13 de novembro de 2016

Café Nicola

Sabe-se que o, então, “Botequim do Nicola", propriedade de Nicolau Breteiro, e localizado no Rocio, em Lisboa, já existia em 1787. É referenciado na “Gazeta de Lisboa” em 1787, que viria a mencionar uma «liquidação da loja grande de bebidas do Nicola», em Julho de 1794.

Botequim “Nicola” e “Botequim das Parras”  (lojas com toldos) sendo este último o toldo mais à direita na foto

Ocupava a loja do Rocio nos antigos números 81 e 82, mais tarde números 24 e 25, loja, que depois do encerramento do Nicola em 1834, viria a instalar-se o Silva livreiro com a “Livraria de Francisco Arthur da Silva”, depois de anteriormente ter sido trespassada ao sombreireiro Dias. Viria a ocupar também o local a casa de modas “Sallon de la Mode” de Francisco Salles Ramos. No “Botequim do Nicola” vendiam-se cafés e refrescos e era um local frequentado por jacobinos e maçónicos. O bilhar do botequim ocupava a loja anterior com os números 22 e 23, que em 1899 era ocupada pelo “Depósito de Vidros da Marinha Grande”. O botequim e a sala de bilhares comunicavam por um corredor ao fundo dos mesmos.
«Contou-nos o fallecido livreiro Silva, que, durante muitos annos, conservara a antiga pintura do tecto do botequim, a qual era em grinaldas, tendo ao centro uma figura a oleo.
Ao Nicola succedeu, em 1834, o sombreiro Dias, o qual trespassou a loja a um irmão do Silva em 1837. Este botequim foi estabelecido pelo italiano Nicola.» Tinop in “Lisboa d’Outros Tempos”

Ribeiro Guimarães relata no "Summario de Varia Historia", que, antes de 1755, houve um italiano Nicola, que foi o primeiro fabricante de velas de cebo de Lisboa, e cuja oficina se situava junto ao Pateo das Comedias. Porém não diz se o Nicola do botequim era descendente deste. Em 1825 este botequim já não pertencia ao Nicolau Breteiro, mas a Rosa Maria d'Athayde, a quem tinha trespassado o estabelecimento.

«O Nicola tinha muito boa neve, cuja venda principiava d'ordinario, em fins de Maio. A Gazeta de 29 d'Outubro de 1829 annunciava o trespasse ou o arrendamento d'esta loja de bebidas, com o seu bilhar e jogos de gamão, e quem a desejasse fosse á rua do Loreto, 72, onde se tratava. (...)
Em 1809 existia na praça do Rocio um botequim chamado Nicola pequeno. Era em numero 28, no quarteirão dos frades de S. Domingos. Pertencia ao genovez Nicolau Ventura, que foi preso, assim como os seus dois caixeiros tambem genovezes, por terem chuços escondidos, e uma nota dos movimentos das tropas inglezas e portuguezas.» Tinop in “Lisboa d’Outros Tempos”

Ao lado do botequim do Nicola encontrava-se o “Botequim das Parras”, desde 1803, do José Pedro da Silva, vulgo o José Pedro das Luminarias - assim chamado por iluminar a frontaria do botequim nos dias de gala nacional - que tinha sido administrador do botequim do Nicola. Entre os dois botequins era a porta da escada do prédio. O “Botequim das Parras” era assim chamado pelo facto da pintura dos frisos dos tectos do interior reproduzia cachos de uvas e folhas de videira. Dizia-se, mais tarde, que nas paredes desse botequim havia muitos versos nas paredes, escritos a lápis, por Bocage.

A foto seguinte creio ser de 1856 e da autoria de C.P Symonds.

