31 de julho de 2013

Cine-Teatro Santo António em Faro

Com o fim de dar resposta a uma população em crescimento, e ao crescente interesse pelo cinematógrafo, à qual já não serviam as acanhadas e desconfortáveis acomodações do “Teatro-Circo” e do “Teatro 1º de Dezembro”, e do requintado “Teatro Lethes”,  alguns notáveis decidiram constituir em 1915, uma sociedade com o objectivo de construir e explorar comercialmente o “Cine -Teatro Farense”, o que aconteceu em 1916. Tratou-se de uma moderna sala de espectáculos que permitia aos farenses desfrutarem dos filmes com todo o conforto.

 

 

Após a II Guerra Mundial, esta sala que durante 35 anos constituiu o ponto de encontro de todos os cinéfilos farenses, tornou-se obsoleta, sendo demolida em 1952 para dar lugar a uma sala moderna, que entre outras inovações, apresentava um projector automático. O “Cine-Teatro Santo António”, seria inaugurado  no dia 31 de Dezembro de 1953.

                                 

                      

A sala que, na altura, com os seus 1.100 lugares, era a maior do Algarve  recebeu alguns equipamentos novos e manteve as características de cine-teatro, com o seu grande palco e o pano de boca-de-cena em tons dourados. tendo sido alargada a sua lotação e atenuada a separação de classes, passou a ter apenas duas áreas distintas: a plateia, com cadeiras novas e estofadas e o balcão, no piso superior onde foram colocadas as velhas cadeiras de madeira da antiga plateia. Depois de 1974 este balcão, acabaria por ser desactivado.

                                 

O “Cine-Teatro Santo António” deu a sua última sessão em 31 de Julho de 2001, fechando para sempre as suas portas. Seguiu-se a sua demolição para posterior construção do “Atrium Faro”.

Fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Faro é Faro

29 de julho de 2013

Hotel do Mar

O “Hotel do Mar”, em Sesimbra, foi mandado construir por João Alcobia em sociedade com os irmãos José e Manuel Gonçalves, donos do “Diário de Notícias”. João Jorge de Mascarenhas e Menezes Alcobia era proprietário da prestigiada empresa de mobiliário "Jalco - Móveis e Decorações, SARL" que ocupava um edifício de 5 andares na Rua Ivens, em Lisboa.

Hotel do Mar” em 1966

                                

Espaço que viria a ser ocupado pelo “Hotel do Mar”

                                 

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O projecto ficou a cargo do arquitecto Francisco da Conceição e Silva (1922-1982), especializado em vivendas de luxo e concepção de móveis, que já tinha efectuado, em 1953, uma exposição na Jalco. Apesar do projecto datar de 1956, o pedido de construção só foi apresentado em 1962.

                    

                     

A construção foi feita por fases, sendo a primeira que se resumia ao "baluarte" dominado pela construção em madeira, da zona de bar e refeições, e a 4 pisos de quartos que acompanhavam a inclinação do terreno, em "escada".Nesta primeira fase ainda não contava com a piscina que só seria integrada na segunda fase.

«A solução adoptada para o Hotel do Mar pode muito bem ter sido influencia­da pela ideia original, de uma moradia familiar extendida. Ocupando a encosta poente do vale de Telheiros, os 62 quar­tos, que em vez de varandas tinham pequenos logradouros ajardinados, orientavam-se para sudeste, com uma esplêndida vista sobre a baía e a vila.» in: o Sesimbrense

                                                                          Construção da 1ª fase

 

                                 

                                 

A construção do "Hotel do Mar" ficou a cargo da empresa "Sociedade de Construções ERG, Lda." fundada em 12 de Janeiro de 1920, e que já tinha obra feita em Sesimbra, o Bairro Infante D. Henrique e o Cine-Teatro João Mota. O engenheiro responsável desta obra foi o engenheiro José Lampreia.

A inauguração desta primeira fase, com 70 quartos, foi em 1963. O mobiliário e a decoração do Hotel ficou a cargo de João Alcobia e o arquitecto Conceição e Silva.

Primeira foto oficial do “Hotel do Mar”

                                                           “Hotel do Mar” após a sua inauguração em 1963

 

                                

 

Primeiro folheto promocional impresso em Novembro de 1963

Hotel do Mar.31

O “Hotel do Mar” ,vai ter sucessivas ampliações, numa primeira fase dotando-o de duas piscinas circulares, em contraponto às linhas ortogonais do edifício, e de um novo restaurante que ocupa a cobertura do corpo dos quartos, inscrevendo-se como um leve pavilhão de madeira recuado. Em 1965, a Jalco adquire o terreno que liga o Hotel à Avenida do Atlântico, ampliando a capacidade hoteleira.

                                                                     Antes da construção da 2ª fase                                                     

                                 

                                                                      Construção da piscina e 2ª fase                                   

               

Em 6 de Agosto de 1966 foi inaugurada a 2ª fase do “Hotel do Mar”. Neste mesmo dia seria inaugurada a "Ponte Salazar", tendo o Presidente da República, Almirante Américo Tomás, pernoitado nesta unidade hoteleira de 5 para 6 de Agosto e depois de ter presidido à cerimónia de inauguração seguiu directamente para a inauguração da Ponte, onde chegou às 10h 30m.

João Alcobia e o Presidente da República Almirante Américo Tomaz na inauguração da 2ª fase do “Hotel do Mar”

 

                                

 

Uma curiosidade: Com a finalidade de publicitar o “Hotel do Mar”, João Alcobia lembrou-se de mandar fazer um filme publicitário. A encomenda acabou por calhar a um jovem realizador sem muita experiência, e que tinha acabado de "estagiar", como assistente, com o famoso Michelangelo Antonioni no filme “O Eclipse”. Tratava-se de José Fonseca e Costa

João Alcobia queria um filme publicitário, e o jovem cineasta queria fazer  obra de arte, pelo que o que resultou foi "E Era o Vento... e Era o Mar..."  um filme/documentário de 11 minutos, e que seria o primeiro filme deste conhecido realizador de cinema português.

O filme era uma abordagem inovadora num filme sobre um hotel de praia, com ênfase na sua arquitectura e design de interiores, em contraste com o rico patrimônio natural e construído da vila de Sesimbra, lado a lado com atividade tradicionais pescadores.

Diz-se que  João Alcobia ficou furioso com a "obra de arte". O filme teve uma projecção no cinema de Sesimbra, em Novembro de 1966.  Recentemente, a propósito duma visita organizada pela Associação dos Arquitectos à obra de Francisco Conceição Silva, voltou a ser aqui projectado, e houve uma edição em DVD.

E falando em cinema …

Estadia da actriz sueca Inger Nilsson que se tornou famosa na série “Pipi das Meias Altas”

Painel artístico de André Semblano

                      

Nos anos 90 do século XX,  Al Baker, um investidor árabe hoje com outros inter­esses na região, como é o caso da Mata Norte, na Herdade da Apostiça, viria a adquirir este hotel.

Al Baker viria  a promover a sua ampliação para uma terceira fase do “Hotel do Mar”, que se prolongou para o lado poente. Esta construção já não tem o mesmo padrão orgânico, colado ao terreno, das fases iniciais mas, ainda assim, o novo edifício mantém algumas características valorizadoras, como o facto de dispor de salas para congressos no piso superior, com vista para o mar, algo pouco vulgar em unidades hoteleiras.

                                                                          “Hotel do Mar” actualmente

 

 

Actualmente o “Hotel do Mar” tem um total de 160 quartos e 8 suites, executivas, júnior e uma delas presidencial.

Bibliografia: Jornal “O Sesimbrense” e “Jornal Arquitectos” nº 227

Nota: Muito agradeço a colaboração de João Augusto Aldeia, proprietário do blog “Sesimbra”, e de Nuno Oliveira, proprietário do blog “Reverentia” ,na cedência de fotos e desenhos para a elaboração deste artigo.

Outras fotos: Delcampe.net, André Semblano

28 de julho de 2013

Costa da Caparica (4)

Quarto, e último, duma série de 4 artigos com fotos da Costa da Caparica, dos anos 40 aos anos 60 do século XX.

