12 de julho de 2015

Casino Estoril

O primeiro “Casino Estoril”, promovido por Fausto de Figueiredo, e projectado pelo arquitecto Raoul Jourde, em estilo Art Déco - o mesmo que tinha projectado o Estoril Palácio Hotel inaugurado em 30 de Agosto de 1930 -  foi inaugurado em 15 de Agosto de 1931.

Desde o final do século XIX que os “Estoris” estavam associados à prática do jogo. Em 1899, existiam no Monte Estoril três Casinos - o “Casino do Mont’Estoril”, o “Club Internacional” e o Grande Casino Internacional - e, desde 1914, estava em execução o plano da “Sociedade Estoril” para a criação de um novo centro de Turismo, mas cuja conclusão diversas dificuldades de ordem financeira tinham vindo a adiar. Na verdade, do vasto programa de obras anunciado na brochura ilustrada apresentada à Câmara de Deputados mais de dez anos antes, apenas o edifício do “Estabelecimento Termal” estava concluído. As fundações do “Casino Estoril” e do Estoril Palácio Hotel, já levantadas, não passavam, nesta altura, de velhas ruínas.

                               “Club Internacional”                                                               “Casino do Mont’Estoril”

  

Grande Casino Internacional”, e ao fundo o “Hotel Miramar”

Apesar de a inauguração ter acontecido apenas em 1931, a primeira pedra foi lançada em 16 de Janeiro de 1916, com a presença do Presidente da República Dr. Bernardino Machado, apesar de a concessão datar de 1927. Entretanto, Fausto de Figueiredo garantiu a electrificação da linha de caminhos-de-ferro até ao Estoril, onde ambicionava que fosse concluída a viagem do “Sud Express”, que fazia a ligação de comboio de Lisboa a Paris. Nunca chegou a acontecer.

Lançamento da primeira pedra em 16 de Janeiro de 1916

Projecto inicial para o “Casino Estoril”

Fausto de Figueiredo tinham um sonho. Tornar o Estoril a Riviera portuguesa, um lugar de culto para o turismo internacional de luxo, atraindo a fina flor mundial. Em 1930, pelas mãos deste empresário é inaugurado oEstoril Palácio  Hotel”, que encerra nas suas paredes importantes capítulos da história portuguesa, mas também mundial. «O Príncipe e a Princesa do Japão encontram-se entre os primeiros hóspedes do Hotel, que durante a sua lua-de-mel ficaram alojados numa das sumptuosas suites». Foi durante a II Guerra Mundial que muitas histórias ficaram contadas no “Estoril Palácio Hotel”, onde algumas famílias reais se instalaram na tentativa de fugir à II Grande Guerra, em que Portugal se assumiu como neutral.

Fausto Cardoso de Figueiredo (1880-1950)

Projecto definitivo para o ‘Casino Estoril‘, pelo arquitecto Raoul Jourde

Zona do Estoril antes de ser transformada, com o primeiro “Hotel de Paris” junto à primitiva “Estação do Estoril”

   

“Casino Estoril” em construção, com os “Estoril Palácio Hotel”,  e “Hotel do Parque” à direita na foto

Inaugurado o Hotel de luxo, faltava o Casino que abriria portas um ano mais tarde, tendo o mobiliário sido fornecido pelos Armazéns Nascimento da cidade do Porto. Na noite de inauguração a 15 de Agosto de 1931, depois do banquete, lia-se no texto publicado pelo “Diario de Notícias” : «Tarde, perto da meia-noite, principiou o concerto, na sala de espectaculo. A orquestra era dirigida por Paulo Manso. Erico Braga recitou versos de João Penha e Júlio Dantas. Emília de Oliveira declamou Matos Sequeira. Cantou Manuela Pinto Basto. E a “Companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro” levou à cena a peça “Serão Romântico”, de Baltazar Coelho».

«Muita gente, que não cabe na sala de espectaculo, enche os restantes salões do Casino. Anseia-se pelo baile. E o baile principia tarde. Mas dança-se com extraordinária animação. E assim continuará até alta madrugada, que a noite é de festa, uma concorridíssima e brilhante festa de caridade, em que estiveram no Casino Estoril milhares e milhares de pessoas.»