Ex- Botequim “Nicola” (terceiro toldo a contar da esquerda) e o “Botequim das Parras” (toldo mais à direita na foto)

O botequim “Nicola” deve a sua fama ao poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805), natural de Setúbal, que o frequentava no século XIX. No “Nicola”, Bocage amaldiçoou o seu inimigo ex-padre Agostinho de Macedo e aí ditou a um amigo “Pena de Talião”, uma sátira ao mesmo. Terá sido, também aqui, que Nuno Pato Moniz redigiu o poema cómico “Agostinheida”, ridicularizando o mesmo padre. Bocage declamava neste estabelecimento sonetos improvisados, atraindo ao botequim uma plêiade de intelectuais e políticos. Era um local de tertúlia. Mesmo depois da morte de Bocage, o seu grupo de amigos continuou a frequentar o botequim e aí se prosseguiram as tertúlias. Tinha um empregado, José Pedro da Silva, que ajudava em tudo o que podia os poetas e muito valeu a Bocage em horas de necessidade, tendo inclusivamente sido este benfeitor que pagou o funeral de Bocage.

O botequim “Nicola” em 1834, é obrigado a encerrar devido à pressão política que se fazia sentir, e aos constantes confrontos dos seus frequentadores com a polícia.

Joaquim Albuquerque, antigo sócio do Café Chave d’Ouro”, adquire o espaço e transforma-o no novo “Nicola”. O agora Café "Nicola" reabria em 2 de Outubro de 1929, depois de encerrado 95 anos antes. Com uma nova fachada desenhada pelo arquitecto Manuel Norte Júnior (1878-1962) - que também foi responsável pelo projecto dos interiores em estilo neoclássico - foram rasgadas paredes e fundos, rebaixado o solo e subindo o tecto e «pôs de novo o gracioso nome, sonoro e arcadico, na sua tabuleta do Rossio pombalino, a entregar-se ao modernismo.» in “Diario de Lisboa”.

Notícia e imagem no dia de inauguração e 2 de Outubro de 1929

 

Nova fachada do “Nicola” da autoria de Manuel Norte Júnior

No interior, foram colocadas telas da autoria do pintor Fernando dos Santos (1892-1965) e e uma estátua de Bocage, esculpida por Marcelino Norte d’Almeida. 

Ao fim de seis anos, e em 23 de Dezembro de 1935, reabre depois de novas e profundas obras de remodelação e modernização, a cargo do arquitecto Raúl Francisco Tojal (1899-1969). São colocadas novas sete telas do pintor Fernando dos Santos (1892-1965) que retratam os passos da vida literária de Bocage. Todas as figuras da época sobrevivem nas pinturas «de um suave tom de artista sério».

«Os aços pulidos, os materiais cromados, os cristais verdadeiros, os sistemas caprichosos de iluminação, os pavimentos modelos de bom gosto, o mobiliario modernissimo - conjunto que faz a peça de arte - lá estão, afirmando o êxito duma iniciativa arrojada, exemplo consolador num tempo de egoismos - e testemunhando o merito do arquitecto triunfador e dos engenheiros e artistas seus colaboradores.» in “Diario de Lisboa”.

“Nicola” é, também, nome de lote de café, desde 1935. Foi a família Albuquerque que patenteou a marca e que pôs Bocage a ilustrar os pacotes, mas esta área de negócio já nada tem a ver com o estabelecimento da baixa lisboeta.

Julho de 1936

“Canção do Nicola” no filme “Bocage” realizado por Leitão de Barros em 1936

O interior, estilo «art-déco» foi enriquecido com novas telas executadas pelo pintor Fernando dos Santos (1892-1965), em substituição das anteriores também de sua autoria. As telas contavam anedotas e reproduziam passos de vida de esturdio de génio poético e de revoltado das letras e da política que foi Bocage, uma das figuras mais notáveis das letras portuguesas no século em que viveu.

                    “Cara com semelhanças de besbelho (…)”                           “Olha Marilia as flautas dos pastores (…) “

 

Célebre se tornou a quadra de Bocage, ao ser interpelado pela polícia:

Eu sou Bocage
venho do Nicola
vou p’ro outro mundo
se dispara a pistola.

“Eu Sou Bocage, venho do café Nicola (…)”

1956

1975

O Café “Nicola” actualmente. Frente e traseiras para a Rua 1º de Dezembro

 

 

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Digital, Biblioteca Nacional Digital

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