5 de novembro de 2014

Royal Cine

O “Royal Cine”, localizado na Rua da Graça, em Lisboa, foi inaugurado ao público a 26 de Dezembro de 1929. Propriedade da “Empreza Royal Cine, Limitada” do industrial galego, Agapito Serra Fernandes, que mantinha negócios na área de alimentação e restauração, foi projectado pelo arquitecto Manuel Joaquim Norte Júnior (1878-1962), nos barracões existentes no local onde estivera o terminal do antigo “Ascensor da Graça”.

“Royal-Cine” em 1977

Recordo que, o “Ascensor da Graça” foi um meio de transporte mecanizado sobre carris, tipo funicular, que ligava o Largo da Graça à Rua da Palma. Foi projectado por Raul Mesnier du Ponsard. A sua construção foi iniciada em 1889 e inaugurado em 27 de Fevereiro de 1893. Juntamente com outros sistemas semelhantes noutros pontos da cidade, foi construído e explorado pela “Nova Companhia dos Ascensores Mechanicos de Lisboa”. Viria a ser desactivado em 1909.

“Ascensor da Graça”

Antes da iniciativa da construção do “Royal Cine”, já em 1908 Agapito da Serra Fernandes tinha tomado a iniciativa da construção do bairro operário “Estrella d’Ouro”, no Bairro da Graça, onde viria inclusivamente a fixar residência na “Vivenda Rosalina”, habitação localizada neste mesmo bairro, edificado sob o risco do arquitecto Norte Júnior, e que ainda hoje existe e recuperada.

“Vivenda Rosalina” actualmente

 

O “Cine Royal”, exibindo na fachada o "selo" do seu proprietário - a famosa estrela que insistentemente se reproduz nos painéis azulejares e na calçada do “Bairro Estrella d’Ouro” - como já foi referido, foi inaugurado no Natal de 1929, como cinema de estreia, programa usualmente circunscrito às salas do centro da capital. Tendo como director/gerente Aníbal Contreiras, oferecia ao público uma sala com espaço para orquestra e com capacidade para 900 lugares, contando com 1ª e 2ª plateias e um balcão a descrever um "U", e camarotes lateralmente com 6 lugares cada um, e os dispostos de frente com 5 lugares cada. No segundo andar encontrava-se o bar e salão de baile.

Projecto do edifício do “Royal Cine”do arquitecto Manuel Joaquim Norte Júnior

 

Projecto dos interiores do “Royal Cine”do arquitecto Manuel Joaquim Norte Júnior

 

Sala de espectáculos

Plantas da sala e preçário em 1953


gentilmente cedido por Carlos Caria

Páginas do livro “Os Mais Antigos Cinemas de Lisboa 1896-1939) de Manuel Félix Ribeiro

 

 

«Realizou-se ontem a inauguração particular do novo cinema Royal Cine, para assistir á qual foi gentilmente convidada a imprensa da especialidade. A nova sala de projecção, construida segundo um projecto do arquitecto Norte Junior,  apresenta condições de higiene, confôrto e segurança que os espectadores muito devem apreciar. Hoje realiza-se a inauguração para o publico com a estreia do filme russo-alemão «O Cadaver Vivo», segundo Tolstoi, realizado por Fedor Ozep e interpretado por Pudoukine, e a reezibição do «AZ de Velocidade», com Harold Lloyd.» in “Diario de Lisbôa”.

Publicidade arrojada para a época, como no caso seguinte, com o envio de cartões promocionais para casa das pessoas

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Bilhete de Convite

Matiné Elegante

Em 5 de Abril de 1930 é exibido o primeiro filme sonoro em Portugal, da produtora americana “Metro Goldwin Mayer, Film Ltd.” , “Sombras Brancas nos Mares do Sul”, de W.S. Van Dyke, estreando o “Cine Royal”, deste modo, o seu equipamento sonoro com aparelhos da “Western Electric, & C.º”, o primeiro da cidade de Lisboa e do país a dispôr de semelhante inovação, devidamente distinguido e reconhecido com a presença do Presidente da República General Óscar Carmona à sessão inaugural.

