25 de fevereiro de 2011

Os Fósforos e a ‘Fosforeira Portuguesa’

Em 25 de Abril de 1895, o então Presidente do Concelho e Ministro da Fazenda, Conselheiro Hintze Ribeiro fez desaparecer, por decreto, as 69 fábricas de fósforos espalhadas pelo continente do reino e ilhas adjacentes, entregando o exclusivo do fabrico de acendalhas e palitos, ou pavios fosfóricos, à ‘Companhia Portuguesa de Fósforos’ que abriu duas fábricas de grande porte; uma em Lordelo do Ouro, no Porto, e outra no Beato, em Lisboa.

Dadas as precárias condições de segurança em que se manuseavam estes materiais altamente inflamáveis sucediam-se, em todo o país, situações de pequenos e grandes incêndios, alguns provocando vítimas humanas e elevados prejuízos materiais, dado que, grande parte destas fabriquetas se encontravam instaladas em pequenas lojas, "roubadas" aos animais, existentes nas próprias habitações. As más condições de protecção em que se realizavam 12 a 16 horas de trabalho diário, perante a indiferença das autoridades, associadas aos perigos de emanações tóxicas, constituía um elevado risco de vida pois poderia causar necrose ou gangrena dos ossos e poderia levar à morte.

                                                ‘Cª Portugueza de Phosphoros’, em 1911

                                               

Este monopólio de produção de fósforos de enxofre, integrais e amorfos, de cera e de madeira, que foi dado em exclusivo, pelo prazo de 30 anos, ao negociante do Porto, Francisco António Borges, viria a sobreviver à Primeira República. Expirado o prazo concedido, cria-se a ‘Sociedade Nacional de Fósforos’, em 1925, que herda os alvarás de produção da ‘Companhia Portuguesa de Fósforos’, tornando-se numa das mais importantes unidades do sector a nível nacional. A sua extensa linha de produção integra todos os trabalhos desde corte e tratamento da madeira, à realização da "massa" dos fósforos e respectivo embalamento. Mais tarde, em 1926, surge em Espinho, outra empresa importante, a ‘Fosforeira Portuguesa’ e, no Porto, ainda mais duas companhias, a ‘Continental’ e a ‘Lusitana’.

                                             Exterior da ‘Fosforeira Portuguesa’, em Espinho

                         

Máquina de fabricação da massa dos fósforos                 Diferentes tipos de fósforos comercializados

fotos anteriores in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian

                                                                    Interior da fábrica

 

A vulgarização do uso do isqueiro (já inventado em 1816, pelo alemão Johann Wolfgang Döbereiner) viria a fazer decair esta notável indústria. Perante isto, Salazar, lançou a "Licença Anual para uso de Acendedores e Isqueiros", numa tentativa de refrear a sua crescente utilização, já que causava um enorme rombo na indústria fosforeira nacional, para ela revertendo toda a receita das licenças emitidas, bem como o valor das multas aplicadas pela inobservância da lei; embora, neste caso, 30% se destinasse ao fiscal autuante. Já sem aplicação prática, mau grado a existência de um extenso "corpo de fiscais" para punir e dissuadir a utilização de isqueiros, na via pública, esta lei acabou por ser abolida em 1970.

               

Mas, com a globalização, a indústria fosforeira portuguesa nada pôde fazer para resolver a crise que se instalou no sector e que pôs em causa a sua viabilidade no nosso país. Trata-se do problema da concorrência, resultado da importação de fósforos dos novos países da União Europeia e de países terceiros, como a China.

                                              Carteiras de fósforos da ‘Fosforeira Portuguesa’

            

A ‘Sociedade Nacional de Fósforos’ sucumbe, deixando atrás de si, as suas famosas colecções de caixas e carteiras de fósforos, temáticas e publicitárias, muito ao gosto dos apaixonados coleccionadores filumenistas. Por arrasto da mudança dos hábitos de consumo, as grandes e importantes fábricas fosforeiras portuguesas, que produziram durante décadas autênticos objectos de colecção, que alimentaram o filumenismo, acabaram por entrar em decadência e encerrar.

                                                Concurso da ‘Fosforeira Portuguesa’ em 1931

                                        

Montra no ‘Eduardo Martins & Cª, Lda’. , alusiva ao concurso, mostrando os produtos da ‘Fosforeira Portuguesa’ e os prémios

                  

A ‘Fosforeira Portuguesa’, já só com 39 empregados, encerra a 30 de Setembro de 2006,  e no mesmo mês é trespassada , recebendo a partir dessa data a designação de ‘Chama Vermelha, S.A.’ estando, actualmente, localizada em Vila Nova de Gaia e sendo a única empresa portuguesa a produzir fósforos, na Península Ibérica, e das poucas a nível mundial. Esta nova empresa foi criada por Jaime Teixeira Pinto, ex-director de fábrica da ‘Fosforeira Portuguesa’, que se recusou a deixar desaparecer uma industria única. A ligação à empresa já existia por via do pai, Carlos Amândio Yrache Teixeira Pinto, que desde a sua formatura sempre trabalhou na empresa e foi grande promotor do desenvolvimento técnico das fabricas de fósforos.

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