                                 

Estalagem Rosa dos Ventos

                                 

Parque de campismo do “CCL - Clube de Campismo de Lisboa”

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Delcampe.net

26 de julho de 2013

Aeroporto de Santana nos Açores

Em 1939, foi criado o “Aérodromo Militar de Sant’ana”, o primeiro aeroporto na ilha de São Miguel, no lugar de Santana, em Rabo de Peixe, no Concelho da Ribeira Grande na Ilha de São Miguel. Operou como aeroporto militar, de 1939 a 1945,  a fim de dar apoio aos aliados.

“Aeroródromo de Sant’ana”

Vista aérea das 3 pistas do “Aeroporto de Santana”

Aquele aeródromo serviu inicialmente como base militar de apoio à II Guerra Mundial, ou seja entre 1939 a 1945, e fora então designado de Base Aérea nº 4. O grande contingente de aeronaves registou-se em 4 de Junho de 1941, quando o navio a vapor “Mirandela” saiu de Lisboa para S. Miguel, carregado com 30 aviões britânicos «Gloster Gladiator» e 5 alemães «Junkers» JU-52, bem como todo o material de apoio e pessoal, tendo em vista dotar aquele aeródromo com o equipamento e pessoal indispensável para a sua operacionalização.      

Transporte dos «Junkers» JU.52, por via terrestre, entre Ponta Delgada e Rabo de Peixe, em 1942

    

Em 1941, face à evolução da II Guerra Mundial, o Governo Português destaca para os Açores um Corpo Expedicionário, entre o qual se contam duas esquadrilhas de caça, pertença da da Arma de Aeronáutica Militar da Aeronáutica do Exército equipadas com aviões “Gloster Gladiator”. Uma, a nº 1 e comandada pelo Capitão Piloto Aviador Rodrigues Costa, destinada ao “Aérodromo de Sant’ana”, e a outra a nº 2 comandada pelo Tenente Piloto Aviador Manuel Pinto Machado de Barros, destinada às Lages, na Ilha Terceira.

«Gloster» Gladiator da Arma de Aeronáutica Militar da Aeronáutica do Exército

No dia 04 de Agosto de 1942, segundo narra o artigo 6.° da Ordem de Serviço do Grupo de Esquadrilhas N.° 2, as Forças de Aeronáutica nos Açores passaram a constituir a Base Aérea N.°4, no Aeródromo de  Sant’ana  em  S.  Miguel,  e  a  Base Aérea  N.° 5, no Aeródromo das Lages na Terceira.

Ficaram em Rabo de Peixe os 5 «Junkers» JU-52, conjuntamente com 15 dos «Gloster Gladiator», formando-se a Esquadrilha de Caça Expedicionária nº 1. Os outros 15 «Gloster» Gladiators desembarcaram na ilha Terceira, onde se formou a Esquadrilha de Caça Expedicionária nº 2. Entretanto, a Inglaterra enviou para Rabo de Peixe, naquele mesmo ano, 12 aviões «Curtiss» P-36 Mohawk II que formaram a Esquadrilha de Caça Expedicionária nº 3, pelo que naquela altura aquele aeródromo assumiu uma importância vital no decurso da guerra.

Avião da USAF no “Aérodromo de Sant’ana”

Aerodromo de Santana.15

Já a 1 de Agosto de 1943, no acordo firmado entre Portugal e o Reino Unido, o governo português concedeu facilidades na Base de Emergência de Santana em Rabo de Peixe e nas Lajes da Ilha Terceira. Em troca, o governo inglês cedeu 6 esquadrilhas de aviões de caça «Hurricane» para a Força Aérea Portuguesa.

Chegada de um Fortress Mark IIA da RAF Coastal Command em 1943

Em 1946, finda a II Grande Guerra Mundial, o “Aeródromo de Sant’ana” foi transformado em aeroporto civil, passando a chamar-se “Aeroporto de Santana”, com 2 pistas de aterragem, arrelvadas com respectivamente 1.500 e 1.000 metros de comprimento e assim S. Miguel passou a ter a sua porta de entrada pelo ar, o que viria a suceder até 1969.

