3 de dezembro de 2017

Ferro de Engomar

O “Retiro Ferro de Engommar” teve a sua origem numa horta da “Quinta da Rabicha”, junto a Campolide junto ao arco grande do “Aqueduto das Águas Livres”, em Lisboa.

«(...) Tomando outro rumo, havia os restaurantes da Rabicha, nomeadamente o Ferro de Engomar, que depois se mudou para a estrada de Benfica, onde se encontravam Os Charquinhos, o José Bacalhau, e mais adiante o Caliça.» in: “Almanach Palharaes” para 1918.

“Quinta da Rabicha” e o “Retiro Ferro de Engommar” na casa ao centro do postal

«A Quinta da Rabicha era pequena e em forma de triângulo. Toda colmada de um odorífero e viçoso pomar, que dava primorosas laranjas. Água abundante e corrente. A menidade do sítio contrastava com os rochedos escalvados, que diziam para o poente. Nos arredores de Campolide muitas casas em ruínas, esburacadas de balas de fuzil e artilharia, dos assaltos dos realistas à cidade , nos dias nefastos da grande guerra de D. Pedro e D. Miguel.
A afamada Rabicha, de nossos avós e de nossos pães, foi durante muitos annos, ás portas de Lisboa, o mais dilecto recinto da mocidade, fornecendo-lhe, por um cruzado (480), magníficos jantares, servidos sob extenso parreiral, á beira de espaçoso tanque, sendo ementa obrigada o pão de Bellas, o peixe frito, a legitima alface aloirada, a fructa de primeiríssima
qualidade e o vinho chamado de fora barreiras, magnifico Torres sem mistura, recebido junto ás pipas em tijelas vidradas a branco.»
in: "Livres das Férias", de Augusto Forjaz em 1915

A mesma perspectiva da “Quinta da Rabicha” do postal anterior, mas já sem o Retiro “Ferro de Engommar”

Outro Retiro na “Quinta da Rabicha”

O costume dos lisboetas irem para as hortas da Rabicha teria começado quando o aqueduto estava em construção, e nos domingos as gentes da cidade acorriam junto à ribeira para admirar as obras.

Além da “Quinta da Rabicha”, havia outros retiros, como o “Ferro de Engommar”, o mais antigo com esse nome. Foi aí que se tomou célebre um dos primeiros cantadores de fado, de nome José Norberto e por alcunha o «Saloio de Campolide».
É muito provável que os retiros e hortas de Campolide tivessem sido mesmo dos primeiros sítios onde surgiu o fado e o seu antecessor “lundum”. Assim se deduz de uma notícia datada de 1780-1785 referente à “Quinta de S. João dos Bem Casados”. Residia ali D. Joana Perpétua, irmã do Duque de Lafões, quando, devido aos bons ares do lugar, vieram os «reais meninos» tratar-se da tosse convulsa. Para os distrair, «ela mandou vir os pretos da Rabicha que cantaram modinhas à viola e dançaram o “lundum”».

Na “Chorographia Moderna do Reino de Portugal” de João Maria Baptista em 1874, já incluía a “Ferro de Engommar, Q.” na sua lista.

1874

“História do Fado” de Pinto de Carvalho (Tinop), em 1903

O retiro “Ferro de Engommar” seria transferido para Benfica, para a “Quinta Ferro de Engommar” ainda no século XIX, onde se cantava o fado, ainda, fora de portas.

“Ferro de Engomar” já em Benfica

Maria do Carmo Fontes Páscoa Bernardo, que se acompanhava à guitarra, que aprendera a tocar com um tio, foi aprendiz de costureira na casa Ramiro Leão e mais tarde costureira com atelier próprio. Teófilo Braga (que morava na casa em frente à sua), estimulou-a a cantar canções populares. Com apenas 11 anos foi uma das primeiras fadistas a cantar fora de portas. Era conhecida por Maria do Carmo Alta , alcunha que lhe foi dada devido à sua elevada estatura, e para a distinguir de outra importante cantadeira da altura, Maria do Carmo Torres.

Entretanto em 26 de Junho de 1927

                                 18 de Junho de 1928                                                                 7 de Julho de 1928

 

Mas com concorrência de peso, e bem perto …

                                      7 de Julho de 1928                                                    30 de Novembro de 1933

        

Maria Alice, que iniciou a sua carreira no retiro “Ferro de Engomar”, era o nome artístico de Glória Mendes, mais tarde Glória Mendes Leal de Carvalho, por ter casado com Valentim de Carvalho, dono da editora discográfica com o mesmo nome. Faleceu em Lisboa em 1997, tendo sido dado o seu nome a uma rua de Lisboa.

 

Maria do Carmo Alta, que fez várias digressões ao Brasil, além do seu prestígio como cantadeira, era muito organizada e empreendedora, o que a levou a fundar o “novo” retiro “Ferro de Engomar”, cerca de 1918 e que geriu em conjunto com Alberto Costa, outro grande fadista.

Foi o primeiro restaurante/retiro com elenco privativo, onde se cantava o fado às segundas , quartas e sábados e onde acorriam figuras importantes de Lisboa. Mais tarde Maria do Carmo convidou Maria Alice para sócia do “Ferro de Engomar”. Assim, as duas sócias Maria do Carmo Fontes Páscoa Bernardo e Glória Mendes , formaram a firma “Mendes & Bernardo, Lda.” sociedade esta que foi adquirida por Manuel Bernardo em 1938. Manuel Bernardo casou em 1953 com D. Lourdes Amélia Mendes Flora Bernardo.

 

Demolido em 1953, o antigo Retiro “Ferro de Engomar”  foi substituído por prédios novos. Mas o restaurante subsistiu, no mesmo local (ocupando o andar térreo de dois edifícios), reabrindo em 16 de Maio de 1956, conservando o seu espírito e as suas especialidades gastronómicas, mas ampliando o seu negócio a pastelaria e cervejaria.

16 de Maio de 1956

E como «quem fala verdade não merece castigo» … em 24 de Maio de 1956

1958

Após a morte de seu marido, D. Lourdes Amélia Mendes Flora Bernardo geriu, com a mesma firma, o “Restaurante Ferro de Engomar”, até ao seu encerramento em 31 de Outubro de 2013.

 

Última ementa do Restaurante “Ferro de Engomar”, de 31 de Outubro de 2013

                                                                      gentilmente cedida pelo blog “IÉ-IÉ

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Digital, Biblioteca Nacional Digital

3 comentários:

ié-ié disse...

magnífico! obrigado!

LPA

LuisY disse...

Excelente post.

Gostei imenso da história do Ferro de engomar, que eu conhecia da minha juventude passada em Benfica. Nem sabia que tinha fechado.

Encantaram-me as vistas antigas ao pé do Aqueduto das Águas-Livres. Perfeitas paisagens rurais e bucólicas onde hoje é um inferno de vias rápidas.

Um abraço

José Leite disse...

Caro Luis

Eu é que agradeço o seu comentário

Abraço