5 de Abril de 1930

                                    Cartaz oficial do flime                                                    Fotograma da abertura do filme

  

«Em 1926, a produtora Warner Brothers lançou o primeiro sistema sonoro, conhecido como Vitaphone, e, em 1927, produziu O Cantor de Jazz, de Alan Crosland, protagonizado por Al Jolson e que é considerado o primeiro filme sonoro. A transição do cinema mudo para o sonoro foi tão rápida que muitos dos filmes distribuídos entre 1927 e 1929, e que tinham começado seu processo de produção como filmes mudos, foram sonorizados depois para se adequarem a uma procura crescente do público. Foi o que aconteceu com White Shadows in the South Seas (Sombras Brancas nos Mares do Sul, 1928) de W.S. Van Dyke. O filme é conhecido por ser o primeiro filme da MGM (a última das grandes companhias a aderir o sonoro), a ser lançado com som pré-gravado. O som era composto por alguns efeitos sonoros, como o vento uivando, uma tempestade, árvores abanando e uma palavra “Olá”. A produção em 1927 começou como um empreendimento conjunto entre o documentarista Robert Flaherty e a MGM com W.S. Van Dyke como segundo director e foi filmado no Tahiti, apesar dos créditos de abertura dizerem que era nas ilhas Marquesas. Flaherty, ao chegar ao Tahiti, começou a filmar o filme a um ritmo que não agradava à MGM e depois de discutir com Van Dyke, deixou a produção, deixando Van Dyke como único director do filme. Van Dyke iria terminar o projecto dentro do prazo. No entanto, Flaherty filmou algumas cenas antes de sair da produção, e algumas cenas suas podem ser visto na cópia existente.» in blog “Lisboa em Movimento”.

Artigo no jornal “Diario de Lisbôa” em 4 de Abril de 1930

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No seu primeiro ano de actividade, as produções documentaristas portuguesas, mudas, estreadas no “Royal Cine” foram as seguintes:

5 de Abril de 1930 - “Lisboa Filme” estreia, “Porto de Lisboa”.
29 de Maio de 1930 - Estreia “Arredores de Lamego”, da “Lisboa Filme”.
10 de Julho de 1930 - “Royal Cine” produziu e estreia “Arredores de Sintra”, com realização de F. Gomes Prata.
24 de Julho de 1930 - “Lisboa Filme” produziu, e estreia “São Pedro do Sul”.
9 de Outubro de 1930 - “Royal Cine” produziu, e estreia “Graça-Lisboa”, por Agostinho de Mendonça.
23 de Outubro de 1930 - “Sociedade Universal de Superfilmes” estreia, “A Palmeira de DenDen”, pela “Missão Cinegráfica a Angola”, em produção de António Antunes da Mata.

Programa de Novembro de 1934

1937

A última sessão cinematográfica no “Royal Cine”, teve lugar no dia 3 de Março de 1976 com o filme “Voluntários à Força”.

Na década de 80 do século XX, tem lugar a adaptação do edifício a supermercado, com uma mini galeria de lojas no átrio, o que implica demolições, restando hoje do antigo edifício apenas a fachada e o átrio da entrada, devidamente restaurados e conservando a sua traça original tanto na fachada como nos interiores.

                               Aspecto exterior actual                                           Pormenor da fachada e o relógio no interior

 

Actual.2

Fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Cidadania Lx, Citizen Grave, Lisboa, Museu do Fado, Lisboa Desaparecida de Marina Tavares Dias Vol VII

1 comentário:

Anónimo disse...

É escandaloso que este local histórico e cultural esteja completamente conspurcado por um espaço comercial. O super-mercado ali instalado não tem qualquer respeito ou atenção ao local que ocupa. Actualmente e logo que se entra, a sensação é de ter viajado para um País do 3º Mundo. Lamentável...