7 de março de 2018

Leiria & Nascimento - Leiloeiros

A empresa de leilões “Leiria & Nascimento, Lda.”, com sede na Rua da Emenda, em Lisboa, foi constituída em 20 de Novembro de 1933, em substituição da “Casa Liquidadora (antigo Bazar Catholico) de Maria Guilhermina de Jesus”, com a entrada do sócio João Filipe Nascimento, gerente bancário na Casa Bancária José Henriques Totta”.

Sala de leilões no “Palácio Quintela-Farrobo”, na Rua do Alecrim

Tudo começou com a fundação da loja “Bazar Catholico”, na Rua de S. Bento, em Lisboa, por José Leiria em 1892.

José Pedro da Cruz Leiria, nascido em Faro a 26 de Agosto de 1850, começou a sua vida profissional como escultor, pintor e dourador. Aos 15 anos era já oficial e aos 22 anos dedicou-se a gravar em marfim e a restaurar louças, que fazia com tal mestria e perfeição que José palha, um dos primeiros negociantes de antiguidades daquele tempo, o contratou para trabalhar exclusivamente para si. Ficou 2 anos a ganhar 2$250 réis por dia. Passou, depois, a trabalhar por conta própria, tendo feito diversos trabalhos para o Rei D. Fernando, a Duquesa de Palmela, Condessa de Ficalho, etc.

«Em 1881 foi este distincto artista para Cascaes, montar um atelier d'esta especialidade, mas tendo sido pouco feliz na sua empreza, voltou para Lisboa, indo abrir na rua de S. Bento o Bazar Catholico, que em pouco tempo adquiriu grande reputação pela honestidade das suas transacções e pela variedade e bom gosto dos objectos que o sr. Leiria conseguia angariar. Foi ahi que começou a serie de leilões que tão boa aceitação tiveram do público, e continuaram depois na rua da Escola Polytechnica, onde a concorrencia era sempre constante e composta dos principaes entendedores de objectos raros e antigos.»

Anúncio do “Bazar Catholico” no jornal “A Nação” de 16 de Julho de 1888

Quanto à licença , e em 1902 …

Nos finais de 1892, José Leiria mudaria o seu estabelecimento para a Avenida da Liberdade, 31 « para dar mais latitude ás suas operações de compras e vendas, e para ter o seu estabelecimento em ponto mais central da cidade», constituindo para o efeito a firma “Leiria & C.ª” e «na qual poz o numero 31 em todas as cinco portas, para se não confundir com outras da mesma especie ali situadas, e ahi tem conseguido o que nenhuma outra Liquidadora até agora conseguiu, que é fazer leilão todas as noites, sempre com a casa cheia de compradores, e de variados objectos de todas as qualidades para lhes vender, e onde vae agora inaugurar os leilões pelo systema do antigo Bazar Catholico, isto é, no primeiro domingo de cada mez, e destinado á venda de antiguidades, moedas e objectos artisticos.»

Imagem mais antiga a que tive acesso da “casa Liquidadora”, no edifício de esquina

Foto já do século XX

Publicidade em 31 de Dezembro de 1893

 

O estabelecimento de “Casa Liquidadora”, inicialmente com cinco portas, em finais de 1893 já ocupava 10 portas na Avenida da Liberdade. Em 1901, a numeração era, de novo, actualizada passando o estabelecimento a ocupar desde o nº 93 ao 97 e do 107 ao 113 da Avenida da Liberdade e os números 98 a 106 da Travessa do Salitre. Em 1908, a “Casa Liquidadora” ocupava desde o número 93 ao 99, e desde o 107 ao 113 da Avenida da Liberdade, e desde o número 98 a 116 da Travessa do Salitre.

Entretanto , em 1901, a “Casa Liquidadora”, é adquirida por Maria Guilhermina de Jesus, passando a designar-se “Casa Liquidadora (antigo Bazar Catholico) de Maria Guilhermina de Jesus”. Em 1927 esta cede os números 135 e 137 para a instalação do Café Luso”.

