12 de dezembro de 2017

Antigamente (142)

“Casa Bancária José Augusto Dias, Filho & C.ª”, na Praça Almeida Garrett no Porto

“Hotel Ribeiro”, em Vilar de Veiga, nas “Termas do Gerez

Orquestra de animatógrafo, para acompanhamento de filmes mudos

Sucursal do jornal “O Seculo” e à sua esquerda (na foto) a “Tabacaria Monaco”, na Praça D. Pedro IV (Rossio)

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Arquivo Municipal do Porto

10 de dezembro de 2017

Parceria António Maria Pereira

Em 18 de Agosto de 1848, António Maria Pereira (1824-1880) fundava na Rua Augusta, em Lisboa, a “Livraria de António Maria Pereira - Editor”, ou abreviadamente “Livraria Pereira”, actual “Parceria António Maria Pereira, Livraria Editora, Lda.”, a casa editora mais antiga do país.

“Parceria António Maria Pereira” no edifício a seguir ao representante das máquinas de escrever “Underwood”

“Parceria A. M. Pereira, Lda.” já depois da renovação da sua loja

António Maria Pereira,  era, até então, um desconhecido livreiro e encadernador, de 23 anos de idade que tinha sido aprendiz do ofício na “Casa dos Vinte e Quatro”, uma Corporação extinta em 7 de Maio de 1834 por D. Pedro IV, e depois caixeiro na “Casa Marques”. A primeira obra editada pela “Livraria A.M. Pereira Editora” foi o romance histórico “O Mestre de Calatrava” de Aires Pinto de Souza e Menezes, numa edição de 300 exemplares, custando 7$200 réis cada.

António Maria Pereira (1824-1880)

Por morte do fundador, em 1880, sucede seu filho com o mesmo nome, António Maria Pereira, que muda o nome da “Livraria A.M. Pereira Editora” para “Parceria António Maria Pereira”, já instalada no número 52 da Rua Augusta. Nascido em Lisboa, em 1857, faleceu a 27 de Junho de 1898.

António Maria Pereira (1857-1898)

18 de Novembro de 1894                                                        9 de Dezembro de 1894

                   

1894

17 de Fevereiro de 1895

1895

 

A seguir transcrevo grande parte dum artigo da Revista “Occidente” de 20 de Agosto de 1898, a propósito da sua morte, e que é elucidativo da gerência e actividade desta livraria:

«A sua actividade e amor ao trabalho aproveitaram a muitos, porque António Maria Pereira soube dar desenvolvimento á sua industria, animando não só muitos auctores, que sem o seu auxílio não poderiam, ver as suas obras publicadas, mas dando aprecialvel impulso ás artes graphicas com as innumeras edições que sahiam da sua casa.
Pode dizer-se de Antonio Maria Pereira que lhe nasceram os dentes na livraria; e nasceram, porque quem escreve estas linhas, conheceu-o creança na loja de seu pae, livreiro tambem, que deixou a seu filho o nome e as tradições honradas do seu commercio. (...)
Da grande collecção de obras originaes e traduzidas publicadas por Antonio Maria Pereira poucas se recommendam pelo valor literario, e contudo algumas edições são aprimoradas, o que mostra a boa vontade do editor. E que cuidados lhe mereciam as edições que, quasi diariamente, elle dava a lume.
Sentado á sua secretaria horas e horas por dia e noite, via todas as provas typographicas, além da correspondencia diaria de sua casa, a que dava o devido expediente. Depois a contabilidade, os reclamos, os annuncios, as conferencias com os auctores, as propostas, os pretendentes, um cem numero de cousas, tudo a sobrecarregal-o com trabalho, impossivel para um homem só, e tanto mais para elle, que era fraco, e a quem a anemia, consequencia da vida sedentaria, ia minando lentamente.
As publicações periodicas que tentou, consumiram-lhe boa parte das forças; porque estas edições são as que mais cançam um editor pela preocupação constante que lhe impõem. A Revista Illustrada e o Branco e Negro que publicou, aquella tres annos e este dois, não só lhe deram prejuizo pecuniario, senão que o fatigaram extraordinariamente.»

                                               1892                                                                                           1896

 

1896

                                   1886                                                             1899                                                   1900

  

Editando os melhores escritores da época, a par de literatura popular, a “Parceria António Maria Pereira” torna-se uma importante editora e a partir da administração deste segundo António Maria Pereira, considerado "um homem de letras", segundo Eça de Queiroz, chegando mesmo a escrever algumas obras sob pseudónimo.

Por morte deste, suceder-lhe-ia o terceiro António Maria Pereira, homónimo dos seus antepassados, e em 1909 a revista “Commercio de Livros”, de Manuel Figueiredo dos Santos Gil, anuncia:

«A Parceria António Maria Pereira encetou ha annos a Nova Colecção Pereira de volumes in-16 de 190 paginas a 5O réis! E o cumulo da barateza. Fundada em 1848, é uma das casas que mais tem enriquecido o mercado livreiro. Á Exposição Nacional  do Rio de Janeiro de 1908 enviou 600 volumes todos editados pela sua casa. Uma das ultimas publicações da Parceria é a edição popular do genial romancista Camillo Castello Branco em volumes in-8. de 200 a 300 paginas, bom papel, typo elze- vier, ao preço de 200 réis em brochura.»

