7 de fevereiro de 2012

Majestic Club

Mal foi proclamada a República a 5 de Outubro de 1910, e já os velhos hábitos cheiram a mofo. A aristocracia está arruinada e a burguesia ao rubro. Os especuladores enchem-se de dinheiro fácil com o mercado negro que floresce no final da I Guerra Mundial e os novos-ricos fazem a sua entrada em cena. A instabilidade política que se vive nos primeiros anos do novo regime introduz um caos quotidiano que provoca o desejo da urgência no dia a dia. Ninguém sabe o que virá no amanhã. A liberalização de costumes propostos pela nova cartilha social causa espanto e consternação: o divórcio é instituído, as mulheres sobem as saias pelo joelho e podem guiar automóveis. Algumas tratam os homens por tu e até saem à noite... onde já se viu uma coisa assim?! No vocabulário desta recém-modernidade, a palavra de ordem é ser-se chique. Para o diletante, o prazer de viver sintoniza-se com progresso e a cultura, a mundanidade e o luxo. E o luxo pede champanhe e regabofe.

O «Fox-Trot» nos anos 20 e 30 do século XX em capas de partituras portuguesas

  

Os novíssimos clubes noturnos lisboetas são vistos como lugares de civilização e começam a dar brado. Estes espaços que se instalam nos antigos palácios alugados pelas famílias falidas do «ancien régime» definem um eixo de folia, na novíssima geografia noctívaga que se desenha entre o Rossio, a Avenida da Liberdade e a Rua das Portas de Santo Antão. No Palácio do Marquês da Foz, na Praça dos Restauradores, abre em 1908 o luxuoso “Club dos Restauradores” mais conhecido por “Maxim's” : «Tem sala de baile com máquina de som e transformador próprio para efeitos luminosos, salas de jogo com roleta, salas de fumo e um restaurante que serve ceias até de madrugada».

E, depois, o “Bristol Club”, o mais moderno de todos, construído de raiz, com decoração de artistas e frescos de Almada. É no Bristol que se juntam os intelectuais, os artistas, pela noite dentro.

“Bristol Club”, 1928

Chegamos ao “Majestic Club”, o primeiro casino da capital, e foi inaugurado em 1918, no mesmo ano que o "Palace Club" e na mesma rua, na Rua Eugénio dos Santos, em Lisboa. O seu promotor, a firma “Resende, Limitada”, de Júlio César de Resende, decide instalá-lo no segundo andar e em parte do primeiro, do palácio seiscentista, pertencente aos viscondes de Alverca e condes da Anadia, e que foi alugado para este fim. Até à instalação do club, o Palácio Alverca albergara um armazém de venda de mobiliário e objectos de arte, de seu nome "A LIquidadora Universal" e ,também, num dos pátios das suas traseiras, um atelier fotográfico, de João Augusto Camacho, desde 1896.

Aquando da sua inauguração, dizia-se a propósito do "Majestic Club": «não é um recinto onde toda a gente entra! Não! É um club de fina sociedade, 'un cercle privé', onde para ser sócio e necessario pagar uma relativamente avultada joia, e quotas respectivas. Não é socio quem quer. É so quem pode ser.»

O arquitecto responsável foi António Rodrigues da Silva Júnior (1868-1937), coordenando uma equipe de decoradores que idealizaram cada sala no seu estilo diferente: inspirações orientais, dóricas, góticas, renascença, Luís XV, Luís XVI, etc. Os decoradores foram Benvindo Ceia, Domingos Costa e Jorge Colaço, coadjuvados pelo pintor Júlio Silva, que pintou os medalhões do hall do piso principal e José Ferreira Bazalisa, que pintou o tecto do toilette de senhoras e um Cupido lançando uma seta.

Escadas de acesso e hall de entrada

 

“Majestic Club”, pátios interiores

 

Ao todo, serão mais de 21 os clubes que surgiram em Lisboa, onde se experimentava cocaína, diz-se que introduzida por uma senhora francesa no “Clube Montanha”, e o absinto, e se dançava freneticamente fora dos espartilhos dos salões. Fizeram tal sucesso nos loucos anos 20 do século XX, que deram enredos para folhetins da época, narrativas de romance e números de revista. Durante um tempo fugaz, a noite tornava-se uma indústria nova, que prometia um fôlego de cosmopolitismo para o século que se estreava.

O piso nobre do palácio foi ocupado por uma grande sala de jantar, por uma sala de jogos, por uma sala de bilhar e uma sala de bridge. A decoração da sala de jantar ficou a cargo de Benvindo Ceia e de baile, tendo executado a pintura do tecto e os painéis circulares das sobreportas.

Com acesso pelo pátio árabe, situava-se a casa de banho das senhoras, um cabeleireiro e uma barbearia. Na ala nascente do "Majestic Club", foram criados gabinetes reservados, decorados pela "José Nascimento & Filhos, Lda.", do Porto, em estilos Luís XVI, Império e outros.

