1 de outubro de 2014

Estação de Santa Apolónia

A “Estação Ferroviária de Lisboa-Santa Apolónia”, vulgo “Estação de Santa Apolónia”, projectada pelo engenheiro João Evangelista de Abreu (engenheiro-chefe), foi inaugurada em 1 de Maio de 1865, no Largo dos Caminhos de Ferro, em Lisboa, com o 1º andar apenas. Foi construída pelas empresas “M.J. de Salamanca” propriedade de Dom José de Salamanca e Mayor, fundador da “Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses”, e a francesa “MM. C.A. Oppermann et C.ª Constructeurs”  propriedade do engenheiro C.A. Oppermann e director da famosa publicação de construção e engenharia “Nouvelles Annales de la Construction”. Esta Estação foi destinada a servir o “Caminho de Ferro de Norte de Portugal” e “Companhia dos Caminhos de Ferro do Leste”, nas ligações Lisboa-Porto e Lisboa-Madrid respectivamente. O seu custo ascendeu a 255:164$000 réis.

 

Inicialmente denominada "Estação Central" - muito embora o vulgo a apelidasse por "Estação do Cais dos Soldados" - , essa proeminência na vida ferroviária portuguesa só durou até 1890, por altura da construção da "Estação Central do Rossio", ligada desde então à linha de cintura interna, servindo de espinha dorsal da distribuição ferroviária ns cidade de Lisboa. Passou então a chamar-se "Estação do Caminho de Ferro do Norte e do Leste".

Artigo intitulado “Gare centrale de Lisbonne“ na revista “Nouvelles Annales de la Construction”, de Fevereiro de 1866

 

 

A Santa Apolónia fez parte de um grupo de virgens mártires que padeceram em Alexandria, no Egipto, durante um levante local contra o cristianismo antes da perseguição de Décio. De acordo com a lenda, durante sua tortura teve todos os seus dentes violentamente arrancados ou quebrados. Por esta razão, é popularmente considerada como a padroeira dos dentistas e daqueles que sofrem de dor de dente ou outros problemas dentais.

A Santa Apolónia tem na mão esquerda a palma e na direita uma tenaz com o dente, atributos do seu martírio

No local, onde foi construída a “Estação de Caminhos de Ferro de Santa Apolónia”, existiu um recolhimento fundado em finais do Século XVII por D. Isabel da Madre de Deus protegida dos duques de Bragança: D. João IV e D. Luísa de Gusmão. Mais tarde, já em 1718, o recolhimento foi transformado em convento por determinação do Papa Clemente XI, permanecendo assim até 1833, data em que as religiosas foram transferidas para os conventos de Santa Ana e de Santa Mónica. Extinta a casa conventual, as dependências  serviram de residência para os alunos da “Real Casa Pia” e para o estabelecimento de um colégio do Arsenal do Exército. Em 1852, este convento seria adquirido pela “Empresa Construtora da Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portuguezes”. Em consequência disto, desde 29 de Outubro de 1856 - data da inauguração do troço de caminho-de-ferro, entre Lisboa e Carregado - até 1 de Maio de 1865, passaria a existir uma pequena estação da Linha do Leste, junto ao “Convento de Santa Apolónia”, a nascente da actual gare ferroviária, defronte da Calçada dos Barbadinhos.

Convento de Santa Apolónia

   

Rua Cruz de Santa Apolónia

Anúncio da adjudicação da construção de 35 estações de caminhos de ferro nas linhas Lisboa-Porto e Lisboa-Badajoz na revista “Nouvelles Annales de la Construction”, de Maio de 1861

Em 1862, seria aprovado o projecto da futura “Estação de Santa Apolónia”, dos Caminhos de Ferro do Norte e Leste, na área entre a Praia dos Algarves e a rua direita do Cais dos Soldados. O lançamento da primeira pedra seria a 4 de Setembro de 1862.