                                               1896                                                                                           1900

 

                                       1909                                                                                 1910

      

                                                                                            1910

  

             

                           1910                                                       1912                                                            1913

  

Postal de 1905

 

Entretanto, a crise provocada pela 2ª Guerra Mundial entre 1939 e 1945, viria a afectar muito o negócio de livreiro e editorial. A casa vai praticamente à falência. Podemos registar, contudo, ter sido o único editor de Fernando Pessoa, em vida, tendo editado “A Mensagem”, livro destinado a um concurso no “SPN-Secretariado de Propaganda Nacional”. Em 1943, a “Parceria António Maria Pereira” edita a primeira edição da obra “Peregrinações em Lisboa” de Norberto de Araújo, com a direcção artística de Martins Barata.

                                    1951                                                                                        1953

 

Curiosamente na primeira direcção da “Associação dos Livreiros de Lisboa”, fundada em 13 de Fevereiro de 1924,  o lugar secretário da direcção foi atribuído à “Parceria António Maria Pereira”. Como, aliás, viria a suceder em 1927, quando estará entre os livreiros fundadores da “Associação de Classe dos Livreiros de Portugal”. Foi esta Associação que, em 29 de Maio de 1931, promove a primeira “Feira do Livro” de Lisboa, com a designação de “Semana do Livro”

 

Por ocasião do I centenário da “Parceria António Maria Pereira, Lda.”, em 18 de Agosto de 1948, o jornal “Diario de Lisbôa” noticiava:

«A Parceria Antonio Maria Pereira completa hoje os seus cem anos de existencia. Cem anos dedicados ao exercício e á propaganda do livro, sempre no mesmo local da Rua Augusta, onde ainda hoje "fazem sala" muitos dos nossos escritores e outras pessoas do meio.
O actual Antonio Maria Pereira, terceiro da dinastia do mesmo nome e neto do fundador, desfruta justamente de muita estima, não só como comerciante mas como cidadão. É hoje um dos componentes da vereação lisboeta.
A Associação Comercial tomou a iniciativa de uma sessão solene, que se realizará esta tarde, durante a qual será entregue á Parceria o diploma das casas centenárias de Lisboa. Á noite, haverá um jantar, no Imperio, promovido por uma comissão de livreiros, para homenagear o seu colega que actualmente dirige aquele estabelecimento centenario.»

Com a crise, a má gestão agudizados pelos conflitos laborais surgidos após o 25 de Abril de 1974, é mudada a sua denominação para “Livraria do Arco” e rápidamente se extingue. O Dr. António Maria Pereira (1924-2009), filho do último administrador da Parceria, político, advogado e sócio fundador da maior sociedade de advogados de Portugal, a “Sociedade de Advogados PLMJ - A.M.Pereira, Sáragga Leal, Oliveira Martins, Júdice e Associados”, refunda, no ano 2000, a casa editora dos seus antepassados, a “Parceria A.M. Pereira”.

Com o seu falecimento em 28 de Janeiro de 2009, sucede-lhe na gestão da empresa sua irmã, D. Antónia Maria Pereira, nessa altura com instalações na Rua da Estrela, 47, no Bairro da Lapa, em Lisboa. Manteve-se na gerência da empresa até 2012, altura em que a empresa é adquirida por Jorge Ramos, mantendo a “Parceria António Maria Pereira, Livraria Editora Lda.”, activa até aos aos dias de hoje, sem loja aberta, mas com uma Livraria online (via internet), com sede na Rua Padre Américo, 23 G em Lisboa.

 

  

Fotos in:  Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital, Ruas de Lisboa com Alguma História, Parceria António Maria Pereira

7 de dezembro de 2017

Freire Gravador

A famosa casa de carimbos e chapas esmaltadas, litografia, tipografia, etc. “Freire Gravador”, localizada na Rua do Ouro com a Rua da Victória, abriu as suas portas em 1882. Era seu proprietário Aires Lourenço Costa Freire, natural de Penela, distrito de Coimbra.

