2 de novembro de 2014

Estação do Sul e Sueste

Em meados do século XIX, o Rei D. Luís I lançou um projecto para construir uma grande interface ferroviária e fluvial em Lisboa, aonde convergiriam os caminhos de ferro da Europa, e os barcos para o Continente Americano. Uma comissão executiva para estudar este empreendimento, nomeada em 16 de Março de 1853, concluiu que a estação principal deveria ficar junto à “Rocha do Conde d’Óbidos”, com uma interface intermédia junto à Alfândega, no Terreiro do Paço. Após várias propostas para a alteração da localização da estação principal, esta foi situada oficialmente pelo governo em 8 de Março de 1854, junto ao “Cais dos Soldados” no Arsenal da Marinha.

Foto que ilustra o posicionamento da “Estação Fluvial do Sul e Sueste” primitiva, junto ao “Arsenal da Marinha” e da nova Estação inaugurada em 1932  junto à Alfândega

Após a construção da estação provisória em madeira, foi apresentado em Junho de 1862, um projecto para a estação definitiva, e para uma zona portuária de mercadorias e as correspondentes ligações ferroviárias, ao longo da margem do Rio Tejo, até à Alfândega.

“Estação do Sul e Sueste” no “Cais dos Soldados” junto ao “Arsenal da Marinha”

 

O Estado em 1869 nacionaliza a “Companhia dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste”  (fundada em 3 de Janeiro de 1860) , tendo sido formado, em 1898, um órgão governamental, denominado “Caminhos de Ferro do Estado”, para gerir as antigas ligações desta empresa. A partir desta data, a ponte de acostagem de vapores da Praça do Comércio, usada como terminal fluvial para ligação a essas linhas, irá sofrer sucessivas alterações, adaptações e ampliações, sempre em obras circunstanciais, que aguardavam a construção de um edifício apropriado e definitivo.

Nota: Acerca da “Companhia dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste”  e da história da presença dos caminhos de ferro no Barreiro, consultar neste blog o seguinte link: “Caminho de Ferro no Barreiro”.

Dois vapores utilizados nas ligações entre Lisboa e Barreiro ainda sob a bandeira da monarquia

Em 1906, a estação provisória do Sul e Sueste, em madeira, revelava-se demasiado pequena para o movimento, tinha problemas de insalubridade, e era desconfortável para os utentes. No entanto, a construção de um edifício definitivo estava a encontrar diversas dificuldades, devido à oposição do “Conselho dos Monumentos Nacionais”, que temia que a sua instalação deturpasse a estética do Terreiro do Paço, e a restrições da Alfândega e da “Associação Comercial de Lisboa”.

Oferta de transportes por via fluvial em Lisboa, em 1912

Uma das estações que servia a “Via Fluvial” e pertença da “Parceria dos Vapores Lisbonenses” ficava no Cais do Sodré

 

Em 7 de Setembro de 1919 é posto a circular o primeiro número do jornal da “Associação da Classe dos Ferro-Viarios do Sul e Sueste”, de seu nome “O Sul e Sueste”. A redacção encontrava-se, na Rua Aguiar 282, no Barreiro. Existiria até 1933.

                            Entretanto em Novembro de 1926 …                                         … e em Dezembro de 1926

     

Em Junho de 1928, baseado no parecer produzido pela comissão técnica, o ministro do Comércio e Comunicações decide-se pela construção da “Estação de Caminhos de Ferro do Sul e Sueste” no terrapleno da Alfândega, frente ao torreão oriental da Praça do Comércio: recomendava-se que a estação fosse implantada de modo a não prejudicar a perspectiva da Praça do Comércio, não devendo ser visível do extremo sul da Rua do Ouro, bem como se determinava ainda que o acesso aos barcos fosse feito através de cais flutuantes e que fosse estabelecida uma ligação por via férrea com a estação de Santa Apolónia.

Torreão da Alfândega à esquerda na foto, e à direita na foto o local que viria a ser aterrado

Aterro já terraplanado onde iria ser construída a “Estação de Caminhos de Ferro do Sul e Sueste”

Muralha do aterro onde nasceria a “Estação de Caminhos de Ferro do Sul e Sueste”, com fragatas atracadas para um passeio fluvial em 1909

A “Estação de Caminhos de Ferro do Sul e Sueste” - ou com mais propriedade “Estação Fluvial do Sul e Sueste” -projectada pelo arquitecto Cottinelli Telmo, depois de iniciada a sua construção em 1929, viria a ser inaugurado em 28 de Maio de 1932. A cerimónia foi integrada nas comemorações do sexto aniversário do nascimento do regime, no dia exacto em que a imprensa divulgava o projecto da nova Constituição Portuguesa. Estiveram presentes o Chefe do Estado, General Óscar Carmona, o presidente do Ministério, General Domingos da Costa Oliveira, e quase todos os ministros, à frente de uma numerosa assistência que reunia os notáveis da nação. Esta Estação abriria ao público a 2 de Junho do mesmo ano.