«Fizeram o risco e dirigiram as obras do novo edifício para a estação da via férrea os engenheiros, Angel Arribas y Ugarte, director; J. Evangelista de Abreu, engenheiro-chefe; Lecrenier, engenheiro divisionário; Opperman, constructor.
Acrescentaremos que a cobertura metálica, imponente para a época, foi feita por James Blair, de Glasgow, que veio dirigir pessoalmente a montagem. (...)
O custo total foi de 255.164$000 réis ou sejam 36$236 réis por metro quadrado coberto.» in: “Gazeta dos Caminhos de Ferro”.

A direcção de obras esteve a cargo de Angel Arribas y Ugart (director), de Nicolas Le Crenier (engenheiro divisionário), de C.A. Oppermann, e ainda D. Eugenio Page, o director da “Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses”. A sua grandiosidade implicou subempreitadas. As obras de alvenaria foram da responsabilidade da firma "Charles Pezerat & C.ª" de Lisboa, a cantaria esteve a cargo de “António Moreira Rato”, com estabelecimento na Boavista, e a estrutura de ferro da gare ficou a cargo de “James Blair” de Galsgow e toda a empreitada de madeiras entregue à serração mecânica "Aceleração" de Lisboa.

Inaugurada em 1 de Maio de 1865, só seria em 29 de Julho de 1865, realizada a recepção oficial do edifício da “Estação de Santa Apolónia” pelo engenheiro-chefe da fiscalização. Nestas condições, o director da empresa construtora, Arribas y Ugarte, fez entrega, por sua vez, do mesmo edifício à "Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses" representada pelo seu director geral Goudchaux.

A cronologia histórica dos caminhos de ferro em Portugal, até à inauguração da “Estação de Santa Apolónia” era a seguinte:

19 de Dezembro de 1844 - Fundação da Companhia das Obras Públicas de Portugal. Um dos objectivos é a elaboração de estudos para a construção do Caminho de Ferro
18 de Julho de 1851 - Foi nomeada uma comissão, para estudar a proposta do empresário Hardy Hislop para uma ligação entre Lisboa e Badajoz
20 de Outubro de 1851 - Baseados no relatório da comissão, foram elaboradas as bases de um concurso para a ligação ferroviária entre Lisboa e a fronteira, passando por Santarém

30 de Agosto de 1852 - Criado o Ministério das Obras Públicas - Fontes Pereira de Melo é o primeiro titular
13 de Maio de 1853 - Contrato para a construção de linha até à fronteira de Espanha
24 de Julho de 1854 - Contrato para construção de linha entre Aldeia Galega e Vendas Novas
26 de Julho de 1855 - Projecto para construção de linha de Lisboa a Sintra
15 de Dezembro de 1855 - Fontes Pereira de Melo rescinde empreitada com a Companhia Central Peninsular
28 de Outubro de 1856 - Inauguração do caminho de ferro entre Lisboa e o Carregado
29 de Outubro de 1956 - Inspecção-geral dos Correios e Postas do Reino passa a transportar as malas de correspondência  por comboio.
1857 - Dissolução da Companhia Central Peninsular
1858 - Início do serviço de mercadorias
1859 - Assinatura do contrato entre o Governo português e D. José de Salamanca para a continuação da construção e exploração do Caminho-de-Ferro do Leste e Norte
1860 - Constituição da Companhia Real dos Caminhos de Ferro
1861- Inaugurados troços entre o Barreiro/Vendas Novas e Pinhal Novo/Setúbal . Adjudicação da construção da Estação de Santa Apolónia
07 de Novembro de 1862 - Abre à exploração o troço entre Santarém e Abrantes
19 de Novembro de 1862 - O troço entre Estarreja e Gaia, na Linha do Norte, é aberto à exploração
06 de Março de 1863 - Entra ao serviço a linha até ao Crato (Linha do Leste)
04 de Julho de 1863 - Abre à exploração o troço entre Crato e Elvas (Linha do Leste)
08 de Julho de 1863 - O troço entre Estarreja e Gaia entra ao serviço
14 de Setembro de 1863 - Dá-se a abertura provisória à exploração, no troço entre Casa Branca e Évora da Linha de Évora
24 de Setembro de 1863 - Conclusão da Linha do Leste com a abertura do troço entre Elvas e a fronteira
15 de Fevereiro de 1864 - Abertura do troço entre Bombel e Beja da Linha do Sul (Actual Linha do Alentejo)
10 de Abril de 1864 - O troço entre Taveiro e Estarreja é aberto à exploração
22 de Maio de 1864 - Entra ao serviço a linha entre Entroncamento e Soure
07 de Julho de 1864 - É aberta a linha entre Soure e Taveiro
 