 

                                 

 

Entretanto, em 21 de Agosto de 1941 foi fundada por alguns ilustres micaelenses a “Sociedade Açoriana de Estudos Aéreos”, a fim de obter a autorização do governo português para a exploração das ligações aéreas entre as ilhas e Lisboa. Contudo, só no dia 15 de Junho de 1947, foi inaugurado o primeiro vôo comercial, entre Santa Maria e São Miguel, com um pequeno avião «Beechcraft» de seu nome “Açor”  daSATA - Serviço Açoriano de Transportes Aéreos”, que tinha sido fundada em 21 de Agosto de 1941.

      Vôo inaugural da SATA entre São Miguel e Santa Maria, e o «Beechcraft» na pista do “Aeroporto de Santana”

 

                                                                                                1947

SATA.1 1947 SATA

«Beechcraft» na pista do “Aeródromo de Sant’ana” depois de efectuado o 2º vôo, entre Terceira e São Miguel

                                 

«De Havilland» DH 104 Dove da SATA junto ao hangar

Pelas dez horas, do dia 5 de Agosto de 1948, ocorreu o primeiro contratempo na história da aviação civil, em que o pequeno «Beechcraft» CS-TAA “Açor” da SATA, que transportava 4 passageiros e 2 tripulantes, falhou na descolagem do “Aeroporto de Santana”, para Santa Maria, despenhando-se no mar. Os tripulantes e os passageiros morreram, e a carga foi perdida.

Entretanto, regista-se uma nova fase de exploração aérea com a chegada a 23 de Maio de 1948, de 2 aviões «De Havilland» DH 104 Dove, entregues à SATA, e que iniciaram a sua operação a 1 de Agosto daquele ano, com a capacidade de 9 passageiros cada e com 700 kg. de carga. Em 21 de Agosto de 1963, a frota da SATA foi aumentada com a aquisição de um «Douglas» DC3 Dakota, com capacidade para 26 lugares. Nos céus de Rabo de Peixe cruzavam-se os aviões da SATA num vai e vem que se tornou familiar, e que faziam as ligações desta ilha, tanto para Lisboa, como para o resto do Mundo.

                       «De Havilland» DH 104 Dove                                                       «Douglas» DC3 Dakota              

 

Amália Rodrigues no Aeroporto de Santana em 20 de Março de 1953

 

Em 10 de Agosto de 1969, enquanto se inaugurava em Ponta Delgada a abertura do novo “Aeroporto de Nordela”, a população de Rabo de Peixe despedia-se com pesar do seu aeroporto, desaparecendo um espaço de grandes potencialidades para o desenvolvimento do Concelho da Ribeira Grande e que tantos e relevantes serviços prestou à aviação militar e civil.

“Aeroporto João Paulo II” em Ponta Delgada

 

                                 

Hoje em dia, percebe-se que muitos não sabem e outros já se esqueceram, que no lugar de Santana, da Vila de Rabo de Peixe funcionou, durante largos anos, o único aeroporto existente da ilha de S. Miguel. A quando das comemorações do 40º aniversário da inauguração do “Aeroporto da Nordela”, em Ponta Delgada, e que depois com a autonomia foi baptizado de “Aeroporto João Paulo II”, foi omitido o facto da existência do “Aeroporto de Santana”, depreciativamente apelidado então de “aerovacas”, dado que as suas pistas de aterragem eram arrelvadas, sendo  no entanto era considerada a porta de entrada pelo ar nesta ilha, fazendo ligação com o aeroporto internacional de Santa Maria e com o aeroporto da Ilha Terceira, tendo funcionado naquele espaço, até ao dia 10 de Agosto, de 1969.

                                            O que resta do “Aeroporto de Santana” em fotos de Luís Rosa

                   

                                

fotos In: Galeria de Filipe Franco no Flickr, Ailiners.net, Altimagem, História dos Açores

Bibliografia: História do Aeroporto de Santana baseado, em parte, no texto histórico disponibilizado pelo jornal “Correio dos Açores”.