4 de fevereiro de 2015

Animatógrafo do Rossio

O "Salão Rocio", mais conhecido por "Animatographo do Rocio", fundado na Rua dos Sapateiros junto ao Arco do Bandeira. pelos irmãos Ernesto Cardoso Correia e Joaquim Cardoso Correia, foi inaugurado no dia 8 de Dezembro de 1907, com a longa metragem muda “A Aventureira”.  Propriedade da empresa "Correia & Correia", entretanto criada para o efeito pelos dois irmãos Correia, a sua construção orçou em dez contos de réis, soma  avultada para a época.

“Salão Rocio” ou “Animatographo do Rocio”

“Arco do Bandeira” visto pelo Rossio e pela Rua dos Sapateiros

 

Acerca do “Arco do Bandeira”, o olissipógrafo Norberto de Araújo no seu livro, "Peregrinações em Lisboa" Volume XII páginas 75 e 76 escrevia: «o prédio com seu arco e janelão, foi construido no final do século XVIII, quando a Praça pombalina ganhava tessitura de edificação urbana, por um capitalista Pires Bandeira, (...) no primeiro andar deste prédio, com entrada pela Rua dos Sapateiros (do Arco do Bandeira) e ocupado o salão onde se abre o janelão setecentista, fica o velho Grémio Lisbonense. (...) A propriedade pertence ao Marquês de Santa Iria, que a adquiriu ao Conde de Casal Ribeiro, a quem o magnifico prédio adviera por casamento com D. Emília Vanzeller». in blog “Ruas de Lisboa com Alguma História”.

Primeira referência publicitária ao “Animatographo do Rocio”, e no jornal “A Vanguarda” de 31 de Janeiro de 1908

No ano seguinte à sua abertura, em 1908 a empresa exploradora do “Animatographo do Rocio” , opta por um programa de espectáculos de variedades, construindo então um palco e contratando diversas cançonetistas espanholas.

Apesar de ter sido criado para a exibição cinematográfica, alguns anos depois da sua abertura, exibiria peças de Teatro, com um grupo infantil, dirigidos pelo consagrado actor João Silva. Recordo que este actor, entrou três filmes portugueses: “Aldeia da Roupa Branca” (1939), “O Pátio das Cantigas (1942) e, em 1943 no “Costa do Castelo” em que faria o papel de “pai Januário” padrinho da "Luizinha" (Milú).

Actor João Silva (à esq.), junto a Maria Olguim, António Silva e Curado Ribeiro numa cena do “Costa do Castelo” (1943)

Passadas umas quantas épocas teatrais o "Animatographo do Rocio" voltaria, em 1915 à sua vocação inicial, o cinema, ano em que foi dissolvida a companhia infantil de teatro.

1915

A fachada do cinema é das mais características, constituindo ainda hoje em Lisboa um dos raros exemplos do chamado estilo "Arte Nova".A este propósito Ergoni, pseudónimo que escondia, sem dúvida, alguém de inegável competência, escrevia no jornal "A República" de 29 de Junho de 1965 o seguinte:

«Este modesto salão possui um arranjo arquitectónico de fachada original, exemplo único universalmente conhecido. Como tal tem sido bastante cobiçado por centenas de estrangeiros que nos visitam, conhecedores do seu valor real na cotação da bolsa artística internacional. è uma relíquia de Arte que devia ser considerado monumento nacional, visto representar um documento inédito da Arte Nova, preciosidade dum valor histórico, que possui.(...)
Os relevos da ornamentação do animatógrafo, modelados caprichosamente, são executados em talha, na madeira rija e estão agora pintados de cor uniforme unicamente com o fim de conservação. Os azulejos que decoram a fachada formam duas tabelas policromadas ladeando a bilheteira e estão assinados por M.Queriol 1907; sabemos contudo que foram executados de colaboração com Jorge Pinto, nas suas oficinas na Ajuda.»

1961

 

1966

Em 9 Abril de 1929 morre José Cardoso Correia, passando o cinema para o seu irmão Ernesto Cardoso Correia, Eduardo Teixeira e para o seu velho empregado Júlio Barros, passando a propriedade para a nova firma "Correia, Rosa & Teixeira".

Bilhete de 1986


gentilmente cedido por Carlos Caria

Em 1984, estando então fechado devido à morte dos seus proprietários, a “Associação Portuguesa de Realizadores de Filmes” propõe este espaço para sua sede, mas tal intenção nunca veio a concretizar-se. Em 1994, reabre com espectáculos eróticos (Peep-Shows). Hoje, é a “Sexilândia”, com anúncio público na internet: Sex-shop e Peep-Shows.

 

Esta actividade, mais recente, do ex-Animatógrafo do Rossio” está bem espelhado no excerto do artigo que a seguir reproduzo, e que o encontrei no excelente blog “Citizen Grave a cujo proprietário e autor, infelizmente, já não me é possível agradecer, por ter falecido em Maio de 2013. Fica aqui a referência e reconhecimento pelo seu excelente trabalho em prol da história cinema português, e não só, e ao qual por vezes recorro.

“Os  Dias  do $exo” de João Dias Miguel na revista “Visão” de 6 de Dezembro de 1999:

«Paulo Ladeira não quer falar de dinheiro. Começou neste ramo em 1990, findos  três anos entre a Bélgica e a Holanda, países onde, garante, o nível de desenvolvimento deste negócio é muito superior. «As mentalidades belga e holandesa estão mais aptas a aceitá-lo como o que é: um mero comércio», diz. O empresário regressou a Portugal para abrir o primeiro peep show lisboeta e ainda hoje é dos mais  frequentados da cidade. «Era até preciso explicar aos funcionários públicos o significado do termo sex shop», afirma o «pai» da Sexylândia, que funciona no antigo Animatógrafo, ao Rossio. Foi um espaço montado (e ainda funciona) com algum amadorismo: parte das  cabinas são transparentes, o que faz com que, além do corpo da modelo, os clientes tenham de suportar também os esgares uns dos outros; os veludos vermelhos foram mal fixados e precisam de uma boa lavagem; e ao chão e às paredes das cabinas dos vídeos pornográficos um pouco mais  de detergente também não fazia mal. Mas, nos bons tempos, admite este ex-emigrante e electrotécnico de formação, numa sexta-feira concorrida, aquela loja apertada e mal iluminada facturava 1200 contos. Na altura, era mais do que suficiente para pagar uma renda que chegava aos 4 mil contos e o enorme fornecimento de toalhetes de papel com que as máquinas de cada cabina são diariamente fornecidas.»

Sexylandia

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Citizen Grave

Sem comentários: