1 de março de 2012

A. M. Almeida, Lda.

A empresa de comércio e importação de automóveis “A. M. Almeida, Lda.”  foi fundada em 1924 por António de Medeiros e Almeida, que nasceu em Lisboa no ano de 1895. Filho de um médico, quis seguir as pisadas do pai mas após ter frequentado quatro anos do curso de Medicina, desistiu no último ano para se dedicar ao mundo dos negócios. Estudou gestão na Alemanha e de regresso a Lisboa, em 1924 cria a firma “A. M. Almeida, Lda.” e monta na rua da Escola Politécnica, nº 39 em Lisboa um stand de automóveis iniciando a comercialização em Portugal da marca inglesa «Morris».

António de Medeiros e Almeida

Inauguração do Stand da “Morris”  da Rua da Escola Politécnica, em Lisboa em 1932

Seu sobrinho, João Medeiros e Almeida contou: «O meu tio propôs ao Lord Nuffield, dono da “Morris”, abrir um stand em Lisboa com os carros à consignação, já que não tinha dinheiro para os adquirir, dando-se a si próprio como garantia. Nuffield ficou estupefacto com a ousadia, mas aceitou». O stand da «Morris» na Rua da Escola Politécnica foi um sucesso e o lorde inglês não se arrependeu de apoiar o intrépido jovem.

Para a inauguração desta exposição foram convidados os embaixador e consul de Inglaterra, o presidente do conselho executivo da Câmara de Comércio inglesa, o gerente da “Anglo Portuguese Telephone”, e o director da companhia “Vacuum Oil Company”.

Carros expostos:

Morris-Minor 2 lugares
Morris-Minor saloon com tecto de abrir
Morris-Eight coupé sport de 4 lugares
Morris-Eight saloon
Morris-Cowley saloon com tecto fixo
Morris-Major saloon com tecto Fixo
Morris-Oxford saloon
Morris-Isis saloon com 5 lugares

                                               1926                                                                                 1928

 

Limousine «Stutz» de 1928

 

1939

Em 23 de Junho do mesmo ano, casou com Margarida Pinto Basto, pelo lado paterno descendente dos donos da Fábrica de Porcelanas da Vista Alegre, e materno, dos Condes de Pombeiro; em 1934, adquiriu a maior parte do capital da primeira companhia aérea nacional, a “Aero-Portuguesa”, que efectuava voos regulares entre Portugal e Marrocos. Neste ramo, foi um dos fundadores da “SATA - Sociedade de Transportes Aéreos Açorianos”, da “TAP - Transportes Aéreos Portugueses” e administrador da “IATA - International Air Transport Association”, tendo ainda administrado nos Açores, arquipélago de onde os pais eram oriundos, inúmeras empresas na área da navegação marítima e aérea, produção de açúcar e importação de combustíveis e álcool. Foi sócio da Casa Bensaúde, foi um dos fundadores do Hotel Ritz de Lisboa, e administrador da Companhia Nacional de Fiação, de Torres Novas.

Stand da Rua da Escola Politécnica,apenas com carros ligeiros e pesados comerciais

 

Loja de peças na Rua Actor Tasso

Stand na Avenida da Liberdade, em Lisboa

Em 1969 os escritórios e contabilidade da empresa "A. M. Almeida, S.A.R.L." são transferidos para Alcântara, o que permite a ampliação do salão de exposição e vendas na Avenida da Liberdade, que se pode ver na foto seguinte.

 

 «MG» 1100                               1966                               «Morris» 850

 

A “A. M. Almeida, S.A.R.L.” viria a ser ainda importadora e representante das marcas «Rolls-Royce» e «Bentley» marcas que viriam a ocupar o stand da Rua da Escola Politécnica. Viria também a ser representante da marca britânica «Triumph». Nas suas instalações em Campolide estavam instaladas as oficinas e vendas de peças.

Para a faceta de coleccionador despertou mais tarde. Adquire em 1943 uma casa na Rua Rosa Araújo em Lisboa, mandada construir em 1896 por um advogado lisboeta Augusto Vítor dos Santos, que  em 1927 é vendida ao Estado do Vaticano, para aí se instalar a Nunciatura Apostólica, representada por Monsenhor Pedro Ciriaci, Arcebispo de Tarso. Após obras de remodelação, transforma-a na sua habitação e no início da década de setenta do século XX decide ampliá-la, destruindo para isso o jardim, transformando-a em Casa-Museu, que ainda hoje se mantém. O casal passa então a residir numa casa ao lado, que entretanto adquire e onde habita até ao fim da vida.

