3 de outubro de 2012

Cinema Império

O "Cinema Império" ou "Cine-Teatro Império" foi inaugurado em 24 de Maio de 1952, onde estiveram presentes o Ministro das Obras Públicas Transportes e Comunicações engenheiro Raúl da Costa Couvreur, o embaixador de França, o director do "SNI - Secretariado Nacional de Informação" José Manuel da Costa, entre outras individualidades.

      

Filme exibido no dia da inauguração

Terreno que viria a ser ocupado pelo Cinema Império

 

Primeiras propostas arquitectónicas de Cassiano Branco para o Cinema Império, em 1945

Iniicialmente projectado pelo arquitecto Cassiano Branco em 1945 sob um traço de arquitectura modernista, não seria, porém, ele a ser o responsável pelo projecto final devido a problemas de saúde. Assim de acordo com José Augusto França (in “Arte em Portugal no séc. XX”, pág. 558) a solução arquitectónica final é da responsabilidade do arquitecto António Varela, tendo posteriormente havido ainda outras intervenções finais como diz Augusto França «finalmente remediadas por Raul Chorão Ramalho e Frederico George».

Equipado com plateia, 1º e 2º balcões num total de 1676 lugares, foi construído no seguimento de outras grandes salas também edificadas nos anos 50 do século XX, só sendo suplantado, em lotação, pelos "Cinema São Jorge" e pelo "Cine-Teatro Monumental".

«O Cinema Império é luminoso como a sua vizinha Fonte; tão amplo como a também vizinha Alameda e tão bem integrado nas suas necessidades de bairro e da vida moderna, que se pode, sem favor, felicitar os que meteram ombros à empresa: o autor do projecto, o arquitecto Cassiano Branco, e aqueles que colaboraram na realização e na decoração.»

 

 

João Fragoso assinou o painel representando uma interpretação de Lisboa, colocado no foyer do 1º Balcão, e as cerâmicas que compunham a decoração.

Plantas e preçário de 1953

Em Janeiro 1958 teria lugar no Cinema Império o 1º Festival da Canção em Portugal, onde Simone de Oliveira se estreou em público. Cliff Richard e os Shadows realizaram aqui dois espectáculos nos dias 11 e 12 de Dezembro de 1965, com apresentação de Pedro Castelo. Nesta sala tiveram lugar grandes concertos, nomeadamente de jazz. Aí tocaram as orquestras de Count Basie (anos 50) e Quincy Jones (anos 60).

 

 

O "Cinema Império" também funcionou como teatro e entre 1961 e 1965 aqui actuou a companhia "Teatro Moderno de Lisboa" , nascida da iniciativa de Carmén Dolores, Armando Cortez, Fernando Gusmão e Rogério Paulo. Dados os compromissos da exploração do cinema, ao "Teatro Moderno de Lisboa", apenas foi possível reservar uma sessão à tarde, pelas 18,30 horas, às segundas, terças, quintas e sextas e uma sessão de manhã, aos domingos

Programa e bilhete do Teatro Moderno de Lisboa

Em 30 de Outubro de 1964 é inaugurada a sala "estúdio", com 243 lugares, que viria a ser instalado por cima do salão do 2º balcão, numa sala com a mesma área. Era conhecida como a que passava os filmes mais intelectuais e mais «complicados» - os filmes de Ingmar Bergman tinham ali lugar de destaque. O lado direito da sala (para quem estava sentado, virado para o ecrã), era todo envidraçado, o que possibilitava uma excelente vista sobre as a Alameda Afonso Henriques. No início das sessões essas janelas eram obviamente tapadas por uma grossa cortina deslizante.

Sala "estúdio" anunciada no edifício

Filme escolhido para a inauguração da sala "estúdio"

 

O início dos anos 80, e a proliferação das salas nos centros comerciais trouxeram a crise às grandes salas e o "Cinema Império" acabaria por encerrar como sala de cinema a 31 de Dezembro de 1983, embora esporádicamente até ao início dos anos 90 fosse escolhido como local para ante-estreias ou uma ou outra exibição relacionada com festivais de cinema. Foi posteriormente comprado pela IURD em 1992 que aí estabeleceu a sua sede e local de culto em Lisboa.