1864 - Acções da Companhia Real dos Caminhos de Ferro cotadas na Bolsa de Paris
1 de Maio de 1865 - Inauguração da Estação de Caminhos de Ferro de Santa Apolónia

Na revista “Archivo Pittoresco” de 1 de Janeiro de 1866 podia-se ler:

«Podêmos, pois, dizer afoitamente, que o caminho de ferro de Lisboa ao Carregado foi a pedra fundamental d'esse grandioso edificio do progresso, na construção do qual andámos trabalhando, com actividade, e que já vemos dignamente representado em mais de 800 kilometros de vias ferreas, em perto de 3:000 kilometros de estradas macadamisadas, em numerosas pontes, algumas d'ellas magnificas, e em muitas outras obras de reconhecida utilidade publica.
(...) D'esse primitivo commettimento, de que resultou vermo-nos já ligados a Hespanha por um caminho de ferro, e em breves dias com toda a Europa, serve de padrão o magnifico edificio que a nossa gravura representa, embora seja de construção moderna, pois que se levanta esplendidamente, como arco triumphal, á entrada da via que é o tronco principal e commum aos caminhos de ferro de norte e léste.»

Nos primeiros tempos a fachada da “Estação de Santa Apolónia” virada ao Tejo, serviu de cocheira das carruagens reais, salões e reservados. Inicialmente tinha apenas quatro vias de serviço. Com a ampliação da estação passou a dispor de sete vias, para os diversos tipos de funções. Tornaram-se bastante conhecidas as "Oficinas Gerais de Santa Apolónia".

A construção de mais um piso veio a alterar a escala equilibrada da Estação, contribuindo para a sua falta de graciosidade, apesar da linguagem funcional que sempre apresentou.

Estação de Santa Apolónia já com dois pisos

                        Marinheiros de partida em 1911                                           Marinheiros de partida em 1927

1911 Marinheiros partem para o o Norte para combaterem Monárquicos Estação de Sta. Apolónia.18 (embarque de cerca de 400 marinheiros envolvidos no movimento revolucionário que vão seguir para o forte de Sacavém em1927)

Locomotiva e outro material circulante na Estação de Santa Apolónia

 

Parte da descrição desta Estação num artigo do “Archivo Pittoresco” e 1 de Janeiro de 1866:

«Acham-se distribuídos no pavimento térreo o salão real, cocheira para 22 carruagens, as sala do chefe da secção de distribuição de bagagens, da saída dos passageiros, da alfandega municipal, da recepção de bagagens, de espera de passageiros de 1ª,2ª e 3ª classes, da fiscalisação do Governo, do serviço de saúde, do telégrapho, do chefe da estação, dos botequins e casa de pasto, etc.
No andar nobres estão as salas do conselho de administração, da direcção e secretaria, das repartições de todos os serviços do caminho de ferro, taes como repartição do movimento, via e obras, tráfego, tracção, armazéns, contabilidade geral, e aposentos para todos os chefes de serviço.
A grande nave onde os passageiros entram e saem dos comboios ocupa o centro do edifício. Tem de comprimento 117m, de largura 24m,6 e de altura 13m. (...)
É feita a iluminação a gás de todo o edifício por 143 candeeiros (...)
As salas estão decoradas e guarnecidas de moveis com mais simplicidade ou maior esmero, segundo o fim a que são destinadas. Em todas e no edificio em geral se nota muito aceio.»