Casa na Rua Rosa Araújo, em Lisboa

 

O «Cadillac» Fleetwood sixty special de 1955 de Medeiros e Almeida

O passar dos anos e o facto de não ter descendência fê-lo pensar no destino a dar à sua colecção de grande valor histórico e artístico. Assim surgiu a ideia de fazer uma fundação, concretizada em 1973, à qual doou todos os seus bens valorizando o acervo artístico e cultural do seu país.

Em 1973 António de Medeiros e Almeida criou a “Fundação Medeiros e Almeida”, para a qual doou todos os seus bens.

Interiores da residência de António de Medeiros e Almeida

 

        
 
Em Janeiro de 1978, quando, em Portugal, se viviam as convulsões sociais resultantes da revolução de 25 de Abril, e o seu projecto sofria também de convulsões, escreveu:
 
«Desde os meus vinte anos, isto é, desde 1915, comecei a interessar-me por antiguidades, que passeie a adquirir a partir dos meus 30 anos e quando a minhas posses o permitiam. Esse interesse foi-se desenvolvendo com intensidade e a pouco e pouco fui coleccionando peças raras de valor artístico e histórico como móveis, tapetes, lustres, loiças, bibelots, leques, (...), jóias, livros, cristais, azulejos, (...), etc.
 
À medida que o tempo ia correndo, tornei-me mais exigente e por isso fui pondo de parte determinadas peças e substituindo-as por outras mais valiosas. Assim, a selecção tem-se mantido cada vez mais rigorosa. Algumas dessas antiguidades foram adquiridas com certa dificuldade, umas vezes por os seus donos não quererem desfazer-se delas, outras por os seus preços estarem fora do meu alcance. Casos houve em que, para as adquirir, tive de esperar anos e outros em que, para as observar e discutir a compra, obrigado fui a deslocar-me por esse mundo fora. Mas o facto é que cada uma dessas peças, reunidas ao longo de 50 anos, faz hoje parte do meu ser e reflete o meu gosto. Por isso, sinto-me chocado quando alguém me sugere a vende de uma ou mais peças para resolver a minha actual situação financeira, que é difícil, visto ter entregue à Fundação que criei, todos os meus haveres e do pouco que me resta, parte estar nacionalizada ou comprometida para integrar a Fundação.

Na eventualidade de aumentarem essas dificuldades financeiras, preferirei, se a tanto as circunstâncias me levarem, recorrer à mendicidade, em vez de me desfazer de qualquer uma das peças que com tanto carinho e amor coleccionei para as deixar ao meu país. É possível que, por isso, me apelidem de tolo.» in Wikipédia

         

António de Medeiros e Almeida morreu em Fevereiro de 1986, com 90 anos.

Fotos in: Hemeroteca Digital, Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian

8 comentários:

polittikus disse...

Neste stand comprei eu dois automóveis. Um Rover Vitesse 1.6 em 1987 e mais tarde (1992) um Rover 416 GTI... belas máquinas de uma marca que já não existe.

Uma bela reportagem sem dúvida. Parabéns.

José Leite disse...

Caro Politikus

Já agora eu em 1986 comprei um Triumph Aclaim, e em 1993 um Rover 620 SI

Grato pelo seu comentário

João Celorico disse...

Eu, não comprei aí nenhum carro, mas relembro a "febre" do início dos anos 50, o "Morris Minor". Parece que não havia concurso que não tivesse como prémio um desses carros.

Mais um reavivar de memórias.
Bem haja,

João Celorico

José Leite disse...

Caro João Celorico

Grato pelos sempre atentos e amáveis comentários

Cumprimentos

José Magalhães disse...

Também eu comprei aí um MG Metro Turbo em 1985, que aínda hoje possuo.
Também foram aí comprados por meu pai, um Morris 1300 GT em 1970 ou 71, um Rover 213 SE, um Triumph Dolomite e um Triumph TR7.
Para além dos carros pessoais, Também aí foram comprados muitos Mini, Marinas van e Sherpas, para a empresa.

Céu Leal disse...

O meu pai trabalhou nesta empresa

Anónimo disse...

Adorei. Aprendi imenso. Estava a rever um relatório e contas desta empresa de 1970 e graças a este estudo coloquei datas na empresa. Adorei. Adtiano Silva (BPMP)

Anónimo disse...

Fui funcionário dessa empresa durante 14 anos