2 de janeiro de 2015

Paris-Cinema

O “Paris-Cinema”, propriedade do empresário Víctor Alves da Cunha Rosa, e projectado pelo arquitecto Víctor Manuel Carvalho Piloto, foi inaugurado na Rua Domingos Sequeira, junto ao Largo da Estrela, em Lisboa, no dia 21 de Maio de 1931.

Porém, a história deste cinema tem início em 5 de Janeiro de 1916, quando abriu as portas ao público na Rua Ferreira Borges na zona de Campo de Ourique, com a designação de “Cine-Paris”, sendo uma sala modesta, pouco mais que um barracão, mas sendo o único que distraia a população daquela zona. Em 1917, uma nova empresa gerida por Vítor Alves da Cunha Rosa, empresário cinematográfico deveras conhecido na época, adquiriu este espaço e introduziu-lhe modificações profundas tanto no interior, como na decoração e na comodidade que seria oferecida ao público. Para além das alterações na plateia, onde a geral  foi reduzida para metade de modo a atribuir mais espaço para as fauteuils e cadeiras. Com estas alterações o balcão sobressaia, dando um novo ar ao espaço pintado de branco e ouro.

O “Cine Paris” no jornal “A Vanguarda” em Abril de 1916 

No entanto em 1929, uma medida introduzida pela “Inspecção Geral dos Espectáculos” relativamente à segurança exigida nas casas de espectáculos encetou uma vistoria a este cinema, tendo se concluído que o mesmo precisava de ser imediatamente encerrado devido à sua construção ter sido feita com materiais combustíveis. Com o encerramento do “Cine Paris”, a empresa que o geria apresentou um projecto com as modificações que pretendia introduzir no edifício provisoriamente, enquanto não era construído um novo salão noutro local. As modificações consistiam no revestimento dos madeiramentos existentes por ferro ou amianto, para além do alargamento de escadas e coxias. Este projecto acabou por ser aprovado e o cinema acabou por ser ampliado, passando a ter uma lotação distribuída por 6 camarotes de 4 entradas, 2 de cinco lugares, 102 nos balcões, 37 fauteuils, 281 cadeiras e 119 gerais.

Em consequência disto, em 1930 é constituída a empresa “Sociedade Geral de Cinemas, Lda.”, gerida por Víctor Alves da Cunha Rosa e o seu filho, Jayme da Cunha Rosa, que leva a cabo a construção de uma nova casa de espectáculos na Rua Domingos Sequeira, nº 30, que teria a sua designação mais conhecida por “Paris-Cinema”.

Rua Domingos Sequeira e o “Paris-Cinema”

 

 

O autor do “Paris-Cinema”, já anteriormente referido, o arquitecto Victor Manuel Carvalho Piloto, criou uma sala de cinema de bairro que estava apetrechada com todas as comodidades, de modo a conseguir atrair público. A sala tinha 885 lugares divididos entre plateia, balcão e camarotes. Em 1931, enquanto o antigo “Cine Paris” era encerrado, este novo cinema instalava a aparelhagem sonora da marca “R.C.A. Photophone”. Alguns anos depois, esta seria substituída por outra da marca “Zeiss-Ikon”. O balcão possuía termómetro, os camarotes estavam providos de mesas para serviços de chá e existiam alguns lugares isolados, de modo a evitar que os espectadores fossem incomodados.

O edifício fixou-se numa superfície simples, de tratamento decorativo Art Deco, com apoio no seu arranjo interior do pintor Jorge de Sousa, de onde se salientavam as 4 peças escultóricas (baixos relevos) do escultor Simões de Almeida (sobrinho) situadas no “foyer” do balcão. Pena que nos anos 50 do século XX tenha sido algo desvirtuado, em parte devido a obrigações regulamentares, tendo no entanto sido na sua sequência feita a encomenda da pintura mural na grande “sala de fumo”, igualmente do balcão, ao pintor Paulo-Guilherme (d’Eça Leal).

Esta sala de cinema, competia com as salas maiores que surgiram na mesma altura como o “Cine-Teatro Éden” e o cinema “Cinearte”, e mais perto, no bairro de Campo de Ourique, o cinema Europa, inaugurado no mesmo ano e três meses antes, em 14 de Fevereiro de 1931.

 


Programa e bilhetes gentilmente cedidos por Carlos Caria

O “Paris-Cinema” encerrou definitivamente em 20 de Outubro de 1981, exibindo pela última vez o filme “Esquadrâo Antidroga”. Desde então tem vivido uma degradação total, sem resolução à vista. «Só é pena que as antigas e belissimas salas de cinema de Lisboa estejam literalmente a desaparecer. Infelizmente, desaparecem sem deixar rasto, não criando a ponte entre a geração actual com as memórias de um passado não muito distante.» Palavras do neto do fundador do “Paris Cinema”.

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Garfadas Online, Cinemas do Paraíso

2 comentários:

Bic Laranja disse...

O recortezinho de jornal refere um saao Imperio na Rua Paschoal de Mello. Não me saberá dizer por ventura o n.º
Obrigado e desculpe algum mau jeito.
Ano bom!

José Leite disse...

Caro "Bic Laranja"

Desculpe o atraso na resposta, andei verificando o que me pediu, mas ... sem sucesso.

Não consigo informá-lo do número.

Bom Ano!

Os meus cumprimentos

José Leite