15 de maio de 2013

Palácio Nacional de Mafra

O "Real Convento de Mafra", mais tarde "Palácio Nacional de Mafra", é o mais importante monumento barroco português. Mandado construir por D. João V em 1717, como pagamento de uma promessa caso tivesse um filho varão, o que viria a acontecer em 6 de Junho de 1714 com o nascimento do infante D. José (futuro rei), é ao mesmo tempo basílica, convento e palácio.

                                                                            D. João V (1689-1750)

                                                                    

Entre 1713 ano da aquisição dos terrenos, e 17 de Novembro de 1717, data do lançamento da primeira pedra, ocorreu uma primeira alteração de planos, e os alicerces abertos em 1716 tinham já em vista um convento de 80 monges e não de 13, como estava originalmente previsto. O risco deste primeiro templo é, actualmente, atribuído, sem grande contestação, ao arquitecto João Frederico Ludovice, natural da Suábia e que viera para o nosso país, em 1701, como ourives. Os trabalhos desta fase prolongar-se-iam até aos primeiros anos da década de 1720 (1721-1722), quando D. João V reformulou por completo a sua ideia para Mafra, ampliando o convento de forma a poder receber 300 monges, a família real, o patriarcado e a corte. Com o ouro do Brasil a entrar em Portugal não se poupou a despesas.

                                                                                Aguarela de 1810

                   

Manuel da Maia, João Pedro Ludovice, e todo um conjunto de artistas (pintores, escultores, entalhadores...), boa parte dos quais italianos (o escultor Vicenzo Foggini, ou os pintores Agostino Masucci e Corrado Giaquinto), e o francês Claude Laprade, que imprimiram uma magnificência extraordinária aos interiores do palácio, de que se destacam a Basílica e a Biblioteca, esta última numa fase mais tardia.

O mármore, para a sua construção, foi fornecido pelas pedreiras de Pêro Pinheiro e Sintra, e as madeiras do Brasil, e a sua construção empregava, em 1729, 47.830 mil trabalhadores guardados por 7 mil soldados, para não fugirem. O resultado foi enorme edifício com oitocentas e oitenta salas, trezentas celas, quatro mil e quinhentas portas e janelas, cento e cinquenta e quatro escadarias e vinte e nove pátios. O edifício ocupa no total uma área de cerca de quarenta mil metros quadrados. e o projeto final acabou por abrigar 330 frades, um palácio real, e uma das mais belas bibliotecas da Europa, decorada com mármores preciosos, madeiras exóticas e incontáveis obras de arte.

                                         1850                                                                                        1853

   

A madeira de pinho para os andaimes e barracas dos trabalhadores veio do norte da europa. A maior parte das estátuas e a pintura foram obra de artistas italianos; paramentos, alfaias de culto, tocheiros foram encomendados em Roma, Veneza, Milão, Génova e, também, em França e Holanda. Só mesmo o mármore é genuinamente português.

Em 1730 são fabricados, em Antuérpia, os relógios, os sinos e o carrilhão da basílica (57 sinos para cada uma das torres), por Nicolau Lepache e Guilherme Withlockx, pesando cerca de duzentas e dezassete toneladas. Os carrilhões, encomendados por D. João V, são considerados dos melhores do mundo, tocando valsas e contravalsas.

                                                               Desenho de 1986 do complexo de sinos

                                

                          Carrilhanor, comando do carrilhão e EP de Jaques Lannoy - Carrilhanor entre 1965-1984

   

Intervieram na construção deste monumento:

