11 de julho de 2011

Fábrica de Loiça Sacavem

Manuel Joaquim Afonso, empresário e industrial conhecedor dos processos de fabrico de vidro e de louça, e proprietário , desde 1851, da Quinta do Aranha em Sacavém implantou aí em 1856 a sua fábrica da cal hidráulica, cimento e porcelanas artificiais. Apesar da controvérsia em redor da data de fundação desta unidade fabril, que alguns apontam como tendo sido em  1850, acredita-se que a mesma apenas tenha sido erguida em 1856, pois só neste ano foi concedida ao fundador o alvará de patente como introdutor de fabrico de tais produtos. Nascia a futura “Fábrica de Loiça Sacavém”.

                                  

 

 

Situada perto do então recém inaugurado caminho de ferro Lisboa-Carregado (ver post de 30 de Maio de 2011) e do Rio Trancão, principais vias de comunicação de Sacavém, a quinta foi vendida em 1861 ao barão de Barcelinhos, tendo a fábrica sido comprada pelo inglês John Stott Howorth, que a administrou até 1893. Em 1885 foi autorizada a designação "Real Fábrica de Louça". Com o deflagrar de um grave incêndio em 1888, vieram as dificuildades, numa altura em que a fábrica já empregava 145 operários e 55 aprendizes.

Painel de Armando Mesquita, datado de 1946

                                  

        

Quando morreu o já ‘Barão Howorth de Sacavém’, em 1893 a “Real Fábrica de Loiça”  já era uma referência nacional e internacional, sendo já conhecida a expressão «É de Sacavém é outra loiça…!». A partir desta data a direcção e designação desta empresa sofreram diversas alterações.

                                      

No ano seguinte a ‘Baronesa Howorth de Sacavém’  estabeleceu uma sociedade em comandita com o antigo guarda-livros da fábrica, James Gilman, a qual assegurará a administração da mesma até à morte da Baronesa, em 1909, altura em que Gilman assume sozinho o governo da empresa. Mantém-se a aposta na ligação estratégica ao mercado inglês, tanto ao nível da exportação do produto final, como da aquisição de novas tecnologias para a fábrica. A aquisição em 1912 de um forno-túnel de grandes dimensões com 85 metros de comprimento, e oito de altura, e onde pela primeira vez se utilizou betão armado em Portugal, veio revolucionar a produção da fábrica.

        Mr. Gillman e o mestre geral da Fábrica         A “Real Fábrica de Loiça” presente no Rio de Janeiro em 1879

                            

A fábrica passa, então, a possuir sete fornos e três muflas e emprega já 400 operários.

                                                     Forno de 85 metros de comprimento e oito de altura

                 

Em 1930  praticamente toda a população de Sacavém trabalhava na fábrica. Razões para assinalar esta data não faltam aos habitantes da freguesia. Todos eles estão directa ou indirectamente ligados à “Fábrica de Loiça Sacavém”. Antes de a unidade ser ali instalada, em 1856, Sacavém não passava de uma povoação com pouco mais de 300 habitantes.

«Vieram famílias inteiras da região alentejana, sobretudo da serra Loriga e das Minas de São Domingos que, ainda hoje, constituem o núcleo principal da população da freguesia», explica Ana Paula Assunção, directora dos museus municipais de Loures. Segundo os seus cálculos, um em cada três habitantes de Sacavém foi operário da fábrica. É por isso que não é difícil encontrar memórias daqueles tempos em cada canto da freguesia. Alguns operários conheceram a Fábrica de Loiça Sacavém quando ainda eram meninos. Cresceram lá dentro e saíram dali homens feitos. Cada um deles sabe contar as histórias de todos os operários: as jornadas de 10 ou 12 horas de trabalho, as doenças e os laços de solidariedade. «O operário tinha direito a um ordenado-base, que mal dava para sustentar a família. Se quisessem ganhar, mais teriam então de produzir mais peças. Alguns nem almoçavam para ganharem um dinheiro extra», recorda o antigo chefe de divisão da loiça de mesa.

         

                

Não obstante, talvez pela sua gerência inglesa, a Fábrica de Loiça de Sacavém foi pioneira em certas medidas que denotam a existência de preocupações sociais da parte do patronato: a criação de uma escola dentro da fábrica, a existência de um caixa de socorros mútuos para os seus trabalhadores, o direito a férias remuneradas, e a instituição de campos de férias para os filhos dos trabalhadores da fábrica.