 

Aires Lourenço da Costa Freire

1887

Em 8 de Abril de 1894, o jornal “A Folha de Lisboa” escrevia acerca deste estabelecimento:

«Conhecidissimo em todo o paiz, ultramar e estrangeiro - nomeadamente Africa e Brazil - preferidos em todas as adjudicações a que se teem apresentado, teem sido falados em toda a parte e elogiados, em differentes epocas, pelos primeiros jornaes portuguezes, que lhes dedicam os maiores encomios pelo mundo como estão montados e pela perfeição dos seus trabalhos.
Podem citar-se, entre outros muitos, o Diario de Notícias, o Século, Diario Popular, a Folha do Povo, as Novidades, o Primeiro de Janeiro, o Conimbricense, o Covilhanense, o Districto de Faro, o Progresso do Algarve que teem espalhado pelo mundo inteiro a fama dos Grandes ateliers Freire-Gravador.»
Os grandes ateliers de gravura, typographia e estampagem de luxo Freire-Gravador, que acabamos de visitar, deixaram-nos maravilhados, porque são indubitavelmente os primeiros e unicos d'este genero no nosso paiz.
São dignas de verem-se as secções de gravuras de armas e brazões e de sellos em branco para tinta, papel e lacre; a secção de trabalhos para o commercio, chancellas com assignaturas, carimbos de metal em todos os generos; a secção de carimbos de borracha com todos os desenhos, que diariamente fabricam em grande quantidade; a secção typographica, em que se faz toda a qualidade de trabalhos, desde as impressões commerciaes, como bilhetes, facturas, memoranduns, até ás mais superiores como impressões de luxo, chromo-typographicas, etc. para o que tem as melhores machinas e material; a secção de gravura em madeira, onde se executam todos os trabalhos n'este genero; a secção de gravuras e estampagem de brazões e monogrammas a côres, oiro e prata, trabalhos estes de grande merecimento e luxo, para o que teem os papeis das melhores qualidades, exclusivamente destinados a estes trabalhos.
Estes ateliers estabelecidos ha poucos annos ainda, teem ja um pessoal, composto dos melhores artistas nacionaes e estrangeiros, em numero superior ao de todos os gravadores da capital.»

1932

Apesar do seu apelido Freire ser o mesmo de outro gravador famoso de Lisboa, Francisco de Borja Freire (1790-1869) que trabalhou para a Casa da Moeda, muitos anos e que foi responsável pelas gravuras de muitos selos da época, ao que se saiba não era de sua família. Borja Freire, solteiro, possuidor de apreciável fortuna, por sua morte em 12 de Janeiro de 1869,deixou parte dela a parentes e amigos e o restante a estabelecimentos de caridade e assistência.

1891

                                             1898                                                                                          1900

 

A casa “Freire Gravador”, rapidamente se tornou famosa a nível nacional, tendo além da sua loja na Rua do Ouro, um armazém na Calçada de S. Vicente e uma fábrica no Beco dos Clérigos, no bairro de Alfama em Lisboa. Mais tarde, muda a sua fábrica para estrada Paço de Arcos-Cacém.

Fotos da loja e fábrica de “Freire Gravador”, em 3 de Março de 1932

 

Aires Costa Freire detentor de grande fortuna, foi benemérito tendo construído um bairro para os seus trabalhadores no Dafundo, Algés, e cujas habitações ao fim de uns anos reverteriam para os próprios.

                                     1905                                                                                        1911

 

1923

 

1924

No anúncio seguinte, de 1934, consegue-se vislumbrar o seguinte texto:

«Casa fundada à 52 anos, pelo proprietario, mestre dos gravadores, o qual nunca teve uma mancha na sua vida honrada, tendo estudado, e seus filhos, nas 1as. cidades da Europa, as artes e comércio da sua casa, unica em Portugal, premiada com 3 medalhas de ouro, empregando nos seus fabricos, 5, Calçada de S. Vicente e Rua do Ouro 158-160, 16 máquinas a trabalhar a electricidade entre estas uma que vale 40.000$00»

1934

1947

Não consegui apurar quando o “Freire Gravador”, já pertença da firma “A. L. Freire & Filhos, Lda.” (desde os anos 40 do século XX) encerrou definitivamente, mas creio nos finais dos anos 60 do século XX. Em 1998 o seu espaço era ocupado pela firma “Fétal - Confecções” que tinha substituído a livraria “Centro do Livro Brasileiro”. Actualmente é ocupado pela rede de lojas “Maria Maxlote”.

Em 1932 a firma “E.E. de Sousa & Silva” afirma ser a primeira casa de carimbos em Portugal e fundada em 1819

Em Penela, terra natal de Aires Lourenço Costa Freire, fundador da casa “Freire Cravador”, foi construído um imóvel onde foi criada a “Casa de Chá Freire Gravador”, após aprovação camarária de 4 de janeiro de 2010, em memória deste benemérito e ilustre da terra.

Cartaz de um evento na “Casa de Chá Freire Gravador”, em 2016

Entretanto, em 1929, Aníbal Freire, filho de Aires Costa Freire, abriria uma loja de vão-de-escada, na Rua Nova do Almada, de seu nome “Aníbal Gravador”, empregando Acácio Alves. Em 1972 Aníbal Freire passa esta loja a Acácio Alves, que por sua vez a passa a sua filha, Maria Manuela Pinto, em 1983, a actual proprietária. Nos últimos anos, desde que o prédio integrou um Hostel, a lojista tem mais movimento como companhia.

Onde estão as três pessoas , a entrada do edifício onde se instalou a loja de vão-de-escada “Aníbal Gravador”

Loja “Aníbal Gravador”, na actualidade

 

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital, Arquivo Nacional da Torre do Tombo