Catálogos de 1901 e 1903

  1903 Catálogo

                                             1907                                                                                          1908

 

                               Carta de 4 de Maio de 1911                                                                       1912

 

Em 1933 a “Casa Liquidadora”, ainda sob a gerência de Maria Guilhermina de Jesus atravessava dificuldades financeiras. Para as disfarçar, esta associa-se ao bancário João Filipe Nascimento, gerente na Casa Bancária José Henriques Totta”, e constituem a 20 de Novembro de 1933 uma nova firma, a “Leiria & Nascimento, Lda.”. Em 1935 abandona as instalações que ocupavam desde os números 107 ao 113 da Avenida da Liberdade e os números 98 a 106 da Travessa do Salitre, instalando-se aí o “Café Lisboa”, inaugurado no ano seguinte em 1936. A “Casa Liquidadora” ficava, assim, reduzida ao número 133 da Avenida da Liberdade, mantendo a sua sede na Rua da Emenda, 30.

O “Café Lisboa”, já instalado em parte das antigas instalações da “Casa Liquidadora”

Catálogo de 1936

A “Casa Liquidadora” manter-se-ia na Avenida da Liberdade, 133 até 1937, altura em que arrenda a quase totalidade do “Palácio Quintela-Farrobo” - actual “Palácio Chiado” - na Rua do Alecrim, então, propriedade da filha do antigo proprietário António Carvalho Monteiro, conhecido pelo “Monteiro dos Milhões”, e dono da “Quinta da Regaleira” em Sintra”.

Exterior e interiores da “Casa Liquidadora” quando instalada no “Palácio Quintela-Farrobo”, na Rua do Alecrim

 

 

 

 

 

Quanto ao percurso recente da sociedade “Leiria & Nascimento, Lda.” «Conhece altos e baixos, acentuando-se o declive no pós-25 de Abril. Em 1986, então desactivada, Clara Ferreira Marques associa-se a outras quatro pessoas e adquire a mais antiga leiloeira do país, de regresso às ingratas mãos de uma senhora. “Era um negócio completamente dominado por homens. Nos jornais diziam que tinham entregue o leilão a um franguinho de aviário, por ser muito miúda. Mas era determinada.” in “Jornal I “ de 24 de Janeiro de 2012. Nesta altura, a “Leiria & Nascimento, Lda.” já estava instalada na Avenida Álvares Cabral, 135 nas antigas instalações do Jardim Cinema”.

Sede da “Leiria & Nascimento, na Rua da Emenda, 30-36 em imagem retirada do “Google Maps” em 2009

O “Jornal I “, continuava no seu artigo, de 24 de Janeiro de 2012: «Neste compromisso, dir-se-ia que hoje há espaço para rubricas com preciosas Montblancs ou modestas canetas descartáveis, ainda que há 130 anos Guilhermina Leiria tenha começado a escrever esta história com uma elegante pena. À margem das datas reservadas a leilões, é possível entrar no número 35 da Avenida Álvares Cabral, em Lisboa, antigo Cinema Jardim, e levar para casa Malangatana, Pedro Proença, Álvaro Lapa, Fátima Pinto, Menez, Camarinha, cadeiras de Philip Starck, a famosa mesa PikNik de Dirk Wynants e Xavier Lust, arte africana ou pianos entre 2 mil e 8 mil euros, a partir de preços fixos a que se soma a comissão da casa, 15%.
Por 2,75 milhões de euros, intermediou a venda da mais cara obra de arte transaccionada no país, o quadro, de autor desconhecido, “Vista de Lisboa antes do terramoto de 1755”, que mora na sede do BES. Em 2008, a venda de um Tiepolo para o Museu de Arte Antiga rendeu 1,5 milhões de euros. “Deu-me muita luta. Entendia--se que não devia sair do país, apesar de ter interessados fora de Portugal que ofereciam 4 milhões de euros. Dói à casa leiloeira e ao proprietário, mas há a compensação pessoal de termos peças nossas em museus.” Para a história fica ainda a venda-relâmpago de uma primeira edição de “Os Lusíadas”, que atingiu os 400 mil euros, e a longa série de leilões do espólio do comandante Ernesto Vilhena, recheado de arte sacra.»

Mas … logo a seguir a este artigo, em Fevereiro de 2012 é aberto o processo de insolvência, que entretanto é travado pela constituição de uma nova sociedade, em Janeiro de 2014, que não evitará a sua dissolução e insolvência definitiva em 27 de Novembro de 2015.

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital

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