 Anúncio da inauguração, em 15 de Agosto de 1931

A propósito da abertura do “Casino Estoril” a revista “Ilustração” escrevia:

«Agora para quem vive em Lisboa, torna-se facílimo ir ao estrangeiro, ou, pelo menos, ter a ilusão de que mudou o ambiente. Basta tomar o combóio eléctrico do Estoril e desembarcar nesta praia moderna, civilizada, com o seu parque, o seu Palace monumental, á la page, a sua piscina, os seus bars, os seus “pijamas”, a sua vida internacional, movimentada, brilhante, bem diferente da vida tranquila e neurasténica de Lisboa ...
O novo Casino, inaugurado há pouco tempo, veio completar êsse ambiente. É um edifício sumptuoso, decorado com um bom gôsto europeu e um sentido moderno até agora desconhecido em Portugal.»

    

Além do Jogo, o “Casino Estoril” assegurava chás dançantes, concertos, sessões de cinema e festas cíclicas associadas ao final do ano (ceias de Natal e bailes cotillon no reveillon) e Carnaval.

 

Wonder-Bar

 

Este espaço acolheria, a 13 de Setembro, a “Eleição da Rainha das Costureiras de Portugal”, iniciativa do “Diario de Lisbôa” e, no mesmo mês, os delegados do “Congresso da Crítica”. Em Setembro de 1932, teria lugar o “1º Salão do Estoril” graças a Augusto Pina e à “Sociedade Nacional de Belas Artes”: Entre telas e esculturas, contavam-se criadores como Carlos Reis, Roque Gameiro, Dórdio Gomes, Jorge Barradas, Carlos Bonvalot e Fred Kradolfer. Ciente do sucesso do “Casino Estoril”, a direcção criaria um dancing no terraço, o que atrairia clientes nas noites de Verão.

Publicidade no jornal “Diario de Lisbôa” em 20 de Agosto de 1931

 

1934

A nível musical, a oferta ao frequentador do espaço polivalente em causa era igualmente variado, como se depreende: apresentação de músicos americanos de Jazz como Willie Lewis; concertos ao jantar tocados pela orquestra do Maestro Fabre; concertos do trio Paulo Manso; actuações de tenores como o russo Constantin Sadko e barítonos como o brasileiro Paulo Amorim; «Trio Beethoven» apresentado pelo Professor Viana da Mota.

Orquestra de Willie Lewis, em 1941

 

        

O “Casino Estoril “ manteve-se sob concessão da família Figueiredo até aos anos 50 do século XX. O Governo do Prof. Dr. António de Oliveira Salazar lançou, em 1958, um concurso para renovação da concessão do Casino. Nas condições para a atribuição de nova licença valorizava-se a construção de um novo hotel de cinco estrelas e de um novo casino. A família Figueiredo, achou que a concessão não lhe ia escapar, até porque já tinha o “Palácio Hotel”. E nem concorreu. Foram os únicos.

A concessão acabou por ir parar a José Teodoro dos Santos, com a alcunha do “Teodoro das Malas” um empresário que tinha começado do nada, com o negócio de malas, e que estava a fazer crescer o seu império. Fausto de Figueiredo já não viveu para presenciar esse momento. Morreu em 1950 na moradia “Pinho Manso”, no Estoril.

José Teodoro dos Santos

A “Sociedade Estoril-Sol”, de Teodoro dos Santos, criada por Teodoro dos Santos para a exploração do jogo, tomou conta do "velho" Casino a 1 de Julho de 1958, mas o novo espaço só viria a ser inaugurado 10 anos depois. O “Hotel Estoril Sol”, propriedade da mesma empresa,  abriria primeiro em Cascais, a 15 de Janeiro de 1965 .