              Salão principal de jogo estilo eclético                                Salão de Baile e Restaurante estilo Luís XV

 

Pintura ornamental da sala de Jogo, representando Jogos Florais da autoria de Domingos Costa

         Sala de bilhar com os painéis de Jorge Barradas                     Sala de Jogo com os painéis de Jorge Barradas

 

                     Bar com painel de José Ferreira Bazaliza                                                Barbearia

          

Sala de leitura com painéis da autoria de Jorge Colaço inspirados em “Os Lusíadas”

Cozinha

A “Rezende Limitada”, como firma comercial que é, pretende auferir lucros da exploração do club e o “Majestic Club” transforma-se numa sala de jogos de azar muito rentável, mas que também conduz ao seu encerramento precoce, em 1920. No final desse mesmo ano, a “Sociedade de Hotéis e Restaurantes”, por iniciativa de Carlos Nápoles de Carvalho, aproveita as magníficas instalações que ficam do Majestic Club” e abre um novo clube, sob a designação de “Monumental Club”, que é proclamado como «um ponto de reunião elegante (…) onde se encontrem indivíduos de boa sociedade para conversar».

O “Monumental Club” procura manter essa imagem de exclusividade, luxo, elegância e respeitabilidade sendo, nos anos seguintes, palco de diversos almoços e banquetes, alguns dos quais verdadeiramente luxuosos. Contudo, tal não impede a sua associação ao jogo e a outras actividades consideradas por alguns como imorais. A 24 de Novembro de 1928, um correspondente em Lisboa do jornal “O Provir” de Beja dá notícia de um fogo ocorrido no club em meados desse mês, comentando que a Natureza, indignada com as imoralidades ali praticadas, se revoltou e «pegou fogo ao antro».

Em 1928 o club é encerrado pelas autoridades, em consequência das medidas legislativas tomadas pelo Estado Novo para a repressão do jogo. O edifício mantém-se fechado nos quatro anos seguintes, na esperança de poder voltar a explorar o negócio dos jogos de azar. Em 1932, confrontados com a impossibilidade desta hipótese, os proprietários do “Monumental Club” procuraram transaccionar com o Grémio Alentejano todos os direitos que possuíam sobre o imóvel, bem como o recheio de que são donos.

Júlio César de Rezende constituía uma personalidade de destaque na época, tendo-se distinguido como fundador dos primeiros casinos e clubs portugueses. Para além do "Majestic Club", o seu primeiro club, Júlio Rezende foi posteriormente proprietário do “Casino da Madeira por volta de 1923, do Grande Casino Peninsularda Figueira da Foz” em 1930 através duma sociedade, vindo ainda a adquirir o antigo “Casino Peninsular” de Espinho em 1932.

O Palácio Alverca permaneceu encerrado por quatro anos. Em 1932 apareceu então o Grémio do Alentejo disposto ao arrendamento do imóvel para instalação da sua sede e ponto de encontro privilegiado dos alentejanos em Lisboa. Ao Grémio sucedeu a “Casa do Alentejo” tornando-se na sede da Associação Regionalista Alentejana. Esta instituição não só se mantém, ainda hoje,  naquele local como tem efectuado obras profundas no edifício. Em 1981 este Palácio é adquirido aos descendentes de Paes do Amaral, tornando-se património de todos os alentejanos.

“Casa do Alentejo”

 

Para a elaboração deste artigo foi, também, consultado o livro “Lisboa Desaparecida” - Volume 8 de Marina Tavares Dias - Editora Quimera, 2003

fotos in: Casa do Alentejo

11 comentários:

Joana Lopes disse...

Magnífico!

José Leite disse...

Cara Joana Lopes

Muito grato pelo seu comentário

Cumprimentos

Joana Lopes disse...

Não resisti...

José Leite disse...

Cara Joana Lopes

Muito me honra, assim como outros blogues, que utilize excertos de meus artigos.

O que faço não é meu, mas sim muito me apraz partilhar as minhas aturadas pesquisase muitas horas de trabalho.

Não esqueço o contributo de outros blogues e fontes que me proporcionam fotos e outro tipo de "objectos", que lá vou usando e abusando,a quem estou sempre grato.

Penso que os editores desses blogues se sentirão, como eu, felizes por poderem partilhar o seu trabalho.

Grato por não ter «resistido»

Cumprimentos

Graça Sampaio disse...

Muito bom, como sempre! Adoro vir aqui "ver o passar" do século XX - o melhor de todos!

os loucos anos 20! Que loucos devem ter sido mesmo1 E como me atraem!

Parabéns pelo seu blogue.

José Leite disse...

Cara Graça Sampaio

Visitante assídua deste blogue, sempre com comentários gentis ao mesmo.

Grato pelo seu comentário

Cumprimentos

Inês mendes pinto disse...

Meu caro muito obrigado por este escrito. É a primeira vez que leio algo sobre o n bisavô Júlio César de Rezende. Penso que depois da venda do Maxim's terá saído para a Madeira, onde também foi empresário ligado ao jogo e daí para Espinho.
David Resende M. Pinto

Carlos Gomes disse...

Então o Casino Lisbonense onde se realizaram as célebres "Conferências do Casino", de imediato proibidas, junto à central telefónica da Trindade, não +e mais antigo?

José Leite disse...

Caro Carlos Gomes

Neste artigo referi os "Casinos" que tinham jogo mesmo que clandestinos.

Antes quando se falava de casinos como o "Casino Lisbonense", o "Casino Etoile" na Estrela ou o "Grande casino de Paris" na Avenida da Liberdade, referiam-se a casas onde exibiam espectáculos de variedades, pequenas peças de teatro e outros pequenos espectáculos, sem o jogo.

Cumprimentos

Julio Amorim disse...

Aqui sempre se aprende algo sobre Lisboa !

Keep up the good work !

Cumprimentos

José Leite disse...

Caro Julio Amorim

Muito grato pelo seu amável comentário.

Os meus cumprimentos