         

                                              Stand de exposição e loja, na Avenida da Liberdade, em Lisboa

                                           

         

                                       

Nas primeiras décadas do século XX, o pintor Jorge Colaço executou na fábrica os azulejos para diversas das suas mais significativas obras: a Estação de São Bento, no Porto (1903), o Palace-Hotel do Buçaco, no Luso (1907), o Pavilhão dos Desportos, em Lisboa (1922), ou a Casa do Alentejo, também na capital.

                         Painéis da Gare de S. Bento, no Porto                       Painel no Pavilhão dos Desportos em Lisboa

               

                                                  Painel na Casa do Alentejo                              Mercado de Vila Franca de Xira

                        
 
Em 1921, com a morte de James Gillman, sucede-lhe à frente da fábrica o seu filho Raul Gillman, tendo como sócio um outro inglês, Herbert Gilbert.
 
A povoação continua a crescer, em grande parte devido à fábrica, de tal forma que em 1927, o governo saído da Revolução Nacional de 28 de Maio de 1926 decide atribuir o estatuto de vila à povoação de Sacavém. Ao mesmo tempo, porém, inicia a política de repressão aos trabalhadores, gente de espírito combativo e que não se revê na ditadura. Dessa forma, não é de admirar as tentativas de paralisação levadas a cabo por operários da fábrica, contra o regime que se viria a estabelecer - o Estado Novo. Destaca-se a famosa «greve dos rapazes», em 1937, em que os aprendizes da Fábrica de Loiça acabaram por ser detidos pela G. N. R., seguindo-se uma vigília das suas mães e/ou esposas.

                            Greve dos rapazes de 1937                                                         Oficina de Olaria

        

Entretanto, em 1962 ascendia à administração o filho de Herbert Gilbert, Leland Gilbert, e em 1970, entrava-se na última fase de vida da fábrica, com o derradeiro dono, Clive Gilbert.
 
Após o 25 de Abril de 1974, a Fábrica de Loiça entra num conturbado período, tanto a nível laboral, como financeiro, acabando a fábrica por encerrar em 1983. Em 6 de Outubro do ano anterior, Monteiro Pereira, o administrador da fábrica, fora assassinado à saída da sua casa, em Almada, por uma rajada de metralhadora, num atentado perpetrado pelo grupo terrorista “F.P.'s  25 de Abril”.

Em 23 de Março de 1994, o Tribunal Cível da Comarca de Lisboa declarou a sua falência, fechando definitivamente as portas a 7 de Abril do mesmo ano. A isto se seguiu a venda dos seus bens em hasta pública.

Há quem diga que, quando a “Fábrica de Loiças Sacavém”  fechou, em 1987, a freguesia de Loures adormeceu. Acabou-se o corrupio de mulheres a levar o almoço aos trabalhadores, as tabernas que se enchiam ao final de tarde e as reuniões secretas dos operários na Cooperativa Sacavenense. «Agora, esta terra não tem nem sequer uma pensão ou um cartório», conta Zeferino da Graça, antigo funcionário da unidade fabril.

                                                       1931                                                                                    1934

         

                                                                                       Stand na FIL

                                 

                                                                                            1941

                                             
 
No local onde antes se erguera a Fábrica, nasceu uma nova urbanização, o “Real Forte”, tendo no entanto um pequeno espaço, situado em torno do forno n.º 18, sido destinado à preservação do espólio remanescente da antiga fábrica. Aí se instituiu o “Museu de Cerâmica de Sacavém”.

                                                                      Museu de Cerâmica de Sacavém

                                              

fotos in: Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém, Hemeroteca Digital, Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian

7 comentários:

BLACK FALCON disse...

Muito bom. Parabéns. Adorei e o meu muito obrigado.

José Leite disse...

Caro ... Black Falcon (se me permite)

Grato pelo seu comentário. Não tem que agradecer.

Cumprimentos

José Leite

Sandra Repolho disse...

É giro encontrar a minha mãe numa destas fotos.

Anónimo disse...

Foi pena que a "nossa" Grande Fábrica de Sacavém tivesse terminado! Gostei deste blogue, li com atenção e apetecia-me poder entrar numa máquina do tempo para poder adquirir as peças que hoje já nem se encontram. Limito-me a comprá-las quando surge a oportunidade. Continuação e parabéns, HC

José Leite disse...

Caro HC

Grato pelo seu comentário

Cumprimentos

Maria Miranda disse...

Adorei esta visita Parabéns

José Leite disse...

D. Maria Miranda

Muito grato pelo seu comentário

Cumprimentos

José Leite