7 de setembro de 2014

Teatro Avenida de Lisboa

O "Theatro da Avenida", localizado na Avenida da Liberdade, em Lisboa, foi inaugurado em 11 de Fevereiro de 1888, com as comédias "De Herodes para Pilatos" e "Tio Torquato" .

                                     11 de Fevereiro de 1888     no “Diario Illustrado”    13 de Fevereiro de 1888

               

Um almanaque de 1917 descrevia o “Theatro da Avenida” nos seguintes termos:

«De aparencia exterior e interior simples é tambem muito elegante a sala de espectaculos deste teatro que muito em especial se dedica à exploração da opereta e da comédia musicada, sem esquecer em cada época a a presentação de consagradas peças nacionais.»

Comédia “Tição Negro” estreada em 18 de Janeiro de 1902 pela “Companhia Souza Bastos”

A iniciativa da sua construção do “Theatro da Avenida” partiu de Salgado Dias, Alexandre Mó e Ernesto Desforges, tendo a obra sofrido muitas interrupções e vicissitudes. O teatro depois de ser hipotecado seria posteriormente penhorado, pelo que, antes de terminada a sua construção, seria vendido em hasta pública. Comprado por Ernesto Desforges que passando a único proprietário, em 1888 alugou-o a um outro empresário, Alves Rente, que para lá transferiu, durante toda essa temporada a “Companhia do Teatro do Príncipe Real” do Porto.

  

Opereta “Pela Pátria” estreada em 18 de Maio de 1904

Bilhetes para a opereta “ABC” estreada em 11 de Abril de 1908 pela Companhia de Opereta do Theatro Avenida de Lisboa

Preços em 1909

                        Entrada do “Teatro Avenida”                         Actriz Palmira Bastos no seu camarim do “Teatro Avenida”

 

Capas de partituras de canção e fado de espectáculos em cartaz no “Teatro Avenida”

 

A primeira capa, da canção “O Cigarro do Soldado”, fez parte da revista “Céu Azul” que se estreou neste Teatro em 1914. A segunda capa, do “Fado do Pão de Ló “, fez parte da comédia musicada “Pão de Ló” , da Companhia Luíza Satanella-Estevão Amarante, e que se estreou neste Teatro em 23 de Outubro de 1925.

Enquadramento do “Theatro Avenida” na Avenida da Liberdade

 

De referir que um dos referidos fundadores do “Theatro da Avenida”, Alexandre Mó, um dos homens mais respeitados da alta sociedade lisboeta, e responsável pelo aparecimento da empresa que explorava as exibições do animatógrafo do Coliseu dos Recreios”, e na sequência dum desentendimento com o seu sócio Manuel Costa Veiga fez com que se aventurasse sozinho e investisse numa nova sala exclusiva para sessões cinematográficas, o animatógrafo “Salão Avenida”. Teria uma existência curta, encerrando um ano depois de ter sido inaugurado. O seu edifício foi depois reutilizado para ser o local do depósito da empresa açoreana Água das Lombadas”, posteriormente  sede da Aero-Portuguesa e, finalmente o “Café Avenida”.

Publicidade em 1908 e as suas instalações já ocupadas pelo armazém em Lisboa da Água das Lombadas

 

Muitos outros empresários e companhias teatrais passaram por esta sala de espectáculos como: Sousa Bastos, Drummonde, Ciríaco Cardoso, Edmundo Cordeiro, Cinira Polónio, Salvador Marques, Taveira, Pepa, José Ricardo, José Saraga, Luiz Galhardo, com toda a espécie e qualidade de espectáculos e elencos, incluindo companhias francesas, espanholas e mistas (ibérica, luso-francesas).

Lista dos principais empresários dos teatros de Lisboa em 1908

“Theatros de Lisboa” em 1900

A grande maioria dos mais de 300  espectáculos (306 registados), apresentados no “Theatro da Avenida”, desde a sua abertura, foram interpretados por Companhias teatrais das quais se destacaram as seguintes:

Grande Companhia de Opereta do Theatro Avenida de Lisboa
Souza Bastos & C.ª
Companhia José Ricardo
Companhia Luíza Satanella-Estevão Amarante
Companhia de Zarzuelas Rafaela Haro
Companhia de Opereta em Sociedade
Companhia Cremilda-Chaby Pinheiro
Companhia Aura Abranches
Companhia de Artistas Unidos
Companhia Maria Matos
Empreza José Loureiro
Os Comediantes de Lisboa
Empresa Vasco Morgado
Teatro de Sempre
Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro

         Elenco feminino da Companhia de Luís Galhardo                                                Postal antigo

 

Em 1910,  o “Theatro da Avenida” é dirigido por Luís Galhardo, que anuncia revistas e operetas. Em 1911, passa a ser explorado pelo empresário Armando Vasconcelos que aí se mantém até aos anos 20 do século XX. Até 1923, o teatro chega a pertencer a duas das mais prestigiadas empresas: a "Companhia Luíza Satanella-Estevão Amarante" e a "Companhia Maria Matos- Mendonça de Carvalho", sendo depois tomado pela “Empreza José Loureiro”.                      

                       Cena da revista “Prá Frente” em 1906                                 Cena da revista “CóCóRóCóCó” em 1912

 

                 Publicidade na revista “O Palco” em 1912                                       Récita em 22 de Maio de 1916

 

“Theatro Avenida” no Carnaval de 1912

                     Cena da opereta “La Generala” em 1913                              Companhia da peça “Alerta!” em 1913

 

Em 1923, o empresário José Loureiro, firmou o último contrato de arrendamento com o proprietário do edifício, Carlos Tavares, contrato esse que se manteve em nome da viúva Loureiro tendo passado posteriormente para o empresário de teatro, Vasco Morgado.

