais deixaram o País. Abel Dias, cronista social, ajudou a revitalizar o espaço quando esteve nas mãos de dois empresários de confeções. «Produzi lá uma festa, em meados dos anos 80, ‘A Noite dos Cozinheiros’, com a Teresa Guilherme, Herman José, Filipa Vacondeus e Manuel Luís Goucha», conta. Nos anos 1990, apesar das dificuldades visíveis, o “Mónaco” ainda recebia artistas, gente da televisão e políticos.

Mas com o virar do século XX, e a concorrência de locais mais modernos, «tornou-se um espaço foleiro. Passava-se ali e via-se que estava em decadência», nota Paula Bobone. Em 2008, com o empresário Luís Quaresma o “Mónaco” volta a falhar.

 

Muitos acreditam que o restaurante “Mónaco” pode renascer com a promessa de um novo proprietário, uma empresa espanhola, com actividade no ramo da hotelaria e de escritórios, por um valor abaixo do que era pedido (800 mil euros) pedidos pelos quatro herdeiros que vivem na América Latina. O edifício, que se estende por um terreno de 1.100 metros quadrados, mesmo sobre o local onde o rio Tejo se cruza com o mar, apresenta-se hoje num adiantado estado de degradação.

Fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, IÉ-IÉ, Garfadas on line

4 comentários:

Ricardo Ribeiro disse...

Muito estranho não haver referência no texto à famosa "curva do Mónaco", uma instituição para quem quer que conduzisse um carro na minha geraçao, colheita de 65, e, suponho, ainda hoje.

De resto, não fazia ideia que o restaurante tinha estado aberto até tão recentemente... pensei que era coisa do passado distante, talvez dos anos 70 no máximo.

José Leite disse...

Caro Ricardo Ribeiro

Com certeza que me lembrei da "curva do Monaco", mas fugi à referência já que esse local é de triste memória para muitos familiares de pessoas que faleceram, ou que ficaram gravemente feridos nesse fatídico local.

Fiquei-me apenas pelo restaurante em si e nada mais.

Os meus cumprimentos

José Leite

Mário Ferreira disse...

bom dia
e por acaso tem alguma foto onde se veja o Forte de Nossa Senhora do Vale destruído para a construção da Marginal?
grato pela atenção
Cumpts,
Mário

José Leite disse...

Caro Mário Ferreira

Tenho um postal que creio mostrar esse forte em questão.

Informe-me do seu e-mail, para o meu (jal2684@gmail.com) que lhe enviarei com todo o gosto.

Os meus cumprimentos

José Leite