Arquitectos: Custódio Vieira (séc. XVIII); João Frederico Ludovice (c. 1670 - 1752), Carlo Gimac, António Canevari, Manuel Caetano de Sousa (1742 - 1802) (biblioteca); Carrilhão: Nicolau Lepache, Guilherme Withlockx.
Engenheiro Militar: Manuel da Maia (séc. XVIII).
Escultores: João de Almeida (presépio, atri.), José de Almeida (1728-1729); Alessandro Giusti (1715 - 1799), Joaquim Machado de Castro, Francesco Maria Schiafino, Carlo Monaldi (1683 - 1760), Agostino Cornnacchini (1685 - c.1754), Giovanni Battista Maini (1690 - 1752), Filippo della Valle (1698 - 1768), Pietro Bracci (1690 - 1773).
Organeiros: Eugene Nicholas Egan, António Xavier Machado e Cerveira, Joaquim António Peres Fontanes.
Pedreiros: António Martins (séc. XVIII); Bernardo Pereira, José Rodrigues Corista e Manuel Rodrigues Corista (1736).
Pintores: Agostino Masucci (1692 - 1758), Corrado Gianquinto (1703 - 1756), Emanuel Alfani (act. 1730 - 1746), Etiénne Stephanus Parrocel (1695 - 1776), Francesco Trevisani (tela do altar-mor), Giovanni Odazzi (1663 - 1731), Pierre-Antoine Quillard (1704 - 1733), Pietro Bianchi (1694 - 1740), Sebastiano Conca (1680 - 1764), André Gonçalves (1685 - 1762), Cirilo VolKmar Machado (pinturas da sala do Trono), Inácio de Oliveira Bernardes (1697 - 1781), Francisco Vieira de Matos - o Lusitano (1699 - 1783).

                             Planta do piso térreo                                                                  Planta do 1º piso

 

No ano de 1744 são considerados concluídos os trabalhos do complexo arquitectónico de Mafra, ainda que muitos pormenores se encontrem por realizar, o convento é então habitado por 342 religiosos, 203 sacerdotes, 45 coristas, 10 noviços, 60 leigos e 24 donatos. Contudo, a cerimónia da sagração da Basílica, que durou oito dias, aconteceu vinte anos antes, a 22 de Outubro de 1730, dia de anos do rei D. João V, e que, segundo consta, por exigência do próprio. Em 1750 teria lugar a celebração das exéquias fúnebres de D. João V nesta Basílica.

 

                                                   

  

D. Maria Pia que visitava frequente do "Palácio de Mafra", mandou construir um elevador com acesso do rés-do-chão ao terceiro piso, considerado por muitos como o primeiro em Portugal. Podia transportar até dez pessoas e era frequentemente apelidado de "caranguejola".

O maior tesouro do Palácio Nacional de Mafra é a sua biblioteca, com chão em mármore, estantes em estilo rococó e uma coleção de mais de 36.000 livros com encadernações em couro gravadas a ouro, graças à acção da Ordem Franciscana, incluindo uma segunda edição de "Os Lusíadas". Abrange áreas de estudo tão diversa como a medicina, farmácia,história,geografia e viagens, filosofia e teologia,direito canónico e direito civil, matemática, e história natural.

                                                                                Imagens da Biblioteca

                                 

                                 

Construída por Manuel Caetano de Sousa, tem 88 m de comprimento, 9.5 de largura e 13 de altura. O magnífico pavimento é revestido de mármore rosa, cinzento e branco. As estantes de madeira estilo rococó, situadas em duas filas laterais, separadas por um varandim contêm milhares de volumes encadernados em couro, testemunhando a extensão do conhecimento ocidental dos séculos XIV ao XIX. Entre eles muitas jóias bibliográficas, como incunábulos. Estes volumes magníficos foram encadernados na oficina local, também por Manuel Caetano de Sousa.

                                       Cela de frade                                                                       Cozinha dos frades

 

                               Refeitório dos frades                                                                     Cemitério

                                            

O mosteiro reflecte bem o estilo de vida dos monges franciscanos, humilde, apenas com o essencial. Possuindo uma cozinha, a botica, o hospital dentro de uma capela, e uma série de celas com abertura para um corredor central, onde se colocavam as camas dos doentes durante os ofícios religiosos, e as celas dos monges contendo os artefactos de auto-punição para expiação dos pecados.