Era uma sala modesta, mas com a dupla qualidade da localização e da própria estrutura à italiana, com duas ordens de camarotes. A exploração e a intervenção cultural, digamos assim, foi sempre irregular: de tal forma que, em rigor, é em meados do seculo XX que este teatro alcançou um nível de maior destaque. Com efeito, no “Teatro Avenida” funcionou, a partir de 31 de Outubro de 1958, a “Nova Companhia do Teatro de Sempre”, dirigida por Gino Saviotti, professor do “Conservatório Nacional” e co-fundador, em 1946, com Luis Francisco Rebello e Vasco de Mendonça Alves, do “Teatro Estúdio do Salitre”, a funcionar nas instalações do “Instituto Italiano de Cultura”, de que Saviotti era director.

Peça estreada em 5 de Dezembro de 1958

A “Nova Companhia do Teatro de Sempre” seria responsável pela representação das seguintes peças: “O Mentiroso” (31-10-1958); “O Gebo e a Sombra” (5-12-1958); “O Soldadinho Medroso” (1959); “O Fim do Caminho” (10-1-1959); “Marido em Rodagem” (6-02-1959); “Seis personagens em Busca de Autor” (03-04-1959); “Fachada” (18-05-1959).

Mas em 1964, o “Teatro Avenida” assumiria novamente uma relevância cultural que constituiria aliás a sua derradeira fase de actividade. Com efeito, foi neste Teatro que se instalou a companhia do Teatro Nacional D. Maria II, dirigida por Amélia Rey Colaço, - “Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro” - na sequência do incêndio que, naquele mesmo ano, tinha destruido o “Teatro Nacional D. Maria II”.

Depois de desalojada a “Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro”, são iniciadas a obras de renovação e melhoramentos no "Teatro Avenida" que culminaram com a sua reabertura em 6 de Fevereiro de 1965, com a peça "O Motim" de Miguel Franco, e á qual assistiu o Chefe de Estado Almirante Américo Thomaz. A “Companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro” ali se manteria, com o estatuto de Teatro Nacional, até ao inicio da temporada de 1967/1968.

Na reabertura em 6 de Fevereiro de 1965

A propósito desta estreia o “Diario de Lisbôa” escrevia:

«Lisboa regista hoje um acontecimento que está muito para além da rotina das estreias de teatro. No Avenida, completamente remodelado, apresenta-se o primeiro original português que o Conselho de Leitura do teatro Nacional Dona Maria II havia escolhido para ser representado, esta temporada. Trata-se da peça "O Motim" de Miguel Franco, um autor que faz a sua estreia como dramaturgo, e que vai, certamente, chamar sobre si as atenções do publico.»

E no dia seguinte …
«(…) Evidentemente que ontem foi uma noite de estreia, mas é forçoso dizer-se que a grande vedeta da noite foi sem dúvida a própria casa de espectáculos, que está transformada num pequeno teatro parisienese do melhor estilo, instalado em pleno coração de Lisboa. Por isso para Lucien Donnatt, vai a nossa mais calorosa palavra de aplauso pelo trabalho feito. A Amélia Rey Colaço é devida igualmente uma palavra de admiração pela tenacidade com que sabe defender a sua carreira e a sua obra.»

Dois “Programas” de duas revistas da “Empresa Vasco Morgado”

                                Estreada em Outrubro de 1962                                         Estreada em 17 de Fevereiro de 1963

 

Folheto da peça “O Pecado Mora ao Lado” de 1965 

No dia 11 de Dezembro de 1967 estreava a que seria o último espectáculo a ser exibido no “Teatro Avenida”. A última peça a ser exibida foi “Feliz Aniversário”, de H. Pinter, que seria interpretada pelo elenco do Teatro Nacional D. Maria II”  pela “Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro”.

11 de Dezembro de 1967

Um incêndio, em 13 de Dezembro de 1967, provocado por um curto-circuito ditou o fim do “Teatro Avenida”, cujo edifício, anos mais tarde, viria a ser demolido.

 

Espaço outrora ocupado pelo “Teatro Avenida” e por outro edifício contíguo a sul

Bibliografia: “Lisboa Desaparecida” - Volume 2 de Marina Tavares Dias - Editora Quimera.
                    “70 Anos de Cultura - Blogue do Centro Nacional de Cultura”
                    Blog “Cinemas do Paraíso”

Fotos in: Arquivo Municipal de LisboaBiblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Hemeroteca Digital, Biblioteca Nacional Digital, Instituto dos Museus e da Conservação

4 comentários:

Bic Laranja disse...

Ora cá está o Theatro da Avenida profusamente documentado. Ele há para aí uma "actividade” sem c mas será gralha, não deslustra. Não há nada como sem dúvida.
Cumpt

José Leite disse...

Caro "Bic Laranja"

Já descobri a "gralha", que foi prontamente corrigida ....:-)

Cumprimentos

José Leite

Isabel Vidal disse...

Gostaria apenas de fazer uma pequena correção: o Teatro Avenida não pode ter sido inaugurado por Jorge de Faria, pois esse jornalista nasceu em 1888.

José Leite disse...

D. Isabel Vidal

Muito grato pela sua chamada de atenção. Decerto de onde eu "pesquei" essa informação, ela estava errada.

Como não consegui obter confirmação dos seus autores, mesmo consultando a magnífica base de dados, online, da CET Base, decidi simplesmente retirar a indicação dos mesmos.

Com os meus renovados agradecimentos, os meus cumprimentos

José Leite