Artigo completo no “Archivo Pittoresco” de 1866

Vista aérea da zona de Santa Apolónia

 

A primeira linha do "Americano" - «carruagens de Nova Iorque, puxadas por mulas brasileiras», como dizia Ramalho Ortigão - foi oficialmente inaugurada no dia 17 de Novembro de 1873. Ligava Santa Apolónia, ao final do aterro da Boavista (actual Avenida 24 de Julho), passando por Santos. O público acorreu em massa e os jornais louvaram as novas carruagens: «São muito espaçosas, com assentos para 22 pessoas, mas podem transportar em pé, aos lados do condutor e do cocheiro, mais 12 passageiros.»

“Americanos” junto à Estação de Santa Apolónia

 

Em 1870, o engenheiro M. A. Thomé de Gamond propôs a instalação, em Lisboa, de um grande porto marítimo, e uma ligação ferroviária entre Lisboa e Colares, passando por Cascais e Sintra. Este projecto defendia que o caminho de ferro deveria sair da Linha do Norte no embarcadouro de Leste, junto ao Novo Porto, continuar até à Praça do Comércio, onde seria edificada uma estação, e continuar até Sintra, com várias estações no caminho.

Este projecto é retomado com o Plano Geral das Obras, publicando em 1874, e uma comissão para o seu estudo é formada em 16 de Março de 1883. O engenheiro Pedro Inácio Lopes defendeu, junto da Associação dos Engenheiros Civis, em 1888, a construção de uma ligação ferroviária, de características urbanas, entre a “Estação Ferroviária de Lisboa-Santa Apolónia” e Alcântara, onde se iria ligar à Linha de Cascais, que já se encontrava em construção entre Alcântara e Cascais. No entanto, este projecto não teve seguimento, devido a problemas técnicos na passagem do dique do Arsenal, e receios que a linha degradasse a estética da Praça do Comércio.

                                               1942                                                                                        1954

 

Cais de Santa Apolónia frente à Estação

Cais de Santa Apolónia

Efeitos na Estação de Santa Apolónia da greve dos ferroviários em Abril de 1919

 

Em 1960 foram introduzidos  melhoramentos na “Estação de Santa Apolónia” com a abertura de uma passagem subterrânea para o atravessamento das linhas interiores da estação.

Estação de Santa Apolónia nos anos 60 do século XX

  

Actualmente, abrindo às 05:30 e fechando às 01:00, os tipos de comboio que servem a estação são os seguintes: Suburbanos, Alfas, Intercidades, Interregionais, Regionais. Os operadores ferroviários que fazem serviço na estação são os seguintes: CP Lisboa, CP Longo Curso, CP Regional.

Estação de Santa Apolónia em fotos actuais

 

 

Bibliografia: Caminho do Oriente - Guia do Património Industrial de Deolinda Folgado e Jorge Custódio

fotos in:  Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital, Hemeroteca Digital, Biblioteca Nacional Digital, Gallicia Bibliothéque Numérique

4 comentários:

João Celorico disse...

Caro José Leite,
Apenas umas achegas a mais um magnífico “post”.
Na foto de 1954, o insólito de, a par de uma iluminação com candeeiros moderníssimos, os postes de transporte de energia que nem eu me recordo de tal.
A foto, “Cais de Santa Apolónia frente à Estação” posso garantir ser de fins de 1958, princípios de 1959. Além de descortinar por ali, atracado ao Cais da Fundição, o “San Thomé” e outro navio da CNN (penso que pela altura de chaminé, e não só, seja o “Quanza”, verifico que o “Cristo-Rei” já tinha a base!

Cumprimentos,
João Celorico

José Leite disse...

Caro João Celorico

Sempre gentil e colaborador nos seus comentários.

Muito agradeço a sua informação adicional.

Os meus cumprimentos

José Leite

Anónimo disse...

Quanto aos "postes de transporte de energia" referidos por João Celorico. Presumo que se refira, ao poste em madeira no lado esquerdo da fotografia. Diria pelo aspecto, que eram linhas telefónicas.

Unknown disse...

Boa tarde,
Alguém saberá dizer-me como cresceu o edifício, ie, primeiro o corpo central subiu um piso e os laterais quando cresceram e qual foi o primeiro?
Obrigada