                                                             Hospital dos frades e Capela do hospital

 

  

A Basílica de Mafra possui um total de seis órgãos, únicos no mundo, para os quais existem partituras que só aqui podem ser executadas. No seu interior tem, ainda, um total de onze capelas com quatrocentas e cinquenta esculturas de mármore, quarenta e cinco tribunas e dezoito portas. No reinado de D. João V, todas as cerimónias na basílica eram acompanhadas de canto gregoriano. D. João V, apreciador da arte, reunia-se com frequência com os frades acompanhando-os no canto.

                                Um dos órgãos                                                                       Portas da Basílica

                     

                                                                        Imagens do interior da Basílica

                                             

          

                                                                                       Vestíbulos

          

O palácio possui, ainda, um conjunto de relógios de sol em pedra, constituído por dois relógios verticais, um deles com dois mostradores, orientados respectivamente para Leste e Oeste, e um relógio horizontal. Estão situados numa pedra em forma de cubo, ficando o relógio horizontal no topo. Em todos eles as marcações são em numeração romana.

O palácio era popular para os membros da família real, que gostavam de caçar na tapada. Hoje em dia decorre aqui um projeto para a preservação dos lobos ibéricos. As melhores mobílias e obras de arte foram levadas para o Brasil, para onde partiu a família real quando das invasões francesas, em 1807. O mosteiro foi abandonado em 1834, após a dissolução das ordens religiosas. Durante os últimos reinados da Dinastia de Bragança, o Palácio foi utilizado como residência de caça e dele saiu também em 5 de Outubro de 1910 o último rei D. Manuel II para a praia da Ericeira, onde o seu iate real o conduziu para o exílio.

                                                                                   Aposentos reais                                                                   

 

                                 

                             Sala dos troféus de caça                                                              Sala de música

 

                                

Depois de em 1887, a Escola Prática de Infantaria e Cavalaria ter ocupado nas antigas dependências conventuais, tendo-se efectuado as necessárias obras de adaptação, em 1910 é extinta a Escola Real de Mafra, instalada em parte do edifício e o palácio é nacionalizado pelo regime republicano.

Até 2010, data da sua morte, o único residente do Palácio foi um antigo tipógrafo, de nome Gil Mangens. Descendente de uma família de origem francesa, que chegou a Lisboa no século XVIII por altura da construção do Palácio, na pessoa de um gravador de nome Mangens, devotou, à imagem de seu pai e avô, toda a sua vida ao monumento que o acolhe.

Até 1997 o "Palácio Nacional de Mafra" estava ocupado por cinco entidades: o IPPAR (o Palácio, com área de recepção e circuito de visita), a Escola Prática de Infantaria de Mafra (EPI), a Câmara Municipal de Mafra, a Igreja (serviços da paróquia) e o Tribunal de Mafra.

Com o programa de revitalização e recuperação de fachadas e coberturas, nomeadamente limpeza das fachadas, rebocos e pintura do exterior e dos pátios e claustros; arranjo, limpeza e conservação das coberturas em andamento desde 1994 promovido pelo IPPAR, em 1997 é elaborado um estudo prévio à recuperação e revitalização do Palácio. Da responsabilidade do atelier dos arquitectos. Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas e Pedro Botelho, o estudo previa o reordenamento dos espaços do edifício, criando os necessários apoios (nova recepção e cafetaria), valorizar o percurso em causa através da instalação de um pólo museológico, melhorar o acesso ao Convento / Palácio, articular o edifício com as valências de carácter urbano da envolvente (o jardim da Cerca e a Tapada), e permitir a partilha de espaços com a Escola Prática de Infantaria; para tal, tornou-se prioritário assegurar: a recuperação da Ala Norte do andar nobre; a remodelação da ala Sul, de acordo com a proposta de reordenamento museológico a apresentar; beneficiação do acesso à Biblioteca; integração de uma pinacoteca na ala Sul.; instalação de serviços de apoio no piso térreo; acesso aos pátios da Basílica.

                                 

                                                   

 

fotos in: The Courtauld Institute of Art, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Igespar, SIPA,

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