20 de setembro de 2015

Paquete “Uíge”

O paquete “Uíge”, propriedade da Companhia Colonial de Navegação” (1922-1974), foi o 52º navio a entrar ao serviço pelo “Despacho 100”, instituído em 10 de Agosto de 1945 pelo, então, Ministro da Marinha Almirante Américo Thomaz. Foi construído no estaleiro da “Sociètè Anonyme John Cockerill”, em Hoboken, na Bélgica e projectado pelo engenheiro construtor naval Acúrcio de Araújo.

O navio saiu a 8 de Julho de 1954 para Lisboa, onde entrou pela primeira vez a 11 de Julho de 1954, sendo visitado pelo Ministro da Marinha Almirante Américo Thomaz à chegada, tendo a administração da CCN oferecido a bordo do paquete um banquete em homenagem ao Ministro da Marinha. Seria visitado pelo Presidente da República, General Craveiro Lopes apenas a 29 de Julho,

Visita do Presidente da República, general Craveiro Lopes,  com o Ministro da Marinha Almirante Américo Thomaz

 

O paquete “Uíge” teve a quilha assente a 19 de Dezembro de 1952, procedendo-se ao seu lançamento à água em 23 de Janeiro de 1954, tendo como madrinha, Dª. Maria Augusta do Rosário Bustorff Silva, filha do presidente da Assembleia-Geral da CCN, Dr. Bustorf Silva. O “Uíge” fez as experiências contratuais no Mar do Norte no final de Junho de 1954, atingindo 17.5 nós nas provas de velocidade e regressou ao estaleiro a 1 de Julho. Seria definitivamente  entregue à “Companhia Colonial de Navegação” em Antuérpia a 3 de Julho de 1954, tendo como primeiro comandante o capitão Júlio Moniz da Maia.

“Uíge” nas provas de mar, em Julho de 1954

No dia da sua chegada a Portugal, 11 de Julho de 1954 o jornal “Diario de Lisbôa” escrevia:

«Todas as dependências produziram excelente impressão aos visitantes, porque revelam um navio com todas as comodidades, desde o ar refrigerado ás magnifícas cabines e aos confortáveis e acolhedores salões. A decoração mostra muito bom gosto, sem modernismos que chocam, antes pelo contrário, apresenta motivos dignos do melhor louvor, como, por exemplo, o "panneau" de um grande pintor belga representando as despedidas dos flamengos ao duque de Borgonha e a sua mulher, a infanta Isabel de Portugal, quando aqueles se deslocaram para trabalhar em territórios portugueses, onde eram precisos braços - tela que tem a categoria de preciosidade de museu.
As dependências da 3ª classe merecem, igualmente, referência especial, desde os camarotes ao salão de jantar, pois apresentam condições de conforto a que não estão acostumados os passageiros que frequentam aquela classe.»

  

          

 

O navio deu início à sua actividade comercial a 3 de Agosto do mesmo ano, saindo de Lisboa para Leixões a 4 de Agosto. Após escala prévia e breve em Leixões, o “Uíge” largou de Lisboa a 7 de Agosto de 1954 para a sua viagem inaugural a Luanda, Lobito, Moçâmedes, São Tomé e Funchal, regressando a Lisboa a 14 de Setembro. Nesta primeira viagem, seguiu a bordo o presidente do Conselho de Administração da CCN Bernardino Correia.

1954 Pub (06-08) 

Partida para a viagem inaugural do paquete “Uíge”, em 7 de Agosto de 1954

 

“Uíge” na inauguração do novo cais do porto de Moçâmedes, em 28 de Maio de 1957

 

Em Agosto de 1956 estava concluída a renovação da Marinha de Comércio, promovida pelo “Despacho 100”, de 1945, com entrega do paquete “Niassa”, em 4 de Agosto de 1955, também construído nos estaleiros da “Sociètè Anonyme John Cockerill”. A frota de navios de passageiros portugueses era composta por 22 paquetes, com uma arqueação bruta total de 167.008 toneladas. Os maiores navios pertenciam à Companhia Colonial de Navegação” que dispunha dos paquetes “Santa Maria” (1953-1973), “Vera Cruz” (1952-1973), “Pátria” (1947-1973) “Império”  (1948-1974) e “Uíge” . Em 1961 seriam entregues os últimos grandes paquetes: o “Infante Dom Henrique”  (1961-1977) da Companhia Colonial de Navegação” (1922-1974) e o “Príncipe Perfeito” (1961-1976) da “Companhia Nacional de Navegação” (1918-1979).