Estação Fluvial do Sul e Sueste em fase de acabamentos das áreas envolventes

Cerimónia da inauguração com a presença do Chefe de Estado General Óscar Carmona

 

 

O jornal “Diario de Lisbôa” descrevia assim a cerimónia:

«(…) Foram em seguida visitadas todas as instalações e dependencias do edificio, que é realmente magnifico, de excelente construção, com belos materiais e todos os melhoramentos e modernismos.
Algumas dependencias, como sejam as salas de espera de 1ª e 2ª classes, são até luxuosas e merecem francos elogios de todos os visitantes.»

 

É constituída por um único pavimento, em três corpos. Poderá observar-se no hall, painéis de azulejos policromados, representando os brasões de Évora, Setúbal, Beja, Estremoz, Portalegre, Faro, Lagos, Tavira, Silves e Portimão.

 

 

Memória descritiva da “Estação Fluvial do Sul e Sueste” :

Promotor: “Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses” (C.P.), Divisão de Via e Obras: arq. José Ângelo Cottinelli Telmo (1897-1948), com colaboração de Hermínio Barros;
Engenheiros civis responsáveis: Ramos Coelho e Espregueira Mendes;
Empreiteiros António Veiga e Manuel Martins d'Oliveira, sob a direcção do engenheiro Raul Couvreur, em representação da Direcção Geral dos Caminhos de Ferro;
Painéis de azulejo do vestíbulo desenhados pelo capitão Vitória Pereira; azulejos nas paredes das salas de espera da autoria do pintor Alves de Sá;
Cais flutuantes construídos pela “Sociedade de Construções e Reparações Navais, Ld.ª”.

Estação Sul e Sueste.11

Barco da CP que fazia a ligação Lisboa-Barreiro, entrados ao serviço no início dos anos 60 do século XX

Características dos barcos da CP que foram construídos nos “Estaleiros Navais de Viana do Castelo”

Barco da CP.1

“Cacilheiros” que faziam a ligação Lisboa-Cacilhas, em fotos de 1966

 

A “Estação Fluvial Sul e Sueste” é a única estação ferroviária projectada para não dar serviço a comboios, nem de passageiros nem de mercadoria, situação que deriva do facto das linhas ferroviárias do Sul terem o seu términus na cidade do Barreiro, necessitando de uma ligação a Lisboa por via fluvial.É igualmente um dos mais destacados traçados do arquiteto Cottinelli Telmo, e constitui uma obra de importância fundamental no panorama da arquitetura portuguesa contemporânea. Destaca-se sobretudo o seu caráter pioneiro, devendo-se a este edifício, uma das obras inaugurais do
Estado Novo, o primeiro passo de abertura formal ao movimento moderno em equipamentos públicos.

Nota: Acerca da “Companhia dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste”  e da história da presença dos caminhos de ferro no Barreiro, consultar neste blog o seguinte link: “Caminho de Ferro no Barreiro”.

Esplanada na Estação Fluvial do Sul e Sueste nos finais dos anos 60 do século XX

Em Setembro de 2011 foi aberta ao público uma nova estação, que se encontra ao lado da antiga. Esta foi construída no local onde anteriormente se encontrava a estação da Transtejo com ligação a Cacilhas (ligação essa que passou a ser feita através da estação do Cais do Sodré). Assim, todo o tráfego fluvial e humano passou a ser feito através das novas instalações, estando as antigas atualmente encerradas. A nova estação conta com a ligação direta à estação de metro do Terreiro do Paço por meio de uma galeria subterrânea.

 

 

Esta interface é utilizada por serviços frequentes de navios «catamaran» entre Lisboa e o Barreiro, cujo terminal rodo-ferro-fluvial permite a ligação a Setúbal e Praias do Sado Apeadeiro.

No dia 2 de Novembro de 2012, através da Portaria n.º 640/2012, a estação tornou-se monumento de interesse público.

Mas fechada, e com este aspecto, quem diria …

Estado actual

Fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Ingolf (Flickr)

2 comentários:

Anónimo disse...

Quem se encarregou do projecto nesta última fase foi uma neta de Cottinelli Telmo! Quem sai aos seus. ..

Anónimo disse...

Esqueci mencionar o nome: atelier Ana Costa
Cumprimentos