                                   Cinema Império em 1952                                                               Anúncio em 1955

 

Programa de Março de 1978

 

Assim como o "Cine-Teatro Monumental", foi equipado com o café-restaurante "Monumental" no piso térreo, também o "Cinema Império" no alçado da Av. Almirante Reis, foi equipado com o grandioso café-restaurante "Café Império", com dois pisos inaugurado em 1955 pertença da empresa "Oraboni & Ribeiro". Neste café-restaurante actuaram nas décadas de 50 e de 60 do século XX artistas como Madalena Iglésias, António Calvário e Artur Garcia. Este restaurante, que ainda hoje funciona depois de reaberto em 26 de Agosto de 2006, possui dois painéis artísticos: um belíssimo painel cerâmico da autoria de Martins Correia, e outro painel de Luis Dourdil. Além do restaurante, o "Café Império" tem ainda um espaço de Pastelaria, entre outros. No "Café Império" pode-se também assistir a espectáculos de música ao vivo, com artistas convidados.

“Café Império” atualmente

 

Em 1996 o "Cinema Império" foi classificado como imóvel de interesse público, pelo IGESPAR .

fotos in:  Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Horácio Novais), Hemeroteca Digital

8 comentários:

Margarida Elias disse...

Excelente post (como é habitual). E tenho saudades deste cinema - quando era cinema - e também do Café Império como era antigamente. Tem fotografias?

José Leite disse...

D. Margarida Elias

Grato pelo seu comentário.

Não tenho mais fotos do café, mas há umas semanas atrás fui lá jantar e pude observar que na sua estrutura e essência mantem as traças e decoração iniciais.

Isto apesar de, como pode observar nas fotos actuais, terem redecorado a nível de equipamentos e mobiliário o estbelecimento. Mas nas paredes tectos e chão não alteraram nada.

Cumprimentos

José Leite

CMP* disse...

Congratulo-o pelo conteúdo do artigo, no entanto gostaria de fazer uma pequena ressalva. Embora o revestimento de boa parte do interior do restaurante seja cerâmico, o conjunto escultórico do grande painel de fundo não é da autoria de Jorge Barradas, mas antes do escultor Martins Correia(1910-1999). Este equívoco parece perpetuar-se noutras fontes na internet.
Saudações,
CMP*

José Leite disse...

Caro CMP*

Muito grato não só pelas sua amáveis palavras como pela correcção.

A alteração do autor da escultura em questão já foi efectuada.

Cumprimentos

J.Leite

manuel alexandre disse...

Caro José Leite
Em primeiro lugar os meus parabéns pelo excelente artigo acerca do Cinema Império que só agora descobri (FB).
Gostaria de lembrar que este projecto "apanhou" o arquitecto Cassiano Branco numa fase complicada da sua vida e saúde. Assim o projecto que Cassiano Branco desenhou corresponde ao desenhos de 1945 que apresenta no post, mas nem por isso ele viria a desenhar a solução final, que seria o resultado de diversas intervenções da responsabilidade de outros arquitectos.
Assim de acordo com José Augusto França (in Arte em Portugal no séc. XX, pág. 558)a solução arquitectónica final é da responsabilidade do arquitecto António Varela, tendo posteriormente havido ainda outras intervenções finais como diz Augusto França " finalmente remediadas por Raul Chorão Ramalho e Frederico George.
cumprimento
Manuel Alexandre Silva Fernandes
2016/06/08

José Leite disse...

Caro Manuel Alexandre

Muito agradeço a sua correcção e informações adicionais, das quais tomei a liberdade de transcrever parte.

Já procedi à decida correcção.

Os meus cumprimentos

Anónimo disse...

Este cinema pertencia ao eng° Gil, pai do arq° Jorge Gil, uma das almas do programa Em Órbita. Este bolg é sempre bem documentado!

José Leite disse...

Grato pela informação adicional.

Os meus cumprimentos