Pela portaria nº 18.530, de 15 de Junho de 1961, o “Uíge” viria a ser fretado ao ministério do Exército a partir de 13 de Junho de 1961 para transporte de tropas e material de guerra, em resultado do que saiu de Lisboa a 15 de Junho com tropas, seguindo directamente para Luanda, tendo no regresso operado em regime de viagem comercial. Este paquete foi um navio particularmente bem sucedido na frota da CCN, aliando uma grande capacidade de carga e passageiros à economia de exploração.

O “Uíge” no porto de Bissau em 28 de Outubro de 1969 descarregando material de guerra

Tropa de regresso a Lisboa com o “Uíge” atracado no cais da Rocha do Conde d’Óbidos

O transporte de tropas em regime de fretamento ao ministério do Exército viria a ser incrementado a partir de 1964 com o alastramento da guerra à Guiné. A viagem nº 79 do UIGE, que decorreu de 4 a 18 de Março de 1964 foi a primeira de 30 viagens de transporte de tropas para Bissau.

Paquete “Uíge” em 9 de Setembro de 1972

Transferido para a “CTM - Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos” (1974-1985) em 4 de Fevereiro de 1974, na sequência da fusão da Companhia Colonial de Navegação” (1922-1974) com a “Empresa Insulana de Navegação” (1871-1974), o paquete “Uíge” fez mais 4 viagens às Ilhas, todas em 1974, concentrando-se de seguida nas últimas viagens a África.  Em Junho de 1975 fez a única viagem a Moçambique (fretado ao ministério do Exército, quando da independência daquele território), e a 23 de Novembro de 1975 completou em Lisboa a última viagem a Angola (que foi igualmente a última como transporte de tropas, fretamento ao ministério do Exército). Faria, ainda, 3 viagens a Cabo Verde fretado ao Estado para repatriamento de cidadãos cabo-verdianos.

O paquete “Uíge” já com as cores da “CTM - Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos”

O paquete “Uíge” seria imobilizado em Lisboa a 27 de Janeiro de 1976, passando os três anos seguintes fundeado no “Mar da Palha”, em Lisboa. Vendido a 29 de Novembro de 1978 à firma “Baptista & Irmãos, Lda.”, por 13.000 contos, tendo sido registado em Lisboa a 16 de Março de 1979 como propriedade de “Baptista & Irmãos, Lda.” para efeito de propriedade e posterior demolição. Foi desmantelado no Cais Novo de Alhos Vedros com início dos trabalhos em  Março de 1979 e conclusão em 1980. Registo cancelado em Lisboa a 9 de Outubro de 1980.

Paquete “Uíge” no “Mar da Palha”

Características do paquete “Uíge” (1954-1979):

Tipo: Navio de passageiros a motor, construído de aço, em 1952-1954
Nº  de registo: Capitania do Porto de Lisboa em 30 de Julho de 1954 com o número H 428
Indicativo de chamada: CSAN
Arqueação bruta: 10.001 toneladas; Arqueação líquida: 6.830 toneladas
Capacidade de carga: 5 porões para 8.719 m3 de carga geral, incluindo 450 m3 de carga frigorífica. Comprimento ff.: 145,55 m
Comprimento pp.: 137,36 m
Boca: 19,15 m
Pontal: 11,14 m
Calado: 8,02 m.
Máquina: 1 motor diesel “Burmeister & Wain” nº. 6410, tipo 874VTF-140, de 8 cilindros a 2 tempos, com 6.850 bhp a 125 rpm, 1 hélice.
Velocidade de cruzeiro: 16 nós, com consumo de 20 T de Diesel oil / 24 horas
Passageiros: 571 (78 em 1ª classe e 493 em classe turística)
Tripulantes: 150
Custo: 194.000 contos
Ano de abate:1979
Armador: Companhia Colonial de Navegação” (1922-1974) - Lisboa

Bibliografia: foram também consultados o “Blogue dos Navios e do Mar” e o livro: «Paquetes Portugueses», de Luís Miguel Correia, Edições Inapa, Lisboa, 1992.

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Blog dos Navios e do Mar, Alernavios

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