“Hotel Estoril Sol”  inaugurado a 15 de Janeiro de 1965

O novo “Casino Estoril’”, inaugurado em 28 de Março de 1968, contou com a presença do Presidente da República Almirante Américo Thomaz, Teodoro dos Santos, Dr. Manuel Teles e Jorge Teodoro dos Santos administradores da “Sociedade Estoril-Sol”

 

 

Projectado pelos arquitectos Felipe Nobre de Figueiredo e José Almeida Segurado, o projecto de decoração de interiores ficou a cargo de Daciano da Costa e José Espinho (“Móveis Olaio”), tendo este último desenhado todo o mobiliário. A sua decoração foi enriquecida com peças escultóricas de Lagoa Henriques, Jorge Vieira e António Henriques, e com  três tapeçarias de Querubim Lapa, Maria Keil e e Fred Kradolfer.

Hall de Entrada

Salas de estar

 

                                     Salas de Jogo                                                                     Salão Restaurante

 

Cinema do “Casino Estoril” decorado por Daciano Costa

Brochuras de 1968

 

Stanley Ho, empresário macaense ligado ao jogo, tomou, entretanto, conta da “Sociedade Estoril Sol” e ganhou nova concessão em 1985 por 20 anos, prazo que viria a ser prorrogado em 2001 por mais 15. Foi aí que a família Figueiredo tentou reivindicar o que outrora fora seu, contestando essa extensão da licença sem concurso público. Nada feito. Além de ficar com o Casino por mais 15 anos, Stanley Ho garantiu a exploração do “Casino de Lisboa”, inaugurado em 19 de Abril de 2006, no “Parque das Nações”.

O “Casino Estoril” é actualmente o maior e mais antigo casino da Europa. Conta com 2 bares de apoio directo aos jogos (‘Bar BlackJack’ e ‘Bar Play Garden’) e ainda o ‘D Lounge’, uma área ampla onde pode ouvir música pela banda residente ou mediante os convidados especiais, etc.

Em termos de restaurantes a oferta é forte. Tem ao seu dispor o magnífico ‘Salão Preto e Prata’, onde o requinte é a palavra predominante. Tem também o ‘Mandarim’, onde a carta conta com mais de 119 especialidades da região de Kuong Tong. De salientar ainda o Café S.Bento, Zeno Lounge e o Buffet In.

O casino Estoril apresenta um dos maiores leques de oferta em entretenimento e espectáculo. O Auditório apresenta sempre excelentes peças de teatro, o próprio “Salão Preto e Prata” alberga grandes sucessos nacionais e internacionais de teatro e o ‘D Lounge’ apresenta música e grandes bandas que actuam perto dos fãs. Destaque-se ainda a discoteca Jézebel, um espaço jovem e requintado, com música para aquelas noites mais longas.

 

 

O “Casino Estoril” apresenta cerca de 1000 ‘slot machines’ de última geração, onde poderá tentar a sua sorte com apostas mínimas a partir de um cêntimo. Em termos de jogos de mesa, o Casino coloca à disposição do jogador um leque bem recheado com todos os favoritos presentes: Blackjack, Roleta, Texas Hold’em, Caribbean Stud Poker, etc.

Em 2016 O “Casino Estoril” comemorou os 85 anos, com uma exposição no Hall do “Casino Estoril”, e a edição de um livro intitulado “1931 - 2016  85 Anos Casino Estoril”. A direcção da organização da exposição, Estoril Sol GPS, teve a gentileza de me enviar um exemplar deste livro . Aqui fica a sua capa.

fotos in: Hemeroteca Digital, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian

1 comentário:

Manuel Espinho (Sénior) disse...

Queria apenas referir que o decorador de interiores hoje denominado de arquitecto de interiores tanto do Casino na altura de Teodoro dos Santos ,assim como o Hotel Estoril Sol era meu pai (José Espinho)e o "designer" de todo o mobiliário que equipou os dois(Olaio) .Chamo a atenção que o nome da artista Maria Keil está incorrectamente escrito .É KEIL.O meu pai costumava chamar artistas nacionais para colaborarem com as suas obras as decorações que fazia como é o caso .de referir tambem que me lembre o artista Tomaz de Mello.Obrigado
Manuel Espinho